A Phala

Os Poemas de Melville

In Documenta Poetica on 6 de julho de 2009 at 12:09
Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.
Eugénio de Andrade
A selecção de poemas de Herman Melville foi elaborada a partir de três livros seus: Battle-Pieces and Aspects of the War, de 1866, John Marr and Other Sailors, de 1888, e Timoleon, Etc., de 1891. Excluí desta selecção Clarel — A Poem and a Pilgrimage in the Holy Land, de 1876, devido à extensão dos poemas que compõem as diferentes secções. Idêntica opção foi seguida relativamente à escolha dos poemas dos livros aqui antologiados, cuja extensão, em particular a dos monólogos dramáticos, tornaria inviável uma perspectiva prismática da sua poesia. A opção pelos poemas mais curtos é, aliás, corroborada pelos estudiosos de Melville que neles reconhecem os instantes mais relevantes da sua obra. Entre estes poemas tentei seleccionar aqueles que melhor transmitem a sua sensibilidade estética e as suas recorrências tópicas. A edição escolhida em língua inglesa foi The Poems of Herman Melville (The Kent State University Press, 2000), organizada por Douglas Robillard.
Um derradeiro aspecto: tradução ou versão? O próprio Douglas Robillard admite quão difícil era, para o contemporâneo de Melville, ler os seus poemas. Os jogos prosódicos, as interferências do Middle-English (meetly em «A exumação do Hermes», por exemplo), ou do anglo-saxónico (em «O Prenúncio», por exemplo, weird, é adaptado do anglo-saxão wyrd, estranho), a sistemática convocação de vocábulos náuticos, de jargão científico (em «O icebergue», por exemplo, needle-ice é um fenómeno de congelamento), coexistindo e/ou dialogando com referências a divertimentos ou jogos (ainda em «O icebergue» a referência a jack-straw), as rimas, os jogos intertextuais, de difícil compreensão para quem não esteja familiarizido com o conjunto da sua obra narrativa e poética, os ecos biográficos, perceptíveis apenas ao conhecedor das suas circunstâncias biográficas, as enigmáticas elisões (veja-se o título de «Lamento de C______»), faziam dele, no século XIX, um poeta difícil. Não menos o será hoje. Talvez por tudo isto não sei se aquilo que apresento são traduções ou versões dos seus poemas; talvez sejam apenas versões, versões feitas por quem há trinta anos tem vindo a sentir um intenso fascínio pela obra deste escritor maior. Um fascínio e um apelo que Eugénio de Andrade tão bem sintetizou.
Algures na década de 1930, um ensaísta americano considerou que era tempo de descobrir a obra poética de Herman Melville. Este é o meu modesto contributo nesse sentido para os leitores de língua portuguesa.
melville«Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.»


 Eugénio de Andrade

 

A selecção de poemas de Herman Melville foi elaborada a partir de três livros seus: Battle-Pieces and Aspects of the War, de 1866, John Marr and Other Sailors, de 1888, e Timoleon, Etc., de 1891. Excluí desta selecção Clarel — A Poem and a Pilgrimage in the Holy Land, de 1876, devido à extensão dos poemas que compõem as diferentes secções. Idêntica opção foi seguida relativamente à escolha dos poemas dos livros aqui antologiados, cuja extensão, em particular a dos monólogos dramáticos, tornaria inviável uma perspectiva prismática da sua poesia. A opção pelos poemas mais curtos é, aliás, corroborada pelos estudiosos de Melville que neles reconhecem os instantes mais relevantes da sua obra. Entre estes poemas tentei seleccionar aqueles que melhor transmitem a sua sensibilidade estética e as suas recorrências tópicas. A edição escolhida em língua inglesa foi The Poems of Herman Melville (The Kent State University Press, 2000), organizada por Douglas Robillard.

 

 

                                                                     MONÓDIA

                                                «Tê-lo conhecido, tê-lo amado

                                                     Após longa solidão;

                                                E depois dele ser apartado em vida,

                                                     E sem culpa alguma de um de nós;

                                                E agora perante o selo da morte —

                                                    Apazigua-me, dá-me alguma paz, canção minha!

