A Phala

Crónica de um bom rapaz

In A Phala on 21 de dezembro de 2009 at 11:39

Escrevi um texto a que poderia chamar «Crónica de um bom rapaz». Ou «Dinis, um rapaz de Lisboa». Escrevi um texto para dizer com mais precisão as coisas que eu quero dizer do Dinis e do livro «Blackpot».

Esta tarde estive a matar saudades do Dinis relendo a entrevista que ele me concedeu há cerca de dez anos, quando nos conhecemos. Ele dizia: «Queria ser jogador de futebol, actor de cinema, um pouco filósofo, e queria ser um novelista, um poeta. A certa altura tive de fechar portas. Ficou a porta do escritor possível. Escritor possível, porque sempre tive um grande respeito pela escrita e pelos grandes escritores». Este escritor possível, tenho a impressão, sabe intimamente que é um grande escritor. Estas coisas costumam saber-se. Mesmo que paire sempre a dúvida, e sobretudo quando Borges e Camus o fazem encolher-se no seu canto.

No livro, há uma frase tremenda, de Camus, a inquietar os leitores: O parágrafo começa assim: «Victor foi com a mão, maquinalmente, à estante e retirou de lá La Chute, de Camus. Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava: “Quando todos formos culpados então será a democracia”». Uma frase tremenda, enigmática, a que voltarei mais tarde. Para já, quero dizer que Borges está aparentemente mais distante deste livro, pelo simples facto de aqui não encontrarmos o assassino profissional Peter Maynard. O herói ou anti-herói dos três policiais que Dinis escreveu nos anos 60. Peter Maynard, que, como é sabido, é uma americanização de um personagem de Borges, Pierre Menard, não aparece. Contudo, Dinis sentiu a respiração do seu alter-ego literário e decidiu assumir este texto como sendo um texto de Dennis McShade. Sobre os policiais, ele disse-me em entrevista:

«Os próprios romances policiais, eram um bocado subvertores; a linguagem procurava ser americana, mas muito cortada por paródias europeias. (Imagine um tipo, no mercado do crime americano, implacável, que tem cultura! A incongruência dos romances policiais, é que o tipo fala aos outros do mundo do crime como se estivesse num plano superior, “Pois o Rimbaud também pensava assim”; o outro gajo sabe lá quem é o Rimbaud, o que é que isso interessa para a conversa!). Este lado gozão dos romances policiais era também um apetrechamento para uma possível escrita minha. Estava a fazer um curso de aprendizagem da minha própria escrita para escrever um dia um livro».

Esse livro, como sabemos, era «O que diz Molero». Um clássico da literatura portuguesa da segunda metade do século XX e, de certa maneira, um livro a que Dinis ficou preso. Eu, que o conheci de perto, e que li as outras coisas, não sabia que Dinis tinha este «Blackpot». E sobretudo, que ele tinha sido escrito depois dos policiais e depois do «Molero». Que Dinis tinha voltado a um lugar antigo. Por outro lado, depois de ler «Blackpot», é evidente que ele já não era o mesmo que escreveu «A Mão Direita do Diabo», «Requiem para D.Quixote» e «Mulher e Arma com Guitarra Espanhola». Era o mesmo sem ser o mesmo – se é que me entendem… Vou tentar ser mais explícita:

Em «Blackpot» não há frases como:

— «Vive no mundo do crime e não perdeu a inocência».

— «Trazia a mesma merda de sorriso».

— «A miséria tem sempre a mesma cara».

— «Você continua pestanudo como uma gazela de Walt Disney».

— «Você não acredita num amor maldito? Acredito nas tempestades dentro das pessoas».

O que há nos outros e que não há neste, é que Maynard tem conflitos íntimos, hesita. Em «Blackpot» mata-se com precisão. Usa-se a mira, o silenciador, trabalho limpo. Não há vestígios daquele capítulo hilariante de «Mulher e Arma com Guitarra Espanhola» em que, no submundo do crime, pessoas de reputação duvidosa entram num bar e assumem nomes de escritores. Um regabofe! Dá coisas do estilo:

«Este é o meu amigo Karl Marx, não é mau rapaz, mas muita gente embirra com ele».

