A Phala

Peter Maynard – Beretta e consciência*

In A Phala on 3 de novembro de 2009 at 16:14

Maynard2Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.

Mão direita do Diabo dá-nos os traços da personagem, que lhe irão conferir a sua especificidade e desenhar a sua densidade. E cedo nos apercebemos que é uma personagem fortíssima, desenhada numa escrita segura, e que é a personagem – que fala na primeira pessoa – que imprime a linguagem e a cadência à narrativa e a estrutura ao mais ínfimo pormenor das acções, tempos e espaços.

Maynard

De poucas falas, reconhecível pelo «Pois», o seu cartão de visita, Maynard tem nervos de aço, mas uma úlcera no estômago que é «uma broca», que vai acalmando com copos de leite, cita Camus, lê Steinbeck, Dos Passos, Celine, apraz-se com o Kama Sutra, ouve Bach, Beethoven e Mozart, enquanto traça científica e pormenorizadamente o plano dos seus contratos, e encontra serenidade nos braços de Olga. O «Califa», assim referido pelos que lhe são próximos, que se move em Nova Iorque, Las Vegas e Chicago, com a Beretta sempre oleada pronta para matar, é incumbido de executar quatro indivíduos envolvidos num caso antigo de violação. Uma vingança justa que ele cumpre com uma «obra limpa, completa, em profundidade e extensão». Fica o leitor a saber que Maynard é um assassino eticamente irrepreensível: a justiça tinha de falar «cuspindo da boca do silenciador».

Ser escrupuloso pede liberdade de actuação: por isso Maynard escolhe ser  independente, um transgressor que teima trabalhar sozinho, fora dos tentáculos do Sindicato do Crime Organizado, que por isso o persegue. Neste carácter solitário, a confirmar-se que a solidão medita e a meditação cria, estão as fundações desta personagem e por ela a argumentação de toda a narrativa. Solitário, Maynard fala pouco, todavia pensa muito, mesmo que pense «só na dose certa». É, aliás, a dificuldade de Maynard em construir uma conversa que origina diálogos magníficos; é, também, essa espécie de desprendimento, que lhe granjeia junto das mulheres um interesse inaudito, com a narrativa a apresentar quadros de sedução hilariantes; é, ainda, devido a esse carácter solitário, que se explora brilhantemente as outras personagens, que nos são dadas a ver por Maynard – detém o olhar na mulher que «não era nova nem velha. Tinha a idade certa das coisas que estão na idade certa»; passa em revista os interiores das casas, detendo-se nos objectos, nos cheiros; esmiúça prateleiras para divisar a psicologia dos proprietários, descrevendo-lhes os gestos, posturas, esgares, engendrando o que se aproxima da funcionalidade cénica – e, balanceando as palavras, enreda hipnoticamente o leitor num jogo sensorial e intelectual.

O leitor conta ainda com os monólogos maynardianos, em itálico, conversas de Maynard com Maynard, mergulhos de intimidade, onde ele se recrimina, sorri para si próprio, admoesta, invoca a lucidez, revê os planos e os métodos, faz conjecturas e fala com o leitor. É Maynard, «lobo acossado, que até foge de si próprio», a mostrar o seu barro, a razão da sua úlcera que, como ele diz, se não a tivesse no estômago trazia-a num olho, ou num dedo do pé, ou num dos «belos compartimentos secretos da sua «intransmissível personalidade», compartimento que está «nos miolos» e chama-se “consciência”.

É, ainda, a solidão deste «bicho nocturno, velha toupeira kafkiana», que lhe permite olhar para o ser humano com solidariedade, a solidariedade dos entravados, mesmo para com aquele que cairá, pela força do dever, com a sua mão: «Olhámos um para o outro, quase com simpatia. Meu caro Eddie Piano, formiga humana, pobre diabo.».

Sonho e solidão

Em Requiem para Dom Quixote, mostra-se a «vitória do espírito sobre a matéria»:  através dum assassino profissional Dinis Machado procura um poema e executa-o na perfeição. Dinis Machado escreveu, em nota que acompanha este tomo, que o assassino profissional Peter Maynard é a tese e a antítese do autor McShade, porquanto «elogia apenas o homem em acção e pela acção» e, por outro lado, imprime-lhe «os silêncios», «onde há a fala alta de um orador sagrado, o sussurro de uma prece e tudo aquilo que está para lá da franja do mar». Uma dialéctica que faiscou no Mão Direita do Diabo e que atinge irradiação máxima, aqui. É, ainda, este movimento dialéctico que está na génese destes policiais, tornando-os únicos.