 

                                               Em montes invernosos seu talude solitário

                                                  Lençóis brancos de neve cobrem,

                                               E sem lar, ali, o tentilhão branco paira

                                                  Sob a funérea sombra do abeto:

                                              Vítrea agora, pois de gelo coberta, a vinha claustral

                                                  Que escondeu a mais tímida uva.»*

 

Um derradeiro aspecto: tradução ou versão? O próprio Douglas Robillard admite quão difícil era, para o contemporâneo de Melville, ler os seus poemas. Os jogos prosódicos, as interferências do Middle-English (meetly em «A exumação do Hermes», por exemplo), ou do anglo-saxónico (em «O Prenúncio», por exemplo, weird, é adaptado do anglo-saxão wyrd, estranho), a sistemática convocação de vocábulos náuticos, de jargão científico (em «O icebergue», por exemplo, needle-ice é um fenómeno de congelamento), coexistindo e/ou dialogando com referências a divertimentos ou jogos (ainda em «O icebergue» a referência a jack-straw), as rimas, os jogos intertextuais, de difícil compreensão para quem não esteja familiarizido com o conjunto da sua obra narrativa e poética, os ecos biográficos, perceptíveis apenas ao conhecedor das suas circunstâncias biográficas, as enigmáticas elisões (veja-se o título de «Lamento de C______»), faziam dele, no século XIX, um poeta difícil. Não menos o será hoje. Talvez por tudo isto não sei se aquilo que apresento são traduções ou versões dos seus poemas; talvez sejam apenas versões, versões feitas por quem há trinta anos tem vindo a sentir um intenso fascínio pela obra deste escritor maior. Um fascínio e um apelo que Eugénio de Andrade tão bem sintetizou.

Algures na década de 1930, um ensaísta americano considerou que era tempo de descobrir a obra poética de Herman Melville. Este é o meu modesto contributo nesse sentido para os leitores de língua portuguesa.

Mário Avelar

 

 

CRONOLOGIA


1819 — Nasce a 1 de Agosto, terceiro filho de Allan Melville e Maria Gansevoort.

1832 — Morte do pai que deixa a família com graves problemas de subsistência. O jovem Herman será, então, forçado a trabalhar. Entre as ocupações prévias às suas experiências marítimas, conta-se a de professor.

1838 — Escreve os seus primeiros textos, Fragments from a Writing Desk.

1839 — Embarca num navio de marinha mercante, o St. Lawrence, rumo a Liverpool. Fica profundamente impressionado com a miséria que encontra em Inglaterra.

1840 — Lê Two Years Before the Mast, de Richard Henry Dana Jr., uma obra que irá influenciar os seus romances, em particular, Moby-Dick.

1841 — A 3 de Janeiro embarca no Acushnet, um baleeiro. No início de Julho deserta no porto de Nukuheva, nas Ilhas Marquesas, na companhia de Toby Greene (que, anos mais tarde, virá em sua defesa quando Melville foi acusado de faltar à verdade no seu romance Typee). Fica cativo de uma tribo, os Typee. Após a sua fuga junta-se à tripulação de outro baleeiro, o Lucy Ann, vindo a participar num motim. No final deste ano embarca uma vez mais num baleeiro, o Charles & Henry.

1844 — Em Agosto embarca como marinheiro na fragata United States, e pode observar as realidades narradas em Two Years Before the Mast (funerais no mar com honras militares, flagelações punitivas). Estabelece amizade com Jack Chase, um oficial a quem dedicará Billy Budd («Onde quer que esse grande coração possa estar / Aqui, na Terra, ou aportado no Paraíso»). Estas sucessivas viagens e experiências fornecem o material para Typee, Omoo, Mardi, White-Jacket e também para Moby-Dick. Por seu turno, Redburn será devedor da sua viagem a Liverpool.

