A Phala

Tempo Turvo: Regresso a Cristina Campo

In Teofanias on 13 de julho de 2009 at 11:06

1334082893Corria branda a noite. Imerso em funda mágoa, fui assentar-me triste e só… Não, não foi no meu jardim que eu me assentei em tal estado, que não sou judeu como a lírica heroína do esfrangalhado Tomás Ribeiro (hoje, mais célebre pela rua do que pela justiça de Castela de Don Martinho d’Aguilar, poema que deu origem a tantas variantes obscenas, irreprodutíveis em jornal que se preze) nem o frio que faz convida a passar noites em jardins. Onde eu me sentei assim foi num maple que em cada casa assinala o lugar do pater familias e que não falta na minha. Associação de ideias levou-me a pensar num outro maple, mais ortopédico e mais coriáceo, que devo a alma caridosa e ficou a morar na Arrábida. Recentemente, homens possantes trouxeram-no para Lisboa, na vã esperança que ele acabasse com dores de quem só deitado as não tinha. Não acabou e nem sequer lhe serviu de refrigério. Um dia destes, volta para a Arrábida, carregado de memórias que não tinha e nunca mais será nem o mesmo negro nem o mesmo couro, nem as mesmas costas comandadas. Mas voltemos ao meu maple e a histórias menos carregadas de luto.

Na tal branda noite e na tal funda mágoa, preparei-me para ver em DVD Youth without Youth, o último Coppola, que não tinha visto nas salas feitas para filmes se verem, espécie em vias de extinção. Sabia que era uma história adaptada de um conto do romeno Mircea Eliade, cujos textos sagrados eu lera bastante em tempos de outrora e que recentemente me apareceu num diário lisboeta, cidade onde o escritor foi encarregado de negócios, ou coisa que o valha, nos anos 40, em tempos de Salazar e de Antonesco. Livro curioso e com uma perspectiva histórica bastante heterodoxa para os tempos que correm, mas atravessado por uma inquietude estremecente que não se recomenda às boas almas brechtianas.

Ainda vi Tim Roth, o protagonista, atingido por um raio que o partiu, ainda percebi que o homem ia sair do estado larvar em que se encontrava na cama do hospital e, por insondáveis desígnios, passar dos 80 aos 40 anos, ou seja, à tal segunda juventude do título português. Não sei se foi de mais para o meu estado anímico ou se se tratou de uma mera modorra. Adormeci pesadamente, com aqueles sonhos com música de fundo que são tão bons à força de serem leves (não há contradição, ao contrário do que julgam) e, quando acordei, o homem já não era um mas dois, transmitia às amadas a velhice de que escapara e, no Café Select, em Bucareste, contava a uns amigos de outrora a história do rei que sonhava com uma borboleta, que sonhava que era rei que sonhava com uma borboleta. Gostei dessa história, mas quando sonhamos que sonhamos estamos perto de acordar, como ensinaram os românticos alemães. O filme estava a chegar ao fim e o raio que o partira no início partia-o de vez no fim.

Não sou capaz de vos dizer se o filme é tão bom como o pintaram ou se Coppola meteu o dente em histórias que não são para ele. Um dia, menos sonolento e menos magoado, talvez seja capaz de vos dizer. Mas a história do conto de fadas, ao que parece de origem chinesa, do rei e da borboleta, trouxe-me à memória Cristina Campo, que descobri vai para três anos, conforme muito contei em Casas Encantadas desses tempos neste mesmo jornal.

Mais acordado, lembrei-me que o pacientíssimo e persistentíssimo Manuel Rosa me tinha acabado de pôr no sapatinho novo livro dela, acabadinho de sair, com o título Sob Um Falso Nome (Sotto Falso Nome, no italiano original) em soberba tradução de Armando Silva Carvalho. Agarrei-me a ele e o joão pestana enfiou-se num canto.

«Escrevi pouco e agradar-me-ia ter escrito menos», disse Cristina Campo, pouco antes de morrer, em 1977, aos 54 anos. Nessa altura, tirando uns raros nautas (Montale, Quasimodo, María Zambrano, que já a tinham em devidíssima conta), pouca gente sabia quem era a misteriosíssima mulher que, nascida Vittoria Guerrini, adoptara esse pseudónimo.

Cristina para designar aquela que é «portadora de Cristo». Campo em referência aos campos de concentração, «campos de dor criados pelos homens», como ela própria esclareceu ou obscureceu. A paixão no sofrimento.

Mas, quando a Itália e depois o mundo, nos anos 90, descobriu nela um dos maiores génios do século XX, descobriu-se com espanto que ela não escreveu tão pouco como dizia, acontecendo que muitos textos assinados com diversíssimos nomes eram afinal, todos, textos de Cristina Campo, sob os mais variados nomes ou pseudónimos.

