A Phala

A ataraxia activa do olhar

In Arrábido on 13 de novembro de 2009 at 15:27

09.Pag.7-4Aqui, a escrita nasce de material gerado, não pela imaginação, não pela fantasia, não pela imitação, mas pela força actuante da presença da imagem. Os olhos comem o real, indiferenciadamente e sem fazer juízos de valor, como na ataraxia estóica, mas criando, em Llansol como nos filósofos antigos, as condições para fundar uma ética. O real é tudo o que se oferece ao olhar que tudo colhe como imagem e que tudo transmuta em escrita: objectos, imagens (sensíveis) de toda a ordem, Vivos e inertes, textos, o próprio passado, através de figuras soterradas que dele emergem e povoam os textos de Maria Gabriela Llansol. Se o ver é central, a memória tem, neste processo alquímico, um papel relativamente secundário. «Ter um tronco [um corpo] e equilibrá-lo, é preferível a ter memória», diz já a mulher de Parasceve, um livro no qual – a par de muitos outros: Um Beijo Dado Mais Tarde, O Senhor de Herbais, O Jogo da Liberdade da Alma… – se procede a uma «decepação», depuração ou purificação da memória, para que a experiência presente possa afirmar-se e o passado assumir o seu novo lugar como parte activa desse presente (no fundo, não fazem sentido aqui as categorias temporais, já que o tempo é um só: o do presente aglutinador do Texto).

É por aqui que começa o primeiro fragmento do Diário, que intitulámos «A memória e o acto de ver». Llansol questiona aí a sua capacidade de pôr em acção a memória – neste caso, uma memória cultural puramente quantitativa ou associativa – no momento de visitar um novo museu. Perante o acto de ver e a força impositiva do objecto, toda a memória se reduz a uma essência residual (o «sumo da memória», resto criativo que deixa de fora o que é secundário, para funcionar como catalizador da experiência presente), libertando o acto de ver, sem pressupostos de qualquer espécie, para em seguida possibilitar o fazer, a transformação activa do visto em escrito.

Pag. de caderno(1)

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É isto o que acontece com o quadro de Balthus – melhor, com a mulher do quadro de Balthus, que, no acto de ser vista e porque é realmente vista, se activa em interlocutora e possibilita um diálogo que abre a figura e desvenda o seu mistério. O quadro, lembremo-lo, é um retrato, supostamente uma representação mais ou menos verosímil, mas que o pintor já transforma e transtorna por meio da composição. Isso, porém, não impedirá a pintora de palavras Llansol de fazer sair a mulher do estaticismo hierático e estranho do quadro e da pose para a zona mais humanizada do diálogo. É disto que se trata sempre em Llansol: escrever é humanizar o mundo – os muitos mundos no mundo – através da amplificação do real. E o humano mais humano que daí advém contrasta vivamente com aquele que conhecemos, o do agir destruidor do Homem na História. O propósito de humanizar todos os reinos da existência através do diálogo do olhar e da capacidade fulgorizante da escrita resulta, em Maria Gabriela Llansol, da consciência aguda de que o humano não habita (ainda) o mundo dos homens.

A escrita, a compulsão ao diálogo com as coisas, transformam-se, assim, em gesto salvador. A mulher de Balthus, personagem real (Madame Georges Hilaire), transmuta-se no texto em «companheira filosófica» que o olhar de quem escreve retirará da sua solidão e tornará capaz de perceber que a «posse», a entrada verdadeira no outro ou a comunhão com qualquer ser, é simplesmente um resultado do ver, do saber ver, da atenção dada a todas as coisas («quem me vê […] me tem»). A mulher de Balthus, levada pela atracção de um topos antigo na problemática teórica da relação  (tensa) entre representação e realidade (a «traição das imagens» e a «tentação do impossível», em Magritte), sai do quadro, o seu real, «esgueira-se pela porta que lhe abre o texto», e é livre por acção da escrita. Livre para sair do figurino que o quadro lhe impôs e do cenário que a limita – o vestido azul-verde-vermelho, o livro que não pode ler, a cadeira em que não se senta –, livre para olhar para os seus «irmãos», os outros quadros, as «belas coisas» que a rodeiam no museu, mas a que voltou costas, fixada que está num espectador frontal que raramente lhe terá prestado a atenção que Llansol lhe dedica.

A escrita, como Maria Gabriela Llansol a entende e pratica, liberta de facto os objectos (neste caso, um quadro, ou a figura nele representada), do mistério ontológico do ser (do mistério da própria transfiguração estética), devolvendo-os a uma certa pureza, desculturalizada, da força original da imagem ou do ímpeto humano que os anima. Não para que eles, como na poesia pseudo-ingénua de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, caiam numa espécie de limbo da significação ou de purgatório do sentido que não podem ter, porque «são o que são», mas, pelo contrário, para que possam acrescentar-se em significação plenamente humana, luminosidade e vibração próprias, na escrita de alguém que, qual Midas, liberta das suas prisões tudo aquilo em que toca (aqui, tudo aquilo que olha, vê e escreve): as prisões do sentido armadilhado, da representação estéril e déjá-vue, da imagem pré-estabelecida, dos grilhões a que o tempo e a História submeteram homens e coisas. A isso chama Llansol «fulgorizar o mundo», restituir ao humano mais humano a sua liberdade de ser e o seu dom de criar. E fá-lo, como neste excerto, de forma aparentemente simples, «a escrever passeando entre imagens».

João Barrento

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