1846 — Publicação de Typee, romance em que relata a sua experiência entre a tribo de canibais. O livro que constitui um sucesso de vendas, deverá, todavia, ser expurgado de passos em que Melville critica a acção evangelizadora dos missionários. Anos mais tarde escreverá numa carta que «se passar à imortalidade é terrível, passar à imortalidade por ter vivido entre canibais, ainda é pior.» Quatro anos depois, após tê-lo conhecido, Sophia Hawthorne, mulher de Nathanael Hawthorne, referir-se-á a ele, numa carta à irmã, como Mr. Typee. «Consigo ver Fayway em seu rosto», concluía numa referência à sensual nativa de Typee. O poeta Ellery Channing escreverá um poema em sua homenagem: «The Island Nukuheva.»

1847 — Casa com Elizabeth Shaw, pertencente a uma influente família de Boston, e filha de Lemuel Shaw, um reputado juiz desta cidade. Neste mesmo ano é publicado Omoo — A Narrative of Adventures in the South Seas, particularmente inspirado nas aventuras vividas a bordo do Lucy Ann. O Sunday Times & Noah’s Weekly Messenger considera-o «o Defoe da América.» Novo sucesso de vendas, embora inferior a Typee. A edição de 7 de Agosto do jornal Daily Tribune anuncia o casamento de Melville com óbvio sentido de humor: «O Senhor Herman Typee Omoo Melville uniu-se recentemente pelos santos laços do matrimónio a uma jovem de Boston. A bela e abandonada Fayaway estará certamente a preparar-se para o processar por quebra de promessa.» Melville pode agora viver e sustentar a numerosa família (incluía, para além de Elizabeth, sua mãe e quatro irmãs) devido ao dinheiro que recebe de direitos de autor. Liga-se ao círculo literário nova-iorquino conhecido como Jovem América, ao qual pertence o editor do Literary World, Evert Duychink.

1849 — Publicação de Mardi, de novo inspirado nas suas vivências nos baleeiros. As digressões filosóficas desagradam aos seus mais fiéis leitores. Insucesso editorial, portanto. Conhece, todavia, nesse mesmo ano, um sucesso relativo com Redburn, inspirado na viagem a Liverpool. A propósito deste livro escreveu no seu Diário: «Eu, o autor, sei que é uma porcaria, & escrevi-o apenas para comprar tabaco.» Nasce o primeiro filho, Malcolm.

1850 — Publicação de White-Jacket, no qual regressa à meditação filosófica iniciada com Mardi. Muda-se para Arrowhead, no Massachusetts. Conhece Nathanael Hawthorne, autor de A Letra Escarlate, por quem tinha uma profunda admiração. Hawthorne retribuí-la-á, anos depois, a 12 de Novembro de 1856, ao escrever no seu Diário, após um encontro com Melville, junto ao mar, em Liverpool: «É estranho como ele persiste — e tem persistido desde que o conheço, e provavelmente muito antes — em andar de cá para lá nestes desertos, tão solitários e monótonos quanto as areias em que nos sentamos. Ele não consegue crer, nem sentir-se confortável na sua descrença, e é demasiado honesto e corajoso para optar por uma destas vias. Se fosse um homem religioso, seria o mais religioso e reverente entre os homens; a sua natureza é elevada e nobre, e é muito mais merecedor da imortalidade do que qualquer um de nós.»

1851 — Publicação de Moby-Dick, o qual dedica a Hawthorne. Com este romance, o público afasta-se da sua obra. Um crítico inglês referir-se-lhe-á como «uma baleia de um livro.» Por seu turno, Melville, numa carta escrita em Setembro à sua vizinha Sarah Morewood, aconselha: «Não o compre — não o leia quando sair, pois não é o tipo de livro para si. Não é um pedaço de suave seda de Spitafields mas sim uma textura horrível, tecida a partir de cabos de navios. Um vento polar sopra através dele, & aves de rapina pairam sobre ele.» Por seu turno, Hawthorne pretende escrever uma recensão elogiando-o. Melville pede-lhe que não o faça, pois pretende guardar as palavras de Hawthorne só para si. Nasce o segundo filho, Stanwix.

