A Phala

O Macaco e o Tritão

In Teofanias on 9 de julho de 2009 at 13:08

6a00d8341c3e3953ef00e54f206c058833-500wiÉ bem provável que, nos anos da vossa infância, vos tenham contado muitas vezes a história do macaco do rabo cortado. Contaram-ma a mim, contei-a aos meus filhos e aos meus netos e o sucesso foi sempre garantido. Como não há nada que mude menos do que contos de encantar e esse conto está longe de ser exclusivo familiar, vou pressupor que o conhecem tão bem como eu (se não conhecerem digam-me, que eu conto outra vez).

O sucesso dessa lenga-lenga (também o é) assenta, como o de quase todas as histórias para crianças, no princípio da repetição e no princípio da metamorfose. Mil vezes, embora com parceiros diferentes, o macaco repete a situação anterior, ou seja a de quem dá e volta a tirar. Mas o que ele tira vai-se transformando, ao longo da história, como no fim ele se gaba, quando recorda que do rabo fez navalha, da navalha fez sardinha, da sardinha fez farinha, da farinha fez menina, da menina fez camisa e da camisa fez viola.

Se me lembrei do símio, foi porque o meu princípio para estas crónicas (bastante mais áridas que a história do dito, devo admitir) é relativamente semelhante. Fora qualquer necessária compulsão, nascem de coisas que fui dando e tirando ao longo da semana, fiel à máxima, que estou seco de repetir, que o acaso é a única coisa que não acontece por acaso.

Esta semana, pediram-me que identificasse outra história bem minha, sendo obviamente alheia. É uma citação de Lichtenberg, escritor e físico alemão (1742-1799) onde se diz: «Tais obras são como espelhos: se é um macaco a vê-las impossível a descoberta dum apóstolo». Desde que a li, vai para muito perto de cinquenta anos, que a contei tantas vezes como a história do outro macaco, o que lhe deu abundante posteridade.

Desde que a li… Foi esse o meu problema de agora. Ia jurar que era a epígrafe de Temor e Tremor de Kierkegaard (1813-1855) mas não é. Mas juro que foi Kierkegaard quem ma revelou, até porque nunca nada li de Lichtenberg, um dos grandes escritores satíricos alemães do século XVIII. Mas não consegui ainda localizá-la, na poeira de livros que há séculos não abro.

Ao abri-los agora, memórias kierkegaardianas voltaram-me de escantilhão e dei por mim a reler o Temor e Tremor, a Repetição, O Banquete. E dos dois macacos (o da viola e o do espelho) fui parar ao Tritão, onde me vou demorar daqui a bocadinho.

Daqui a bocadinho, porque se escaparam à história do macaco e à história das obras que são como espelhos, não escapam a um resuminho da vida de Kierkegaard, puxando a brasa à minha sardinha. Toda a história da vida e da obra de Kierkegaard é um vasto criptograma, pois que todos os seus escritos, que cerca de cem anos depois da sua morte lhe valeram a talvez indevida consagração como fundador das filosofias da existência, são, bem mais no fundo do que à superfície, cartas de amor a Regine Olsen, mais nova dez anos do que ele, que conheceu a 2 de Fevereiro de 1839 (tinha 25 anos), com quem celebrou contrato de noivado a 10 de Setembro de 1840 e com quem rompeu no Outono de 1841, por razões que incessantemente explicou na sua obra, sem nunca lhes fazer directa referência.

Psicologicamente, pode falar-se do sentimento de culpa, herdado da maldição que o pai um dia proferiu e confirmada pela prematura morte da mãe e de cinco dos seis irmãos que teve. Pode ainda citar-se a sua consciência de ter sido um sedutor (o fascínio por D. João será uma das constantes da sua obra) e de ir perverter uma jovem inocente, a quem «pegaria» os seus pecados e a maldição familiar. Mas tudo é bem mais complexo do que isso e a dúvida sobre a decisão de romper o noivado (que, à época, era quase um compromisso pré-nupcial e seguramente uma violação da palavra dada) atormentou-o até à morte, agravada pelo casamento de Regine em 1843 com o seu antigo perceptor Schlegel, mais tarde governador das Índias Ocidentais Dinamarquesas.

Quando morreu, Kierkegaard deixou-lhe o pouco que ainda restava de uma fortuna considerável. «Dei-lhe tudo: a minha vida, a minha obra, agora o que chamam os meus bens».

Voltaram-se a encontrar várias vezes, mas nunca mais se falaram. Kierkegaard sabia, porém, que ela o lia e acreditava que o que escrevia a faria compreender porque razão «o cavaleiro de fé» quebrara o juramento que tinha feito.

A epígrafe que precede Temor e Tremor diz obscuramente dessa crença obscura. É uma citação de Hamann e que diz: «O que Tarquínio, o Soberbo, disse aos pavões do seu jardim, compreendeu o filho mas não o mensageiro». Regina era a filha, aquela que entenderia as palavras cifradas que o leitor (mensageiro) não podia entender.

Ou a «réplica de uma donzela seduzida»: «Poupem-me à vossa piedade, pois nada entendeis nem da minha pena nem do meu júbilo. Amo-o ainda de tal maneira que o meu único desejo é voltar a ser donzela novamente, para novamente ser enganada por ele». Ou: «Ela não me amava pela bela linha do meu nariz, nem pelos meus lindos olhos, nem pelos meus pés, nem pela minha inteligência. Amava-me a mim. Amava-me por mim. Mas não me podia perceber».

Muito mais tarde, comparou-se a Swift: «A velhice realiza o que a juventude pressente. É o que ilustra a vida de Swift que, ainda novo, mandou construir um asilo para loucos e, já velho, foi internado nele».

