A Phala

O Rubā‘iyat de Umar-I Khayyām

In Documenta Poetica on 6 de julho de 2009 at 11:21

khayyam Pela pri­meira vez se apre­senta em Por­tu­gal uma an­to­lo­gia de «ruba’i»s (quar­te­tos) do po­eta as­tró­nomo e ma­te­má­tico persa Umar-i Khayyām (1048-1132, d.C.) tra­du­zi­dos a par­tir do texto ori­gi­nal impresso Ruba’yati Umari Kayyam, edições Adib [Tājikistān], 2000.

A an­to­lo­gia é bi­lin­gue, con­tém os tex­tos em persa e a res­pec­tiva tra­du­ção em por­tu­guês. Trata-se de uma se­lec­ção de 51 quar­te­tos da res­pon­sa­bi­li­dade to­tal de Ha­lima Nai­mova. Além da es­co­lha dos quar­te­tos (de uma co­lec­ção), é sua a tra­du­ção em por­tu­guês — que do­mina com «se­di­men­tos» de ló­gica for­mal lin­guís­tica de raiz não ro­mâ­nica —, e, so­bre­tudo, é tam­bém seu o belo de­se­nho ca­li­grá­fico da có­pia em persa. Igual­mente se lhe deve o ma­te­rial para re­pro­du­ção ico­no­grá­fica.

 

«Quando for afrontado pela hora da morte,

Arrancado pela raiz da esperança da vida,

Do barro, meu abrigo, moldem uma jarra,

Enchendo-a com o vinho, ressuscitarei de novo.»

 

Não é a pri­meira ex­pe­ri­ên­cia; esta an­to­lo­gia, que Ha­lima Nai­mova nos dá no con­tri­buto para uma ini­ci­a­ção, em Por­tu­gal e em por­tu­guês, na po­e­sia ful­gu­rante de Umar-i Khayyām sem pla­ta­forma de nos che­gar pela via de uma ou­tra lín­gua tra­du­tora in­ter­me­di­á­ria. A nosso pe­dido Ha­lima Nai­mova co­la­bo­rou na edi­ção que fi­ze­mos, e saiu em fins de 1997, do li­vro Can­ções de be­ber — Ruba’iyat na obra de Fer­nando Pes­soa, com uma nota, «Umar-i Khayyām e o ruba’i», e a tra­du­ção, a par­tir do persa, de 12 «ruba’i» de que só dois es­tão in­cor­po­ra­dos nesta se­lec­ção: 2/323 e 4/603; e ne­nhum in­te­grou a re­e­di­ção, com­ple­tada, das Can­ções de Be­ber — ruba’iat na obra de Fer­nando Pes­soa, vinda a lume, para o grande pú­blico, na As­sí­rio & Al­vim, em Ja­neiro de 2003. O in­te­resse desta co­lec­tâ­nea «oma­ri­ana» agora le­vada a cabo por Ha­lima Nai­mova é evi­dente, pe­las suas ca­rac­te­rís­ti­cas de tra­ta­mento tex­tual e por uma justa mais-va­lia de ver­sões di­rec­tas e iné­di­tas.

É con­sen­sual que o «cor­pus» de «ruba’i»s de Umar-i Khayyām, fi­xado o seu tí­tulo no plu­ral co­lec­tivo «Rubā‘iyat» («Qua­dras»), per­tence ao pa­tri­mó­nio cul­tu­ral da hu­ma­ni­dade. A sua for­tuna edi­to­rial é imensa e «quasi» uni­ver­sal pe­las inú­me­ras lín­guas em que está tra­du­zido, ha­vendo, até, uma co­lec­tâ­nea de tra­du­ção na lín­gua ar­ti­fi­cial es­pe­ranto.