1852 — Publicação de Pierre — Or the Ambiguities, a primeira e única narrativa longa sua que não tem o mar como cenário. O The New York Day Book publica uma recensão intitulada Herman Melville Louco. Acentua-se o afastamento do público. (Léos Carax inspirar-se-á nele para o seu filme de 1999, Pola X).

1853 — Publicação de Bartleby, the Scrivener. Nasce a primeira filha que receberá o nome da mãe, Elizabeth.

1854 — Na Primavera inicia-se a publicação, pela Putnam, de The Encantadas, uma série de episódios inscritos nas ilhas visitadas e estudadas por Charles Darwin. 

1855 — Publicação de Israel Potter: His Fifty Years of Exile (esta publicação iniciara-se em Julho de 1854 pela Putnam) e de Benito Cereno. Nasce a segunda filha, Mary.

1856 — Publicação de The Piazza Tales, onde inclui Bartleby, the Scrivener e Benito Cereno. Inicia uma viagem de sete meses pela Europa, Egipto e Palestina. As suas impressões ficam registadas no diário de viagem intitulado Journal up the Straits. Encontra-se com Hawthorne, em Liverpool, onde este desempenha funções consulares.

1857 — Publicação de The Confidence-Man, uma sátira ao optimismo transcendentalista passada no Mississípi. Começa uma série de conferências que culminará em 1860. Percorrerá o país falando de temas versando as estátuas romanas, a arte ocidental, a importância e o prazer das viagens.

1859 — Elizabeth escreve numa carta à mãe: «O Herman começou a escrever poesia. Não diga nada a ninguém, pois sabe como estas coisas se espalham.» Um estudante de Williams College que o visitou na primavera, escreveu que ele era «um homem desapontado, amargo, devido às críticas, e descontente com o mundo civilizado e com a cristandade…»

1866 — Publicação de Battle-Pieces and Aspects of the War, numa edição de 1260 exemplares. Até 1868, vender-se-iam apenas 468. Num memorando ao irmão Allan, que se ocupou da publicação, escreveu: «… e por amor de Deus, não ponhas Pelo autor de Typee Piddledee & etc. na capa. Deixa que a capa seja apenas Poemas de Herman Melville.» Começa a trabalhar na Alfândega de Nova Iorque, da qual se reformará em 1885.

1867 — 10 de Setembro, suicídio de Malcolm.

1872 — Morte do irmão Allan.

1876 — Publicação de Clarel — A Poem and a Pilgrimage in the Holy Land, um extenso poema narrativo, devedor de The Canterbury Tales.

1884 — Morte dos irmãos Tom e Lemuel Junior.

1885 — Morte da irmã Fanny e da sobrinha Lucy, filha de Allan.

1886 — Morte do filho Stanwix.

1888 — Publicação, numa edição de autor, de John Marr and Other Sailors. O livro está dividido em três partes: uma introdução em prosa onde apresenta o protagonista, John Marr; uma secção intitulada Sea-Pieces, formada por extensos monólogos dramáticos enunciados por velhos marinheiros que recordam os tempos e aventuras de juventude; uma derradeira secção intitulada Minor Sea-Pieces, poemas líricos, igualmente versando a vida no mar. 

1891 — Publicação, numa edição de autor, de Timoleon, Etc.. Melville retoma aqui as viagens feitas à Europa e à Terra Santa, evocando episódios narrativos colhidos na Antiguidade Clássica, nomeadamente nas Vidas, de Plutarco, e fazendo descrições, sempre envoltas em especulação filosófica, de artefactos, ruínas, quadros, estátuas, monumentos, igrejas por ele então observados. Morre a 28 de Setembro, em Nova Iorque, aos 72 anos. Ignorado pelos seus contemporâneos, será mencionado num orbituário como Henry Melville.

1924 — É descoberto o manuscrito da novela Billy Budd — Sailor.

 

* Segundo alguns críticos, este poema referir-se-á a Nathanael Hawthorne, a quem o poeta dedicara Moby-Dick. É, todavia, mais crível que ele se refira a Malcolm, o filho mais velho de Melville. O poema foi, aliás, escrito após o suicídio deste.

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