A Phala

A edição de «O Caminho dos Pisões», de M.S. Lourenço

In Documenta Poetica on 16 de dezembro de 2010 at 18:26

Em Setembro de 2009 foi publicado O Caminho dos Pisões, a última obra literária de M. S. Lourenço, falecido no primeiro dia do mês anterior. O presente artigo visa descrever sem pretensões de exaustividade o modo como este livro foi concebido e executado, objectivo cuja pertinência é reforçada pela ausência de nota editorial na própria publicação [1].

Tendo eu sugerido a 31 de Março de 2007 a M. S. Lourenço que se fizesse um livro com a sua obra literária reunida, o trabalho foi iniciado no princípio de Abril. Numa fase inicial o autor decidiu incluir quase tudo o que publicou sob a forma de livro entre 1960 e 2002 [2]:

O Desequilibrista, Lisboa: Livraria Moraes Editores, 1960

Arte Combinatória, Lisboa: Livraria Moraes Editores, 1971

Wytham Abbey, Lisboa: Livraria Moraes Editores, 1974

Pássaro Paradípsico, Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1979

Nada Brahma, Lisboa: Assírio & Alvim, 1991

O Doge, 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa: Fenda,  1998

Os Degraus do Parnaso, edição integral, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

Nestes termos, M. S. Lourenço optou no princípio por excluir três livros na medida em que tinham sido superados de algum modo. São eles:

O Doge, Lisboa: Livraria Moraes Editores, 1962

Ode a Upsala, Sintra: s.n., 1964

Os Degraus do Parnaso, Lisboa: «O Independente»,  1991

Com efeito, o conjunto de narrativas com o título O Doge foi profundamente revisto e acrescentado na edição de 1998, a primeira edição dos Degraus do Parnaso foi modificada nos seus elementos constituintes (alguns textos retirados, alguns mais adicionados) e reorganizada na publicação homónima de 2002. O último conto de Ode a Upsala, «Missa do homem armado», também ele submetido a várias mudanças, passou a encerrar a segunda edição do Doge. De acordo com a decisão inicial de M. S. Lourenço, o seu livro de 1998 funcionaria como uma suma dos volumes saídos em 1962 e 1964 e só ele teria validade para a compilação da obra literária. Em Junho de 2007, na sequência de conversa com Frederico Lourenço, o autor decidiu alterar a sua decisão inicial, tendo determinado que também o texto das primeiras edições do Doge, dos Degraus do Parnaso e ainda de Ode a Upsala seria integrado na compilação. Estou convicto de que esta mudança de posição em relação ao conteúdo do livro teve influência na escolha posterior do título, que em parte remete para o itinerário estético do autor, independentemente de M. S. Lourenço em 2007 se rever mais ou menos em alguns dos títulos que lançara.

A ordem por que os textos foram apresentados dentro do Caminho dos Pisões nunca esteve em questão, tendo sido tornado claro desde o princípio do trabalho editorial que vigoraria a ordem cronológica por que os livros tinham sido publicados. Dada a inexistência prévia de documentos electrónicos com os textos seleccionados por M. S. Lourenço para figurar na compilação, quase todos eles foram transcritos a partir das publicações originais, uma pequena parte com auxílio de reprodução por scanner, revista e corrigida de seguida. As excepções foram os inéditos «Das kleine Gribskoff Lexikon» e a notícia que o precede (O Caminho dos Pisões, pp. 551-554), cujos textos foram disponibilizados pelo autor em cópia electrónica.

Uma vez concluída a transcrição, foi introduzida uma série de correcções que se  distribuíram por três planos: a) de acordo com decisão do autor, conformação geral à ortografia vigente na altura em que saiu cada um dos livros, daí O Caminho dos Pisões conter textos com ortografias diferenciadas; b) correcção de lapsos, a partir de listas de casos possíveis que foram submetidos ao escrutínio do autor; c) introdução de modificações propriamente literárias feitas de propósito tendo em vista O Caminho dos Pisões. As listas referidas em b) foram elaboradas com um critério razoavelmente amplo que fez com que tivessem sido incluídos casos de dúvida residual. Em geral, as correcções de lapsos foram realizadas a partir destas listas, muito raramente algum erro tendo sido assinalado inicialmente pelo autor.