Em Por­tu­gal, a di­fu­são dos quar­te­tos de Umar-i Khayyām foi muito res­trita, atra­vés de tra­du­ções em in­glês (Edward Fitzge­rald par­ti­cu­lar­mente) ou em fran­cês (so­bre­tudo Franz Tous­saint) e uma sua di­vul­ga­ção, em por­tu­guês e edi­tada em Por­tu­gal, es­cas­sís­sima e té­nue. Ape­nas três li­vros: Umar-i Khayyām, Ru­baiyat. Li­vro de Qua­dras, tra­du­ção por­tu­guesa com um es­tudo bi­o­grá­fico do au­tor por Go­mes Mon­teiro, Lis­boa, Emp. Di­á­rio de No­tí­cias, 1927; 

Umar-i Khayyām, Ru­baiyat, Odes ao Vi­nho, pre­fá­cio de E.M. de Melo e Cas­tro, ver­são de Fer­nando Couto, Lis­boa, Mo­raes Edi­to­res, [1981?], re­pu­bli­cado nos «Clás­si­cos de Bolso» da Edi­to­rial Es­tampa, Lis­boa, 1991;

Umar-i Khayyām, Ru­baiyat, ce­le­bra­ção da vida, tra­du­ção de  A. Cé­sar Ro­dri­gues, se­gundo a ver­são in­glesa de Fran­cis Scott Fitzge­rald, Coi­sas de Ler Edi­ções, Apar­tado 3168, Que­luz, 2002. [Esta edi­ção, de Coi­sas de Ler, é per­fei­ta­mente si­mi­lar a uma, em es­pa­nhol, sa­ída em Bar­ce­lona, na Edi­co­mu­ni­ca­ción, em 1994; pos­suo, ac­tu­al­mente, edi­ção sa­ída em 1999. Na busca que fiz na vas­tís­sima bi­bli­o­gra­fia de Fran­cis Scott Fitzge­rald não con­se­gui lo­ca­li­zar, nas tra­du­ções, o tí­tulo The Ru­baiyat of Omar Khayyam].

Há «o caso» Fer­nando Pes­soa, que fre­quen­tou atu­ra­da­mente a lei­tura de Umar-i Khayyām, e usou te­mas e mo­ti­vos do Rubā‘iyat oma­ri­ano na es­tru­tura for­mal do «ruba’i», em parte da sua pró­pria cri­a­ção e em al­guns ca­sos de de­li­be­rada tra­du­ção de de­ter­mi­na­dos quar­te­tos, mol­dando-se na tra­du­ção in­glesa de Edward Fitzge­rald. O re­levo dessa pro­du­ção, em Fer­nando Pes­soa, só muito tarde foi de­tec­tado, tex­tos quase to­dos iné­di­tos, e, pre­do­mi­nan­te­mente, re­ve­la­dos e es­tu­da­dos ao longo da nossa pes­quisa de anos. Na edi­ção das Can­ções de Be­ber — Ruba’iyat na obra de Fer­nando Pes­soa, As­sí­rio & Al­vim, 2003, que já ci­tá­mos, faz-se o ponto da si­tu­a­ção her­me­nêu­tica deste «cor­pus» pes­so­ano, no nosso es­tudo in­tro­du­tó­rio, e dá-se o «cor­pus» tex­tual a que che­gá­mos, con­sulta sis­te­má­tica dos dois fun­dos ori­gi­nais de Pes­soa (Bi­bli­o­teca Na­ci­o­nal de Lis­boa e Casa Fer­nando Pes­soa, Lis­boa) e que se eleva ao to­tal, bas­tante pon­de­rá­vel, a 182 quar­te­tos. Fer­nando Pes­soa, na fre­quên­cia dos «ruba’i»s oma­ri­a­nos, ao que sa­be­mos, pre­zou duas obras: a edi­ção, na Tauchnitz, em um vo­lume, das qua­tro edi­ções, de Edward Fitzge­rald, de Ruba’iyat of Omar Khayyam — the As­tro­no­mer-Poet of Per­sia, e o es­tudo e tra­du­ção de T.H. Weir, Omar Khayyam the Poet, Lon­don, J. Mur­ray, 1926. Am­bas as tra­du­ções se ba­seiam no manuscrito persa bol­dei­ano de Ox­ford, de 1460 (d.C.).