A par das urdiduras vertiginosas condensadas num tempo muito curto, surge o tempo largo da reflexão sobre a condição existencial; é Maynard que, enquanto prepara a sua Beretta olha pela janela e, como se se olhasse ao espelho, observa as pessoas com pressa «a construir as pirâmides»; é Maynard, numa pausa da sua pressa, a construir a sua pirâmide com o vértice bem firmado no «coração secreto da sensibilidade».

«A intuição dos curiosos é como a imaginação dos poetas: aparece uma ideia como aparece um verso. Depois, é preciso procurar o poema», diz Maynard dando-nos pistas sobre a construção narrativa. Depois, o processo é genialmente simples, e temos de concordar com Maynard quando diz que Ravel tem razão: «Fez o Bolero com uma repetição incessante de notas, só os andamentos é que mudam». Assim é a vida: «as notas são sempre as mesmas. Só os andamentos é que mudam. E o resto, é um problema de orquestração».

Neste segundo tomo maynardiano, o «mão direita do diabo» recebe um contrato para executar um mafioso que, antes de ser executado, incumbe-o de vingar a sua morte e Maynard tem neste novo contrato a justificação para a sua missão de assassino justo. Ao som de Beethoven, entende «que é sempre a milésima vez de recomeçar». E recomeça sempre nos dois movimentos: o impaciente na acção profissional e o paciente, sem pressas, nas viagens da sua alma errante por campos dentro de si onde «pega numa flor e surge a arma, a arma já é a mão, os dedos são balas». Esta é a sua condição e o seu conflito. É fácil visualizar-se Maynard enrolado «como um caracol», em posição fetal, como num retorno à inocência, ao mesmo tempo que se debate com as suas vozes, campainhas e besouros, que o alertam para a intriga à sua volta.

Por isso, com a maleta do silenciador, Maynard «passa por caixeiro-viajante», um cavaleiro andante de sonhos amarrados numa caixa onde estão Olga e «a nostalgia de um casamento», «uma vaga nostalgia de casa-mulher-filhos-prenda no dia do aniversário-andar a tarde inteira ao sol sem ter morrido». «Água, pão, amizade e amor. Procuramos outras coisas, mas estes são os quatro pontos cardeais», diz-nos Maynard, enquanto lhe ocorre que a verdade da vida até pode ser simples: «A verdade é capaz de ser só isto. Estou nu, deitado na cama, e Olga está nua, a meu lado».

Todavia, a Maynard não lhe basta a nudez, pois o espelho devolve-lhe o tribunal onde é o acusado, o juiz, o advogado o júri e o público. É, afinal, o seu processo com a sua consciência relatado no monólogo maynardiano:

vais considerar-te culpado, mas tens a atenuante de tal angústia, e isso é até um bocado aristocrático, fica-te muito bem, Beethoven para a esquerda, Proust para a direita, e ainda assim uma grande margem de melancolia, e depois a certeza de que um homem só é verdadeiramente com a sua solidão. Deixem-no passar, diz o povo, deixem-no passar, porque ele sofre muito e é grande, olha o sofrimento bem nos olhos e tem a coragem de continuar a viver. És um narciso da merda, Maynard. As piruetas que tu fazes para demonstrares a ti próprio que não és pior do que os outros p. 153

Em Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola, Maynard, o «conflito vivo», tem o derradeiro diálogo com a sua consciência, em monólogo consigo, mas também num compromisso activo com o mundo. E desta vez, num sonho kafkiano, surge o tribunal de Maynard onde ele se encontra com os vivos, mas também com os mortos, todos num palco onde corre o teatro do mundo no teatro do absurdo, ao som de um Concerto de Aranjuez e ecos da consciência funda de alienação e angústia do ser humano, com as nostalgias, a futilidade, a desesperança, o erotismo, o irracional, o riso e o grotesco. Enquanto se vê envolvido nas carambolas de num contrato – que teve por base num «problema de alcova», marca pusilânime do homem que o contrata, o que violenta o seu sentido ético e moral, causando-lhe até náusea -, Maynard, ou a sua exausta consciência, mostra-se-nos num inquietante desejo de anulação, num sonho que é a metáfora da morte.

Como o texto aventa, Maynard é a «mão direita do Diabo» ou – e mais correctamente – a «mão esquerda de Deus», um seu filho preterido a quem coube ser o «emissário dos ódios intactos» e ter por juiz e algoz a própria consciência.

Peter Maynard é, criativa e axiologicamente, uma das personagens que integram a galeria da excelência da Literatura Portuguesa. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, surgirão estudos abalizados ao interior do seu fascínio.

Teresa Sá Couto

* Este texto serviu de base à apresentação da Trilogia maynardiana, na FNAC  do Chiado, a 29 de Junho de 2009

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