Por isso também o gosto pelos pseudónimos: Victor Eremita, Johannes de Silentio, Constantin Constantinius, Johannes Climacus, etc. A solidão e a constância. O silêncio e a permanência.

Chegou a vez da história do tritão.

Surge na última parte de Temor e Tremor, livro quase todo consagrado a Abraão e ao Deus que lhe deu um filho na velhice, depois, em aparente contradição, mandou matá-lo e por fim, em nova mudança, mandou um Anjo poupá-lo quando o cutelo do pai já estava erguido. Por isso, Abraão é o pai da Fé, pois que em tudo se abandonou à contraditória vontade de Deus, nunca O pondo em causa na sua terribilidade.

Contou de muitos modos a história de Abraão usando a repetição e a metamorfose. «E quando Isaac reviu o rosto do pai, achou-o alterado pois que o olhar era sinistro e a expressão aterradora. Agarrou Isaac pelo peito, deitou-o no chão e disse: “Estúpido! Julgas que sou teu pai? Sou um idólatra. Julgas que obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece fazer”. Então Isaac estremeceu e, na sua angústia clamou: “Deus do Céu! Tende piedade de mim! Deus de Abraão, tende piedade de mim e sede o Pai que na terra não tenho”. Abraão, ouvindo-o, disse baixinho: “Graças Te sejam dadas, Deus do Céu! Porque mais vale que ele me julgue um monstro do que perca a fé em Ti”».

A história do Tritão também Kierkegaard a conta de várias maneiras.

Na primeira versão, o tritão é um sedutor que se ergue do abismo onde tem morada. Na praia, junto ao mar, a bela e puríssima Inês sonha, embalada pelo murmúrio das vagas. Na fúria do seu brutal desejo, o tritão engole a jovem e leva-a com ele para o fundo do mar. Será a maneira mais cruel de contar esta história?

Suponhamos então que o tritão era um sedutor. Docemente, chamou Inês. As palavras tão suaves que lhe dirigiu fizeram nascer nela sentimentos desconhecidos. Achou nele o que buscava e o que o seu olhar procurava no fundo dos mares. Sentiu-se pronta a segui-lo. O Tritão tomou-a nos braços que ela lhe lançou ao pescoço. Plena de confiança, Inês abandonou-se de alma e coração. O Tritão já deixara as areias e já voltara ao mar para nele desaparecer com a sua presa. Então Inês olhou-o mais uma vez, sem medo, sem hesitação, sem orgulho da sua felicidade, sem embriaguez de desejo. Antes, com fé total e com toda a humildade da flor que era. Com absoluta confiança, pôs nesse olhar o seu destino. Então — maravilha suprema — o mar deixou de rugir e emudeceu-se a voz selvagem dele. A natureza apaixonada, que dera ao Tritão a força, abandonou-o subitamente e caiu uma calma completa em torno deles. Inês olhou-o sempre com os mesmos olhos. Então o tritão sucumbiu. Não conseguiu resistir ao poder da inocência, não conseguiu seduzir Inês. Conduziu-a de novo ao mundo dela e explicou-lhe que quis apenas mostrar-lhe o esplendor do oceano quando posto em sossego. Inês acreditou. Depois, o mar voltou a agitar-se e o desespero invadiu o seio do Tritão. Podia seduzir duas, cem Ineses, mas aquela Inês venceu-o e ele perdeu-a. Inês nunca saberá o que o Tritão perdeu. Só este conheceu o desespero.

Mas há outra versão possível: o tritão era um fraco tritão que várias vezes viu Inês sem sentir mais do que melancolia.

Mas Inês não era uma calma donzela. Gostava demais do rumor do mar e, se o murmúrio melancólico das vagas a atraía tanto, era porque no seu peito encontrava possante eco. Queria partir, partir desse para onde desse, queria precipitar-se no infinito com o tritão que amava e que alcançou excitar. Desapareceu-lhe a humildade, surgiu-lhe o orgulho. O mar rugia, a espuma das ondas confundia-se, o tritão abraçou Inês e arrastou-a para as profundidades. Nunca foi tão selvagem, tão possuído pelo desejo. Mas nunca ninguém achou o cadáver dela. Transformou-se numa sereia, aquela que seduz os homens com os seus cantos.

Mais uma variante? A Inês do conto é uma mulher ávida do estranho e, mais cedo ou mais tarde, como a todas as mulheres com essa avidez, o tritão virá e lançar-se-á sobre ela como o tubarão sobre a sua presa. Não foi o conhecimento, ou a vontade de conhecimento que salvou Inês. Só a inocência é recurso contra o sedutor.

Kierkegaard, que tenho seguido palavra a palavra (ou quase) imagina muitas histórias: o tritão arrependido; o tritão dissimulado; o tritão profundamente amado; o tritão que casa com Inês. Nenhuma das hipóteses pode conduzir a um final feliz, porque o arrependimento dele pressupõe o dela e tudo se perde; porque a dissimulação dele conduz ao sofrimento de Inês; porque o amor é uma instância estética e que lança os amantes nos braços um do outro, sem se preocupar com o que se passa depois de acabar a história.

«Só a estética comete o erro de chamar a Inês uma heroína, quando o epíteto — a aplicar-se — só se pode aplicar ao tritão. Porque em todos os casos foi o tritão que teve de renunciar, fosse para a restituir à paz do seu mundo, fosse para a ver morrer no fundo das águas».

Haverá por aí alguém capaz de encontrar outra solução para a história de Inês e do tritão ou para a dos pavões e do filho de Tarquínio, o Soberbo?

 

João Bénard da Costa, in A Casa Encantada; Jornal Público, 9 de Dezembro de 2007.

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