Con­vi­ver com va­ri­a­das tra­du­ções de «ruba’iyat» de Umar-i Khayyām (re­firo só as que são fei­tas a par­tir de ori­gi­nais per­sas) é uma cu­ri­osa aven­tura pela di­ver­si­dade das op­ções nos cri­té­rios uti­li­za­dos para as tra­du­ções. Por ne­ces­si­dade de tra­ba­lho (a pes­quisa em Pes­soa) fui jun­tando, sem ser co­lec­cio­na­dora, as tra­du­ções sig­ni­fi­ca­ti­vas que pude nas lín­guas que sou ca­paz de ler, e ve­ri­fica-se uma ex­plo­são de téc­ni­cas cons­tru­ti­vas e se­lec­ções le­xi­cais à volta da es­tru­tura téc­nica do «ruba’i» e do campo se­mân­tico que ca­rac­te­riza a pro­du­ção atri­bu­ída a Umar-i Khayyām. Na op­ção des­tes cri­té­rios ve­ri­fi­cam-se nor­ma­ti­va­mente duas ten­dên­cias: pôr a ên­fase de sus­ten­ta­ção na lín­gua de che­gada ou, pelo con­trá­rio, pôr essa ên­fase de sus­ten­ta­ção na lín­gua de par­tida, o persa e o uni­verso gra­ma­ti­cal e sig­ni­fi­cante de Umar-i Khayyām no «ruba’i».

Es­tas no­tas que fo­mos ex­pla­nando atrás si­tuam a an­to­lo­gia pre­pa­rada por Ha­lima Nai­mova, para esta edi­ção da As­sí­rio & Al­vim, na for­tuna edi­to­rial de Umar-i Khayyām em Por­tu­gal e pos­si­bi­li­tam de­fi­nir a sua po­si­ção her­me­nêu­tica, no seu tra­ba­lho de tra­du­ção, na in­ter­na­ci­o­nal fa­mí­lia de tra­du­to­res de Umar-i Khayyām a par­tir de ori­gi­nais per­sas.

É evi­dente que Ha­lima Nai­mova, nos seus cri­té­rios de tra­du­ção, se ins­creve na se­gunda ten­dên­cia que apon­tá­mos acima: a ên­fase de sus­ten­ta­ção é posta na lín­gua de par­tida, o uni­verso sig­ni­fi­cante de Umar-i Khayyām em persa, o que lhe é op­ção na­tu­ral­mente jus­ti­fi­cada pe­las suas raí­zes fa­mi­lia­res e pela sua pre­pa­ra­ção aca­dé­mica es­pe­cí­fica. Ex­plica-o, aliás, na pe­quena nota de cri­té­rios adop­ta­dos para a sua tra­du­ção, que re­di­giu a an­te­ce­der o «cor­pus» tex­tual da an­to­lo­gia. Não mo­der­ni­zou a lín­gua de che­gada des­ca­rac­te­ri­zando ex­pres­sões da fonte ori­gi­nal nem sub­stitu­iu le­xe­mas que são ter­mi­no­lo­gias in­tra­du­zí­veis sem ser por pe­rí­fra­ses ou ter­mos apro­xi­ma­ti­vos em­po­bre­ce­do­res. As­sim, man­tém vo­cá­bu­los fun­da­men­tais na trans­li­te­ra­ção da lín­gua ori­gi­nal e que ex­plica num pe­queno glos­sá­rio, in­tro­duz a ex­pres­são, nova em por­tu­guês, «casa do vi­nho», (65/22), em vez do vo­cá­bulo cor­rente ta­berna, ex­pres­são tam­bém pre­fe­rida «mai­son de vin» por um tra­du­tor para fran­cês, Ar­mand Ro­bin (Club Fran­çais du Li­vre, 1958, re­e­di­ção, na Gal­li­mard, 1994), em vez do cor­rente «ca­ba­ret» op­tado por ou­tros, como por exem­plo Gil­bert La­zard, numa co­lec­tâ­nea bi­lin­gue sa­ída, tam­bém na Gal­li­mard, em 2002.

A «ex­ce­lên­cia» con­ten­dís­tica dos quar­te­tos so­bres­sai ni­ti­da­mente nes­tas tra­du­ções de Ha­lima Nai­mova, a sua con­for­ma­ção lin­guís­tica é, cre­mos, sem­pre pró­pria e, na maior parte dos ca­sos, har­mo­ni­osa e fe­liz. Que há, na tra­di­ção do «cor­pus» oma­ri­ano, quar­te­tos de di­fí­cil pe­ne­tra­ção é es­pi­nho re­fe­rido pe­los tra­du­to­res que la­bo­ram com ori­gi­nais, o caso de Ha­lima Nai­mova: um ou ou­tro «ruba’i», neste con­junto de 51, nos sus­ci­tará um pouco mais de es­forço de lei­tura. Lei­tura não vã, em caso al­gum!