A arca de Cristina Campo, nestes começos do século XXI, está a revelar-se tão vasta como a arca de Fernando Pessoa, à medida que se vão revelando também heterónimos quase tão numerosos como os do autor da Ode Marítima. Baptizada Vittoria, Maria Angelica, Marcella, Cristina, esses e outros nomes serviram para a autora se encobrir ou se revelar. Cristina foi o único nome feminino de que a autora se serviu ou, como diz Monica Farnetti no posfácio ao livro agora traduzido em português, «o único “pseudoandrógino” entre tantos “pseudoandróginos”». Benedetto viria de S. Bento, pedra fundamental da sua congregação predilecta: a Trapa. Giusto teria sido recolhido em Hofmannsthal, o autor que ela mais leu nos últimos anos de vida («Entender a justiça de um texto muito antes de ter compreendido o significado, graças a esse puro timbre que existe só nos estilos nobres – o qual por sua vez nasce da justiça»); Puccio viria da novela bocacciana. Estes, e tantos outros nomes (Bernardus Trevisanus, Filippo Quaratesi, etc., etc.) serão heterónimos, no sentido pessoano, ou exprimem, como diz a mesma autora, «o programa de alguém que tanto empenho teve em eclipsar-se, ou pelo menos em dissimular-se, mais que em mostrar-se, e que surge sempre disfarçado, mesmo quando estava verdadeiramente presente, e cujo prazer em cifrar, ocultar, despistar foi de sinal contrário ao desvendar que este volume comporta».

Esse é o grande mistério que os textos de Cristina Campo continuam a pôr, permitindo que Monica Farnetti diga mesmo que «talvez seja de imaginar se não existe ainda mais matéria desconhecida que possa constituir outros livros: a verdade é que ninguém pode, por enquanto, e provavelmente nunca poderá, traçar com precisão os limites do corpus de Cristina Campo». Sob um Falso Nome é talvez título que não se adapte aos textos agora reunidos neste volume. Mais do que heterónimos são criptónimos, enigmáticas máscaras, «poesia hieroglífica» de uma obra tão devedora do discípulo que Cristo mais amou, aquele «em cujo Evangelho é dito com todas as letras que o Mestre “nos chama pelo nome”». Sempre seguindo a mesma comentadora, ainda é possível que alguns textos deste livro ímpar sejam escritos «a quatro mãos» com Elémire Zolla,  o seu mais constante companheiro dos últimos anos, esse que, nos idos de 60, parece que se correspondeu abundantemente com Agustina Bessa-Luís, criando, eventualmente, um outro elo de ligação, talvez a desvendar no futuro, entre a autora de Os Imperdoáveis e a autora de Os Incuráveis. Arcas destas não têm fundo ou têm o fundo dos grandes mistérios que é sempre fundo nenhum.

Mas que livro é este afinal de que eu vos tenho estado a falar, desde a história do cadeirão preto à história do rei e da borboleta? É um livro onde Cristina Campo ora aborda a liturgia cristã ora o Diário de Virginia Woolf; ora me revela uma tragédia de Simone Weil (Venice Preserved, de que eu jamais ouvira falar), ora compara sonhos dela com sonhos de Truman Capote, esse que soube que «à infância não se regressa, por certos caminhos, a não ser muito tarde». É o livro que nos fala de Djuna Barnes, «uma misteriosa americana que teve como arauto T.S. Elliot», e nos ensina que o incenso usado nas cerimónias cristãs desde o século IV é o perfume que opera «no reino do olfacto o mesmo exorcismo que o sino opera no reino do ouvido». Mas o meu texto favorito é um texto incompleto sobre A gravidade e a graça em Ricardo II de Shakespeare. Recordando sempre Simone Weil (La Pesanteur et la Grâce) que dizia ser o Rei Lear a única tragédia de Shakespeare completamente criada segundo o espírito do amor e por essa razão digna do teatro imóvel dos gregos, Cristina Campo pergunta-se se ela alguma vez teria lido com atenção devida o Ricardo II, que considera «a mais silenciosa de todas as obras de Shakespeare, a que melhor soube conter numa representação la pesanteur et la grâce».

E diz Cristina Campo: «Não menos e talvez melhor que os próprios Sonetos, a queda de Ricardo II é testemunha da noche oscura de Shakespeare – dessa passagem forçada da existência humana pela violência moral, da qual, vivo ou morto, só pode resultar o homem novo. Pouco ou muitíssimo pouco se revela no início, naquela época, da trágica parábola sentimental dos Sonetos. (…) Sabemos apenas, com certeza, que a violência se converteu em sofrimento, que o sofrimento floresceu divinamente em amor. »

As histórias de Cristina Campo, e de todos os seus heterónimos havidos e por haver, são a história dessa dupla conversão: a da violência em sofrimento e a do sofrimento em amor. Nesta crónica, se falei noutra coisa, foi só porque me distraí muito. Dos meus defeitos, talvez seja o maior. Sem me distrair, e sem vos distrair, volto e voltei a Cristina Campo, sob um falso nome ou sob um verdadeiro nome.

 

João Bénard da Costa, in A Casa Encantada; Jornal Público, 7 de Dezembro de 2008.

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