Começo pelas palavras. Desenterro livros já lidos. Vou atrás de um daqueles temas que nos perseguem, até que um dia os exorcisamos pela escrita.
O latim é uma língua da abstracção, e por isso se revela mais prática para a exposição de um assunto ou mais eficaz para o pensamento organizado. O grego era mais uma língua do recorte vivo, pulsante, da imagem na própria composição da palavra, que Heidegger soube recuperar para o seu jargão filosófico em alemão. A minha reflexão de hoje parte de um dos termos alemães para suicídio — Freitod, morte livre —, que prefiro aos que decalcam o termo latino (Selbstmord = assassinato de si, ou Selbsttötung = morte de si, ou mesmo Suizid, tal e qual).
Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.