E é tudo.

Maria Aliete Galhoz

 

Pela pri­meira vez se apre­senta em Por­tu­gal uma an­to­lo­gia de «ruba’i»s (quar­te­tos) do po­eta as­tró­nomo e ma­te­má­tico persa Umar-i Khayyām (1048-1132, d.C.) tra­du­zi­dos a par­tir do texto ori­gi­nal impresso Ruba’yati Umari Kayyam, edições Adib [Tājikistān], 2000.
A an­to­lo­gia é bi­lin­gue, con­tém os tex­tos em persa e a res­pec­tiva tra­du­ção em por­tu­guês. Trata-se de uma se­lec­ção de 51 quar­te­tos da res­pon­sa­bi­li­dade to­tal de Ha­lima Nai­mova,  além da es­co­lha dos quar­te­tos (de uma co­lec­ção), é sua a tra­du­ção em por­tu­guês — que do­mina com «se­di­men­tos» de ló­gica for­mal lin­guís­tica de raiz não ro­mâ­nica —, e, so­bre­tudo, é tam­bém seu o belo de­se­nho ca­li­grá­fico da có­pia em persa. Igual­mente se lhe deve o ma­te­rial para re­pro­du­ção ico­no­grá­fica.
Não é a pri­meira ex­pe­ri­ên­cia; esta an­to­lo­gia, que Ha­lima Nai­mova nos dá no con­tri­buto para uma ini­ci­a­ção, em Por­tu­gal e em por­tu­guês, na po­e­sia ful­gu­rante de Umar-i Khayyām sem pla­ta­forma de nos che­gar pela via de uma ou­tra lín­gua tra­du­tora in­ter­me­di­á­ria. A nosso pe­dido Ha­lima Nai­mova co­la­bo­rou na edi­ção que fi­ze­mos, e saiu em fins de 1997, do li­vro Can­ções de be­ber — Ruba’iyat na obra de Fer­nando Pes­soa, com uma nota, «Umar-i Khayyām e o ruba’i», e a tra­du­ção, a par­tir do persa, de 12 «ruba’i» de que só dois es­tão in­cor­po­ra­dos nesta se­lec­ção: 2/323 e 4/603; e ne­nhum in­te­grou a re­e­di­ção, com­ple­tada, das Can­ções de Be­ber — ruba’iat na obra de Fer­nando Pes­soa, vinda a lume, para o grande pú­blico, na As­sí­rio & Al­vim, em Ja­neiro de 2003. O in­te­resse desta co­lec­tâ­nea «oma­ri­ana» agora le­vada a cabo por Ha­lima Nai­mova é evi­dente, pe­las suas ca­rac­te­rís­ti­cas de tra­ta­mento tex­tual e por uma justa mais va­lia de ver­sões di­rec­tas e iné­di­tas.
É con­sen­sual que o «cor­pus» de «ruba’i»s de Umar-i Khayyām, fi­xado o seu tí­tulo no plu­ral co­lec­tivo «Rubā‘iyat» («Qua­dras»), per­tence ao pa­tri­mó­nio cul­tu­ral da hu­ma­ni­dade. A sua for­tuna edi­to­rial é imensa e «quasi» uni­ver­sal pe­las inú­me­ras lín­guas em que está tra­du­zido, ha­vendo, até, uma co­lec­tâ­nea de tra­du­ção na lín­gua ar­ti­fi­cial es­pe­ranto.
Em Por­tu­gal a di­fu­são dos quar­te­tos de Umar-i Khayyām foi muito res­trita, atra­vés de tra­du­ções em in­glês (Edward Fitzge­rald par­ti­cu­lar­mente) ou em fran­cês (so­bre­tudo Franz Tous­saint) e uma sua di­vul­ga­ção, em por­tu­guês e edi­tada em Por­tu­gal, es­cas­sís­sima e té­nue. Ape­nas três li­vros: Umar-i Khayyām, Ru­baiyat. Li­vro de Qua­dras, tra­du­ção por­tu­guesa com um es­tudo bi­o­grá­fico do au­tor por Go­mes Mon­teiro, Lis­boa, Emp. Di­á­rio de No­tí­cias, 1927; 
