A Phala

O Sangue por um Fio

In Documenta Poetica on 17 de dezembro de 2009 at 15:40

É-me mais fácil dizer por escrito como me aproximei do continente que é «O Sangue por um Fio». Por escrito sou mais exacta, mais precisa no que quero dizer. E neste pequeno grande livro, muitas coisas são ditas com uma exactidão e precisão de lâmina. Não posso, por isso, falar aos tropeções de uma matéria tão sensível. Uma advertência: não farei o que seria natural a uma admiradora antiga do Sérgio Godinho, que sou. Não farei uma incursão no universo das canções, não farei aproximações, não direi: isto também está nas letras de canções nas quais nos revemos, se revê o país, se reconhece um tempo. As letras que irão constar como «sentimento de uma nação» quando se falar do que é e sente um tempo e um povo.

Dizer que o Sérgio é um cantautor de primeiríssima água, falar da sua habilíssima relação com as palavras, é um dado adquirido do qual não me vou ocupar. Do que eu vou falar é deste que eu conheci no «Sangue».

Já chamei ao «Sangue» um continente. E é. Por ser um mundo e implicar uma viagem. Uma viagem de «fora para dentro dos olhos»– como diz um poema. Uma viagem onde o que temos para percorrer é um «vasto e longo itinerário» – diz outro poema. Antes de mais: como chamar a esta viagem por lugares tão essenciais como a Morte, a Solidão, a Palavra, a Liberdade? O «Sangue» são anotações do coração, da alma, do pensamento, dos intestinos, dos órgãos vitais? De onde vem o medo? Do coração, do pensamento, do estômago? De onde vem a solidão?

Pergunto-me de onde vêm estas coisas de que o Sérgio aqui fala, e que eu não sabia que existiam nele. Melhor: não sabia que nele, elas também se dizem desta maneira. É uma maneira críptica, enigmática. Por acaso, usa-se uma vez, no livro, a palavra charada – e refere-se ao amor. Não é que o livro seja uma charada. Mas é um território que precisa de ser visitado, conhecido e reconhecido, para que se faça luz sobre as suas sombras, para que se decifrem os enigmas, para que entendamos aquilo de que o Sérgio fala, e desse modo nos sintamos menos sozinhos.

Desde o princípio, li o «Sangue» essencialmente como uma viagem, e isso foi para mim uma espécie de motor principal. Há muitas palavras que se encontram e que têm que ver com esta ideia: naufrágio, despojos, eco da montanha, destroços dos actos, destroço válido. E há palavras e poemas em que podemos assistir ao tumulto da viagem. Ao que é, ao que significa, cá dentro, viajar assim. Por exemplo: vendaval, tornados, tempestades, intempéries, guerra. Mas também «desconhecido, disruptor».

De pensar no «Sangue» como uma viagem ao considerar o Sérgio como um argonauta, foi um pequeno passo, um pequeno movimento. Um argonauta é aquele que parte numa expedição perigosa, (segundo a mitologia grega em busca do velo de ouro). Mas para aqui não interessa senão o perigo desta expedição. Que é: irmos ao mais fundo de nós, vermo-nos, interrogarmo-nos numa espécie de nudez radical. O que somos e o que resta de nós quando estamos num quase juízo final? Quando caem os artifícios, as complacências, a auto-justificação. O que fica quando, como diz um poema, «vão-se descosendo as patentes e os lugares fixos de almoço». Quando acaba a metáfora, a quimera, o enredo, o que nos faz seguir em frente. O que somos quando não somos piedosos connosco, com as nossas escolhas, com a nossa liberdade.

O Sérgio é um homem que procura a liberdade. É fácil empurrar isto para a sua biografia e pensar em quando saiu do país por não querer viver num regime ditatorial. Ou no seu empenhamento político e social através das canções. Mas o que pretendo dizer é algo mais fundo: é a pessoa livre que se revela nestes poemas que constam n’«O Sangue por um Fio». Livre no modo como empreende a viagem, como olha os outros e se olha a si mesmo. Há um poema que fala exemplarmente disto: chama-se «Riscos são da Liberdade».

«Liberdade é uma palavra

A ser usada extremamente

Com devida parcimónia:

Contrafacção da liberdade é ignomínia

Eis tudo palavras ajustadas».

Além da Liberdade, trata-se da Morte neste livro. Leio novamente:

«De noite

Tudo se apanha em voo, vai-se aos sentidos mais aguçados

Aqueles que encontramos nos nossos desenhos de criança

Quando não sabíamos do que se tratava:

Se não se trata de perigo,

De que temos medo na hora da morte?

Do escuro da morte?»

O poema continua. Mas eu pergunto: trata-se do medo da morte? Do perigo da vida? E depois, o que nos salva? Faço a pergunta de outra maneira, e recorro ao primeiro verso de um poema: «Para que serve a poesia, minha amiga? Serve de morada…». No miolo do poema, diz-se assim:

«O envelope mistério.

Aquele que por mais vezes que o abramos

Não desvenda nunca

Quase tudo do amor»

Talvez seja importante dizer que este não é um livro de poemas de amor. E mesmo que um capítulo se chame «Do amor à primeira vista», este não é um livro de poemas de amor. Mas há imagens que o Sérgio nos dá e que têm a fulgurância do amor puro. Gosto muito quando ele escreve:

«Como lanhos clareando na pele

Igualamos duas vidas nas diferenças”.

Gosto sobretudo quando ele diz:

“Deve-se tanto àquele dia em que nos vimos novidades».

A novidade, a surpresa, o desconhecimento: esse momento em que se formou um clarão e isso nos iluminou, nos fez menos sombrios, menos sozinhos. Estes poemas do Sérgio Godinho são isso. São uma iluminação progressiva daquilo que lá se passa. São elípticos e são decifrados à medida que entramos no vórtice. À medida que os vivemos. Abandonamos e não abandonamos a perplexidade que eles nos causam.

Algumas coisas, breves, antes de terminar. Primeiro, a Palavra. Há inversões e jogos curiosos, patentes por exemplo no título – «O Sangue por um Fio». Em vez de «A Vida por um Fio». Mas é importante dizer que estes jogos nunca são gratuitos nem procuram o efeito pirotécnico de um intérprete virtuoso. Eles são apenas um modo de expressão, e, mais do que tudo, de ler a realidade. Com a subtileza e a ironia que conhecemos de há muito no Sérgio. E com isso, ele lê e dá a ler de uma maneira invertida, passando para o outro lado do espelho. Sobre a tristeza destes poemas, digo apenas um verso:

«Muitos de nós ficaram abandonados por entre as margens do mar anos a fio».

Por fim, os desenhos do Tiago Manuel que acompanham o livro e que me sugerem um corpo dissecado. Uma imagem microscópica de uma matéria sensível. Um tecido, um coração, uma sucessão de artérias. Uma série de caminhos, por onde se viaja.

Eu não compreendo completamente o que aqui está. Quem ele é. Mas tenho a presunção de o compreender melhor, e de me interrogar a mim mesma melhor, depois de o ler. Para voltar ao verso: para que serve a poesia minha cara amiga?

Talvez sirva para nos interrogarmos, e dessa maneira nos sabermos, e dessa maneira sermos menos sozinhos.

Anabela Mota Ribeiro

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