A Phala

A geometria da imagem nua

In Arrábido on 13 de novembro de 2009 at 15:36

07.Pag.7-2LRNeste pequeno texto, como em tantos outros, Llansol abre-nos a porta que dá para a sua oficina de escrita. Propõe-nos observar a imagem nua e a conversação infinita que, por um lado, a origina e, por outro, a continua. De sentidos atentos e corpo disponível, quem vê / lê põe o olhar em consonância com o mundo, ouvindo-lhe os sons e escutando estes a dialogar com as cores e os volumes — surgem ritmos que se entrelaçam originando uma percepção global das diferentes instâncias. O resultado não é um conjunto de sinais que produz um determinado significado, mas uma vibração que emana da sobreimpressão dos diferentes ritmos e intensidades, indo configurar-se a partir dessa experiência. A regra a que se obedece é apenas a de não deixar nada fora do olhar e saber afastar o que produz ruído. A imagem nua, bruta, informe e pairante, vislumbrada no quotidiano de alguém que lhe constrói silêncio à volta, irá cruzar-se com outras e adquirir matéria plástica e sonora, um ritmo próprio, uma densidade particular. A imagem nua não é imagem de, é um dos modos que a realidade tem de construir mais níveis de realidade. Mais, porque outra, mais porque disponível, mais-realidade ou mais-paisagem, como Llansol lhe chama. Um “olhar que estuda”, como o que é referido no texto, é um olhar que capta as imagens nuas, que sabe da sua disponibilidade para o encontro e transformação, e as provoca ou evoca, para lhes dar a forma resultante dessa conversação espiritual com o mundo, a que Llansol chama “o mútuo”, através da técnica da sobreimpressão. O caderno onde se escreve e o livro onde se lê, “na janela aberta, onde rodopia o pipilar dos pássaros”, são a estrutura do conhecimento que geometriza o percurso da imagem nua, o travejamento por onde passa a “chuva de asas”, que “atravessa as duas chaminés”, o que permite que a mulher sem-nome se transforme em Catarina, que passe do escritório à cozinha e do “pensamento em si” ao “pensamento do corpo”. A vibração produzida pela atenção na total disponibilidade, a que o texto chama “estudo”, põe a agir o corpo libidinal. Quando este escreve, brota a imagem e “afunda-se a estrutura”, como o texto afirma, em sintonia com a “estrutura do conhecimento que cai com as andorinhas”. Mas é esse afundar da estrutura que propicia o brotar da imagem. No momento de prescindir dessa geometria estruturante surge a forma que configura a imagem nua e a escrita que lhe dará corpo de figura.

A escrita llansoliana, no seu desejo de “transpor para a consciência quotidiana o que, durante séculos, fora atribuído ao êxtase” (Parasceve, 2001), faz-nos admitir uma forma de sublime imanente a que não será estranha alguma forma de arte, como a música de Olivier Messiaen que, pese embora o seu olhar dirigido à transcendência, a procurará na anotação quotidiana da realidade, como acontece em Catalogue d’oiseaux, composto entre 1956-1958.  “Il partait en pleine nature noter les chants d’oiseaux en «dictée musicale»”, são palavras de Harry Albreich para mostrar a oficina de Messiaen e, através dela, a sua capacidade de sugerir uma visão cósmica da eternidade, como acontece no final de La Fauvette des jardins (1970). Também na obra de Mark Rothko, principalmente nas grandes telas finais, a pintura torna-se uma forma de religiosidade do olhar, matéria a construir silêncio no corpo que vê. Esta forma sublime da imanência, presente na escrita llansoliana, descobria-a ainda, recentemente, na pintura de Alexandre Hollan — o caminho para o monocromático, que apela à imersão dos sentidos, à quietude e ao sublime imanente, como em Rothko, mas também um  diálogo possível com Llansol, através da aproximação a objectos do quotidiano, “naturezas mortas” que Hollan transforma nas suas “vies silencieuses”, e que podemos reconhecer nos Vivos de Llansol. Ausente dessa geometria das formas, aqui substituída pela lentidão do olhar que muda de ponto de vista —  Hollan fala em “défocaliser le regard” —, a imagem nua, afundada a estrutura, lida / vista em sobreimpressão, pode agora ser figura.

Maria Etelvina Santos

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