Umar-i Khayyām, Ru­baiyat, Odes ao Vi­nho, pre­fá­cio de E.M. de Melo e Cas­tro, ver­são de Fer­nando Couto, Lis­boa, Mo­raes Edi­to­res, [1981?], re­pu­bli­cado nos «Clás­si­cos de Bolso» da Edi­to­rial Es­tampa, Lis­boa, 1991;
Umar-i Khayyām, Ru­baiyat, ce­le­bra­ção da vida, tra­du­ção de 
A. Cé­sar Ro­dri­gues, se­gundo a ver­são in­glesa de Fran­cis Scott Fitzge­rald, Coi­sas de Ler Edi­ções, Apar­tado 3168, Que­luz, 2002.
[Esta edi­ção, de Coi­sas de Ler, é per­fei­ta­mente si­mi­lar a uma, em es­pa­nhol, sa­ída em Bar­ce­lona, na Edi­co­mu­ni­ca­ción, em 1994; pos­suo, ac­tu­al­mente, edi­ção sa­ída em 1999. Na busca que fiz na vas­tís­sima bi­bli­o­gra­fia de Fran­cis Scott Fitzge­rald não con­se­gui lo­ca­li­zar, nas tra­du­ções, o tí­tulo The Ru­baiyat of Omar Khayyam].
Há «o caso» Fer­nando Pes­soa, que fre­quen­tou atu­ra­da­mente a lei­tura de Umar-i Khayyām, e usou te­mas e mo­ti­vos do Rubā‘iyat oma­ri­ano na es­tru­tura for­mal do «ruba’i» em parte da sua pró­pria cri­a­ção e em al­guns ca­sos de de­li­be­rada tra­du­ção de de­ter­mi­na­dos quar­te­tos, mol­dando-se na tra­du­ção in­glesa de Edward Fitzge­rald. O re­levo dessa pro­du­ção, em Fer­nando Pes­soa, só muito tarde foi de­tec­tado, tex­tos quase to­dos iné­di­tos, e, pre­do­mi­nan­te­mente, re­ve­la­dos e es­tu­da­dos ao longo da nossa pes­quisa de anos. Na edi­ção das Can­ções de Be­ber — Ruba’iyat na obra de Fer­nando Pes­soa, As­sí­rio & Al­vim, 2003, que já ci­tá­mos, faz-se o ponto da si­tu­a­ção her­me­nêu­tica deste «cor­pus» pes­so­ano, no nosso es­tudo in­tro­du­tó­rio, e dá-se o «cor­pus» tex­tual a que che­gá­mos, con­sulta sis­te­má­tica dos dois fun­dos ori­gi­nais de Pes­soa (Bi­bli­o­teca Na­ci­o­nal de Lis­boa e Casa Fer­nando Pes­soa, Lis­boa) e que se eleva ao to­tal, bas­tante pon­de­rá­vel, a 182 quar­te­tos. Fer­nando Pes­soa, na fre­quên­cia dos «ruba’i»s oma­ri­a­nos, ao que sa­be­mos, pre­zou duas obras: a edi­ção, na Tauchnitz, em um vo­lume, das qua­tro edi­ções, de Edward Fitzge­rald, de Ruba’iyat of Omar Khayyam — the As­tro­no­mer-Poet of Per­sia e o es­tudo e tra­du­ção de T.H. Weir, Omar Khayyam the Poet, Lon­don, J. Mur­ray, 1926. Am­bas as tra­du­ções se ba­seiam no manuscrito persa bol­dei­ano de Ox­ford, de 1460 (d.C.).
Con­vi­ver com va­ri­a­das tra­du­ções de «ruba’iyat» de Umar-i Khayyām (re­firo só as que são fei­tas a par­tir de ori­gi­nais per­sas) é uma cu­ri­osa aven­tura pela di­ver­si­dade das op­ções nos cri­té­rios uti­li­za­dos para as tra­du­ções. Por ne­ces­si­dade de tra­ba­lho (a pes­quisa em Pes­soa) fui jun­tando, sem ser co­lec­cio­na­dora, as tra­du­ções sig­ni­fi­ca­ti­vas que pude nas lín­guas que sou ca­paz de ler, e ve­ri­fica-se uma ex­plo­são de téc­ni­cas cons­tru­ti­vas e se­lec­ções le­xi­cais à volta da es­tru­tura téc­nica do «ruba’i» e do campo se­mân­tico que ca­rac­te­riza a pro­du­ção atri­bu­ída a Umar-i Khayyām. Na op­ção des­tes cri­té­rios ve­ri­fi­cam-se nor­ma­ti­va­mente duas ten­dên­cias: pôr a ên­fase de sus­ten­ta­ção na lín­gua de che­gada ou, pelo con­trá­rio, pôr essa ên­fase de sus­ten­ta­ção na lín­gua de par­tida, o persa e o uni­verso gra­ma­ti­cal e sig­ni­fi­cante de Umar-i Khayyām no «ruba’i».
