A Phala

Mensagem | Dia Mundial da Poesia

In Diversos on 9 de abril de 2010 at 09:41

António Osório«A poesia é ainda possível»? Montale, no discurso em que recebeu o Prémio Nobel de 1975, interroga-se sobre o papel que pode ter «a mais discreta das artes», num tempo em que «o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si próprio».

Montale deixou-nos uma palavra de esperança – para a poesia «que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época», «para essa poesia não há morte possível…».

Mais de 30 anos passaram. Não haverá agora maiores motivos para se ficar inquieto quanto ao futuro? O mundo actual não é bem pior que o de 1975? Os drogados, a sida, os alunos que desrespeitam e agridem os professores, a brutalização da Europa, a crueldade recíproca entre árabes e judeus, o terrorismo internacional, as infindáveis guerras, a crise financeira que se apossou do mundo, tudo isto não são formas tenebrosas de desprezar a vida e a poesia?

Por outro lado, avulta o triunfo da «mediocracia» e dos best sellers do sexo («La vie sexuel de Catherine M.», chegou aos 350.000 exemplares em França, e foi traduzida em vinte línguas, a portuguesa inclusive, e note-se, era um editor respeitável, as Éditions du Seuil).

Mutatis mutandi, o mesmo se passou e passa entre nós. Os livros dos «ases» do futebol e da televisão, que colhem fortunas …

Em contrapartida, as edições de poesia sofrem acentuada diminuição das tiragens. Os jovens universitários lêem cada vez menos, trocando a poesia, quando a trocam, pela «prosa» multimilionária…

Repare-se no que ocorre com a televisão, o deus ex machina. Quando aparece a poesia, e só muito raramente aparece, vem longe dos ditos «horários nobres». E as páginas literárias estão acabando tristemente, o que conta é o futebol e as revistas do coração…

Que fazer contra esta maré negra, contra esta ocultação da poesia?

Infelizmente, ninguém vê hoje o poeta como o via Platão – «uma coisa leve, alada e sagrada». Os poetas são agora uns estranhos párias, uma espécie de sonhadores que andam nas nuvens.

A defesa da poesia cabe aos poetas. Muito têm resistido, têm que resistir mais ainda.

A experiência diz-me que as leituras de poesia nas escolas e nas universidades, pelos próprios poetas, o diálogo que tem de estabelecer com os alunos seus ouvintes é uma das melhores formas de humanizar o poeta e de chamar o interesse para a poesia que faz. E não se devem limitar estas leituras ao próprio país… Graças a Eugénio Lisboa e Patrick Quillier, fui primeiro traduzido para inglês e francês – e em Inglaterra e em França convivi com centenas de alunos.

Não basta o esforço isolado do poeta. O confinamento ao seu próprio país também lhe é nefasto. Há menos de 20 anos, quantos poetas portugueses contemporâneos eram conhecidos no Brasil ou em Espanha? Impõe-se a ajuda crescente da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, e do Instituto Camões.

Não tenhamos dúvida sobre a nossa poesia actual. Ángel Crespo, um dos maiores lusitanistas e grande poeta, na sua Antologia de Poesia Portuguesa escreveu que «la poesía portuguesa contemporánea muestra … una variedad tal de enfoques e soluciones que hacem de ella una de las mas significativas de nuestro tiempo».

Tão-pouco nos devemos confinar a uma ironia sarcástica contra um mundo cruel. Sem dúvida, a poesia terá de ser um «refúgio» contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a «palavra cósmica», uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.

Retenhamos estas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas «Cartas a um jovem Poeta»: «ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue».

Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera. Contra o desprezo pela poesia, oponhamos a nossa perseverante defesa. E ofereçamos os nossos livros, com um gesto fraterno.

António Osório, 21 de Março de 2010

Anúncios
  1. A Poesia – a sublime e perene Arte de se Existir e Viver – tem realmente sofrido muitos golpes duros ao longo dos últimos tempos… Estamos cada vez menos ‘educados’ a apreciar estas formas tão puras que, na minha opinião, são as mais verdadeiras da nossa realidade… Agora, apenas se lê por ler (e isto quando se lê, o que começa sendo cada vez mais raro, principalmente entre as camadas mais jovens) e, quando se lê, procuram-se leituras simples que não interfiram muito com a sensibilidade (pretendo com isto dizer que se preferem cada vez mais as leituras ‘leves’ em que se não tem de pensar muito ou que exigem pouco esforço a nível intelectual e minorada sensibilidade estética).
    Este facto é preocupante, pois seu avanço é galopante – em que situação nos encontraremos nós daqui a vinte anos?…

    Os poucos que ainda são capazes de discernir a Verdade da Poesia têm mesmo de se insurgir contra a tendência geral. Não desistamos!… Lutemos sempre, com todas as nossas forças, até que de nada mais nos possamos valer e tenhamos de tombar, exauridos.
    Cultivemos os Valores entre os povos, acreditemos ainda no Quinto Império, com toda a nossa fé…! Partamos em direcção ao infinito, «mergulhemos no azul», denunciemos todas as faltas que a sociedade tem tido para com a Poesia e todos que a ela se entregam apaixonadamente!

    Vivamos a Arte…!

    E nunca, mas nunca, nos esqueçamos das Grandes Almas que nos deixaram um legado imenso, magnífico – fonte de copioso orgulho a qualquer que tenha um mínimo de bom senso.

    Busquemos o triunfo! Não desistamos! A solidariedade entre todos os que se entregam a esta nobre causa é indispensável.

    “É a Hora!”

    Filipe Cachide – estudante universitário.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: