A Phala

Sou um canibal de olhos…

In Arrábido on 13 de novembro de 2009 at 15:11

08.Pag.7-3Pouco sei, pouco decoro, no sentido de «memorizo», mas olho e aprendo sempre, sou um canibal de olhos. Nisso, sou estóica. E o desaparecimento do passado torna o passado mais presente…

A memória e o acto de ver

28/Maio/1997

Quinta

Primeiras impressões do Museu Berardo*:

01.museu-Sintra

Fui hoje ver o Museu Berardo; ver, e com uma interrogação capital: como intervém a memória de quem não tem grande memória no acto de ver?

Enquanto passo na vastidão das salas, olhando,

sei que é o sumo da memória que está por detrás, como uma das fontes deste acto de ver. Esse sumo é imediatamente criativo, e tudo o que é acessório se destaca dele. Perco, então, a memória; mas tudo confluiu para um pináculo do que é posto sob visão, e faz. Foi nesta atitude de pináculo perscrutando o horizonte interior do casino – que já não é agora – que deparei com o facto de que todas aquelas coisas de concretude estética estavam envolvidas pelo espaço até às paredes, pelo brilho branco do chão, e pelo próprio revérbero de umas obras nas outras. Não poderia falar de efeitos indiscriminadamente conseguidos. Por exemplo, o caminho de pedras do patamar do primeiro andar não poderia ter sido feito por não importa que alguém: era um caminho simples de pedras,

mas alguém o fizera com um olhar

em que a força persistente e aglutinante do caminho de pedra existia;

árido, seco, cruel, eram aquelas coisas encontradas. Eram valentemente existentes, mas não eram reais. Existiam emergindo das mãos de um mestre

que sabe tocar as diferenças, a diferença entre um fósforo e o mesmo fósforo, mas disposto para a vibração forte, para não ser esquecido e perdurar na memória. Podiam, pois, aqueles objectos, incluindo o seu espaço nu, tornar-se sumo da memória, como um texto, ou um sentimento verdadeiro?

Por exemplo, peguei em Ten Foot Flowers, 1967, de Andy Warhol.

TRA/exhibit WARHOL

Ten Foot Flowers 1967 (1)

03.AndyWarhol 2

Ten-foot-flowers 1967 (2)

Havia outro quadro paralelo, uma cena de quatro flores iguais (abertas no soalho), de predominância rosa. Este, em azul, sem o outro, empalidecia, parecia que se tornava menos azul. E comecei a aperceber-me de que a população dos quadros podia existir dentro das portas de uma cidade, a cidade sem museu, em que à entrada das casas, como habitantes, havia quadros, nesta, por exemplo, o retrato de uma mulher com um vestido azul que, no quadro, é verde, mas que no texto, à porta dessa casa, o sumo da minha memória vê como vermelho. É de Balthus, e eu gostaria de viver a escrever passeando entre imagens.

Dirijo-me a ela:

– Mulher, que não tens seios, tens vestido comprido, só cabeça, e um livro na mão. Que és magra, como o teu livro pequeno na mão esquerda, apoiada, no antebraço, pela direita.

Estás à espera de alguém?

– Não, não estou.

04.Balthus,Portrait_de_Femme_en_robe_bleue

Balthus: Portrait de femme en robe bleue (Madame Georges Hilaire), 1935

– Por que olhas para mim, de testa franzida, e não para o livro? Por que pareces tão magrinha com uma cabeça tão grande? Por que tens uma cadeira de costas para ti?

– Não quero sentar-me. Quero olhar-te. Mas perdi a memória e, por falta dela, não sei ler o livro, que se tornou um objecto quase seco na minha mão. Se eu me sentar na cadeira _____

– Deixas de olhar para mim.

– Deixo de olhar para ti, e despregam-se-me os dois indícios de rugas que tenho na testa à direita.

– Despega-se também da tua boca a boca voluntariosa.

– Sim. Esboçaria um sorriso. E o meu corpo deixaria de estar ligeiramente inclinado para trás,

para a memória de anão que percute o meu vestido, a meu lado. O meu vestido, o meu lado, a minha memória. Não consigo deixar de olhar para ti. Porque me vês, compreendes? E quem me vê, como não estou habituada a que me vejam,

me tem.

Decido ir ao museu para vê-la mais vezes, entregar-lhe parte da minha liberdade quando a olho. Porque ela não é livre, existe, mas não tem, por exemplo, a realidade de poder deslocar-se para ir até à janela. Estará sempre ali, sufocada pelo livro que tem na mão, cada vez mais minúsculo, e não lê. E, na sua cara, morrerá o estereotipo dos olhos.

Mas, se não houvesse força reinante no quadro de Balthus, eu não teria escrito este texto, que bebi na sua imobilidade e na sua imagem.

– Abre-se-te o chão debaixo dos pés? – perguntei-lhe. – Estou quase fascinada por ti.

– Deixa-me cair no teu fascínio – disse-me. – Dá-me um alvo para olhar.

– Certamente – respondi-lhe. – Olha para teus irmãos (as outras belas coisas) e esgueira-te pela porta

que te abre o texto. Pois tu abriste-me ao primeiro impulso.

– É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso.

***

II

… brota a imagem

29/Maio/97

Sexta

05.Pag.6-vista

_______ decidi que vou voltar a esta janela; agrada-me esta perspectiva das duas chaminés pairando sobre a vila; tenho que escolher a tecitura de uma intriga comovente para nela assentar a trama de que vou principiar a tratar.

Estudo para escrever. Porque é preciso estudar para escrever. A realidade não está somente na existência da superfície. A superfície precisa de ser abordada. Colorida.

Mas, como ia a dizer, leio sobre o caderno e o livro na janela aberta, onde rodopia o pipilar dos pássaros. São andorinhas navegantes que entram frequentemente em casa, e que atiro de novo, o mais rapidamente possível, para o ar. Melissa** corre atrás delas, e a morte ameaça…

6-9

Mas, como ia a dizer ________ a janela tem no céu letras que anunciam, no azul, a estrutura do conhecimento que cai com as andorinhas. É uma chuva de asas que percorre o livro de Filosofia, e vou consultar o índice, no final, para ter uma ideia das imagens fluindo sobre o eixo vertical que no meu olhar que estuda, que estuda o dia de hoje, atravessa as duas chaminés.

Catarina está na cozinha, e o braço parado não faz viagem sobre o papel. Trocou uma coisa por outra,

o escritório pela cozinha,

o sol pelo luar,

o dia que amanhece pelo dia que declina,

o vestido apertado pela nudez do corpo com que me seduz, e me faz voltar ao pensamento, ao pensamento em si, e ao pensamento do corpo. «Viver não é uma imagem». E chegamos assim ao levantar dos olhos para o corpo libidinal. Quem o atingirá primeiro? Monstro marinho, é de uma acuidade de movimentos semelhante à da água.

Afunda-se a estrutura, penso ao fechar o livro, brota a imagem.

Maria Gabriela Llansol

(Espólio de M. G. Llansol, Caderno 47, 1997)

* Museu de Arte Contemporânea de Sintra, inaugurado em 1997, e que na altura tinha como núcleo principal a colecção de pintura de Joe Berardo, hoje no «Museu Colecção Berardo» do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

** A gata de M. G. Llansol.

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