Es­tas no­tas que fo­mos ex­pla­nando atrás si­tuam a an­to­lo­gia pre­pa­rada por Ha­lima Nai­mova, para esta edi­ção da As­sí­rio & Al­vim, na for­tuna edi­to­rial de Umar-i Khayyām em Por­tu­gal e pos­si­bi­li­tam de­fi­nir a sua po­si­ção her­me­nêu­tica, no seu tra­ba­lho de tra­du­ção, na in­ter­na­ci­o­nal fa­mí­lia de tra­du­to­res de Umar-i Khayyām a par­tir de ori­gi­nais per­sas.
É evi­dente que Ha­lima Nai­mova, nos seus cri­té­rios de tra­du­ção, se ins­creve na se­gunda ten­dên­cia que apon­tá­mos acima: a ên­fase de sus­ten­ta­ção é posta na lín­gua de par­tida, o uni­verso sig­ni­fi­cante de Umar-i Khayyām em persa, o que lhe é op­ção na­tu­ral­mente jus­ti­fi­cada pe­las suas raí­zes fa­mi­lia­res e pela sua pre­pa­ra­ção aca­dé­mica es­pe­cí­fica. Ex­plica-o, aliás, na pe­quena nota, de cri­té­rios adop­ta­dos para a sua tra­du­ção, que re­di­giu a an­te­ce­der o «cor­pus» tex­tual da an­to­lo­gia. Não mo­der­ni­zou a lín­gua de che­gada des­ca­rac­te­ri­zando ex­pres­sões da fonte ori­gi­nal nem sub­sti­-tu­iu le­xe­mas que são ter­mi­no­lo­gias in­tra­du­zí­veis sem ser por pe­rí­fra­ses ou ter­mos apro­xi­ma­ti­vos em­po­bre­ce­do­res. As­sim, man­tém vo­cá­bu­los fun­da­men­tais na trans­li­te­ra­ção da lín­gua ori­gi­nal e que ex­plica num pe­queno glos­sá­rio, in­tro­duz a ex­pres­são, nova em por­tu­guês, «casa do vi­nho», (65/22), em vez do vo­cá­bulo cor­rente ta­berna; ex­pres­são tam­bém pre­fe­rida «mai­son de vin» por um tra­du­tor para fran­cês, Ar­mand Ro­bin (Club Fran­çais du Li­vre, 1958, re­e­di­ção, na Gal­li­mard, 1994), em vez do cor­rente «ca­ba­ret» op­tado por ou­tros, como por exem­plo Gil­bert La­zard numa co­lec­tâ­nea bi­lin­gue sa­ída, tam­bém na Gal­li­mard, em 2002.
A «ex­ce­lên­cia» con­ten­dís­tica dos quar­te­tos so­bres­sai ni­ti­da­mente nes­tas tra­du­ções de Ha­lima Nai­mova, a sua con­for­ma­ção lin­guís­tica é, cre­mos, sem­pre pró­pria e, na maior parte dos ca­sos, har­mo­ni­osa e fe­liz. Que há, na tra­di­ção do «cor­pus» oma­ri­ano, quar­te­tos de di­fí­cil pe­ne­tra­ção é es­pi­nho re­fe­rido pe­los tra­du­to­res que la­bo­ram com ori­gi­nais, o caso de Ha­lima Nai­mova: um ou ou­tro «ruba’i», neste con­junto de 51, nos sus­ci­tará um pouco mais de es­forço de lei­tura. Lei­tura não vã, em caso al­gum!
E é tudo.
Lisboa, Agosto de 2004
Maria Aliete Galhoz

 

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