Ou

«Queria pedir-lhe um favor, George Sand. Peça. Queria que me apresentasse o Marquês de Sade».

E há aquela sequência imbatível, quando Maynard entra numa sala completamente vermelha e lhe oferecem uma bebida. Ele responde:

«Não bebo uísque. Gostaria de beber um copo de leite, mas para não destoar, não me importo de beber um copo de sangue!»

Dennis McShade, ou melhor, Dinis, estava em roda livre quando escreveu o terceiro destes policiais. Assunto arrumado. Assim sendo, apesar das diferenças, porque é que é McShade a aparecer nos anos 80, com «Blackpot», e não Dinis Machado? É simples. Na minha opinião, porque as obsessões eram as mesmas, o universo era o mesmo. Basta ouvir a seguinte frase para perceber do que falo:

«Pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão. Esta frase idiota fora-lhe dita, uma vez, por um médico que morrera atropelado por um camião. Continuou a olhar para o espelho e tentou sorrir da ideia. Mas não sorriu. Observou os dentes. Tinha-os em mísero estado. Pegou no frasco de álcool, lavou as mãos e passou-as pelo cabelo».

Estão a ver um camone do «Molero» a esfregar-se com álcool? Eu estou. Estão a ver Dinis a vomitar o medo e a solidão? Eu estou. Estão a ver a má sorte, o acaso, o que lhe quiserem chamar, de um tipo ser atropelado e não o merecer? Eu estou. A vida tem destas coisas arbitrárias. Dinis concordaria.

Vou agora tentar dizer como é que li «Blackpot». É uma novela curta, que se lê em menos de uma hora, e que é preciso reler para entender quelque chose. (Dinis também concordaria com uma tentativa de fazer humor quando as coisas ficam muito sérias e formais). O que me aconteceu foi que li e fiquei a pensar o que era aquilo. O que é estava contido naquelas 50 páginas. O que é que Dinis queria dizer nelas.

Na primeira página, Armador diz: «Vem a minha casa, jogamos uma partida de xadrez». Nessa altura, não percebemos ainda que vamos assistir a uma partida de xadrez. Mas essa não foi a primeira coisa que me ocorreu. A primeira foi que estava perante um tirocínio. Em que todos matavam e eram mortos. Em que as personagens não eram personagens, mas sim nomes. E sobretudo, funções. Estava perante um organigrama, complexo, inquietante. Um puzzle a pedir uma decifração permanente. Dele fazem parte: Gulliver, Armador, Legos, Lorenzo, Condor, Argos, Travel, Victor, Bruno, Ornatto, Crystal, Laerte, e Cândido, o Frio.

Treze personagens. No livro, se não me escapou alguma, contei 12 mortes. Mortes cirúrgicas, em que não se erra no alvo. Mortes sem sangue. Aliás, o único sangue que há em «Blackpot» é aquele que um personagem cospe para o lenço. E mortes impiedosas. Todos matam e todos sabem que vão ser mortos. Porquê?, o que é que se passa? A resposta está no livro. Há a gente lá de baixo, há a gente de lá de cima, e há a necessidade de fazer uma reorganização.

Quem são estas pessoas, ou estes nomes? O que é que eles nos dizem?, que pistas nos deixam? Algumas suposições: Argos, segundo a mitologia, é o gigante armador; foi o construtor e o piloto do navio dos argonautas. Laertes é o pai de Ulisses. Há um personagem que se chama Travel. Há outro que se chama Condor. E há outro, Bruno, que quando queria pensar se metia num avião e voava. Há também Victor: como a palavra indica, etimologicamente, é aquele que vence. É o que acontece em «Blackpot». Gulliver, o de Swift, é o das viagens; é gigante quando está numa terra de anões, anão quando está numa terra de gigantes. Também nesta novela ele está entre os que estão lá em cima, e os que estão lá em baixo. Entre os que morrem e os que mandam matar. É o primeiro a aparecer, é usado para ir matando todos, e é o último a morrer. E quem o mata? Reparem na finesse do Dinis: Cândido, o Frio. Podia ter sido um qualquer, mas quem faz cheque mate a Gulliver é um tipo cândido. A candura, a inocência, é talvez o mais persistente dos temas de Dinis Machado.

Mas voltemos ao tabuleiro, ao xadrez, à banalidade humana destes personagens. Sentem-se mal, vomitam, falam para o retrato do pai há 30 anos, sentam-se na borda da cama fumando um cigarro. Preocupam-se com o peito flácido, vêem revistas de mulheres nuas. Estão a cegar. Pensam em matar enquanto fritam ovos com bacon. Têm mais cabelos brancos. Morrem quando vão ter com a amante. Ensinam matemática à filha; metem-na num colégio para a poupar à carnificina. Quase não há adjectivos. Laerte é ambicioso – escreve-se. Fora isto, nada.

Também não há referências constantes a autores de Dinis. Aqui não se fala de filmes de Bergman ou Mizoguchi enquanto a namorada lambe a orelha. Excepções: um deles diz que gosta Samuel Beckett e BD. E outro faz passar no vídeo «My Darling Clementine». Ora, aqui está um indício de que esta novela não foi escrita aquando dos outros policiais. Pela simples razão de que não se usavam vídeos nos anos 60. Voltando à entrevista de Dinis, ele dizia:

«Éramos espectadores diários de cinema. Trabalhava já nos jornais, e tinha horários tremendos: entrava às seis da manhã, saía às duas da tarde, conseguia a noite livre para ir ao cinema. Nos intervalos entre o jantar e o cinema, tínhamos os livros e a discussão na mesa do café, “Dá cá este, dá cá aquele”, era assim feito o aluguer dos livros. Consoante agora se alugam vídeos. Íamos à Barateira e escolhíamos os livros. Tirei obras primas só pelo título, e depois vi que eram obras primas. Aconteceu-me com o primeiro Camus, os primeiros Boris Vian, com o Céline da “Viagem ao fim da noite”. E ainda tínhamos tempo para ir jogar futebol ao domingo todo o dia, de Inverno ou de Verão».

Temos então 58 páginas, de uma narrativa algo apocalíptica, em que, após tantos mortos, tudo fica na mesma. Temos uma luta entre gangues, numa descrição descarnada, e aqui e além, aparecem bocadinhos de personalidade. Temos um jogo de xadrez. Movimentam-se peças, mas isso não tem relevância. É só o jogo, é só o xadrez, e no fim tudo recomeça. «Andam a matar-se uns aos outros como doidos», diz-se a dada altura. E a questão de fundo é: quem anda a fazer isto?

Estas peças são jogadas por uma mão que joga. É Victor, jogando tudo? São várias pessoas que não sabemos quem são? São peões. Torres?, bispos? Rei e rainha? É um jogo cheio de brincadeiras, não forçosamente perigosas. No capítulo 13 e no 31, por exemplo, repete-se a mesma frase. «Blackpot» é quase um poema. É uma never ending story. Revela o que é a escrita, o esqueleto de uma escrita. O que é que isto tem a ver com os outros três McShade? Os outros são isto, e a carne. Mas nem por isso ficamos pior só com a ossatura. Pelo contrário. Dinis tem a faca afiada, e deixa-nos na inquietude. Sobretudo quando atira com aquela frase de Camus: «Quando todos formos culpados, então será a democracia».

Talvez ela queira dizer que partilhamos todos de um mesmo sentimento comum. A culpa, o medo, a solidão. Talvez a frase de Camus queira dizer que quando todos formos responsáveis, então será democracia. Quando todos tivermos poder de intervenção, será democracia. Dinis, como sabemos, tinha um carinho especial pelos desvalidos, pelos que caem para o lado mais negro, pelos injustiçados. Esses, somos todos. Uns mais do que outros, mas todos. Estamos todos nesse «Blackpot», esse pote preto, onde a minha avó fazia a sopa. Uma frase de Dinis para terminar:

«A tentativa da explicação do mundo é terrível, labiríntica. Vamos inventando sobre invenções. A luta com o real é tremenda; é o quotidiano, o corpo a já não responder, a cabeça a fazer recusas permanentes. Vou-me limitando um pouco ao meu mundo. Por exemplo, este momento, depois do almoço, a fumar uma cigarrilha e a beber café, é privilegiado. Se pudesse escolher a hora da morte, gostava de morrer assim, à tarde, de cigarrilha e café, sossegado. Se pudesse escolher».

Anabela Mota Ribeiro

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