De entre o conjunto de lapsos tipográficos eventuais M. S. Lourenço indicou o que devia ser corrigido, tendo daqui resultado um conjunto de emendas simples no texto corrente das suas obras. Alguns exemplos:

O Caminho dos Pisões
1. O Desequilibrista Nada para fazer significava não poder atingir coisa alguma que falasse ao meu egoísmo, embora esta palavra me repugne e por não ser contemporâneo dos acontecimentos me parece desadaptada para significar o que pretendo. (p.118) Nada para fazer significava não poder atingir coisa alguma que falasse ao meu egoísmo, embora esta palavra me repugne e por não sercontemporânea dos acontecimentos me parece desadaptada para significar o que pretendo. (p.90)
2. O Doge (1.ª ed.) repetindo aos ares o verso de Dante: | «sono spechii» (p.95) repetindo aos ares o verso de Dante: | «sono spechi» (p.137)
3. Ode a Upsala … la otra propriedade del agua es q͂  harta (p.24) … la otra propiedad del agua es q͂ harta (p.149)
4. Arte Combinatória Se Príamo morresse antes de Parister os seus navios, (p.51) Se Príamo morresse antes de Páris ter os seus navios, (p.185)
5. Wytham Abbey A pedra parece não ter sido de umas dimensões | Que nãopermitisse a sua classificação como normal, (p.43) A pedra parece não ter sido de umas dimensões | Que não permitissem a sua classificação como normal, (p.216)
6. Pássaro Paradípsico assim | já e tempo | de | rastejar | na lua (p.29) assim | já é tempo | de | rastejar | na lua (p.251)
7. Nada Brahma capadocio (p. 65 et passim) capadócio (p.358 et passim)
8. Os Degraus do Parnaso (1.ª ed.) O título dos meus ensaios Os Degraus do Parnaso é derivado do título da obra Gradus ad Parnassum, concebida para compilar todo o saber musical da época num único tratado, que o musicólogo Johann Joseph Fux publicou em Viena no séculoXVII. (p.107) O título dos meus ensaios Os Degraus do Parnaso é derivado do título da obra Gradus ad Parnassum, concebida para compilar todo o saber musical da época num único tratado, que o musicólogo Johann Joseph Fux publicou em Viena no século XVIII. (p.510)
9.O Doge (2.ª ed.) Ao fim desse tempo, todavia, não resisti mais. Kari venceu e fui de novo tomado por um amor violento e canino. Longe de se afastar ou de fugir, ela continuou a procurar-me de surpresa. §Voltamos a dar passeios no parque. (p. 38) Ao fim desse tempo, todavia, não resisti mais. Kari venceu e fui de novo tomado por um amor violento e canino. Longe de se afastar ou de fugir, ela continuou a procurar-me de surpresa. § Voltámos a dar passeios no parque. (p. 532)
10. Os Degraus do Parnaso (2.ª ed.) por um lado uma tardia dicção romântica, como asserção universal acerca da superioridade da consciência introspectiva e por outro um tom avant-garde, explícito no tratamento formal do poema (p.112) por um lado uma tardia dicção romântica, como asserção universal acerca da superioridade da consciênciaintrospectiva, e por outro um tomavant-garde, explícito no tratamento formal do poema (p.622)

As intervenções deste género impunham-se por razões de conformidade textual ou histórica (exs. 2, 3 e 8 ) ou por razões gramaticais (ex. 1, concordância de género; exs. 4 e 7, acentuação;  ex. 5, concordância de número; ex. 9, concordância de tempo; ex. 10, pontuação). Vale a pena fazer duas anotações breves a este respeito, uma sobre citações, outra sobre acentuação.

A par dos exemplos 2 e 3, houve a preocupação de confirmar as citações feitas por M. S. Lourenço, distinguindo aquelas que importava reconduzir à letra do texto citado daquelas que, por intenção autoral, tinham sido propositadamente modificadas. Assim, o tratamento do livro Ode a Upsala revelou-se bastante delicado[3]. Por exemplo, o fragmento do Canto 97 de Ezra Pound extensamente utilizado na narrativa que dá título ao livro foi revisto de acordo com o texto e a disposição na página da edição Faber & Faber  (1975, pp. 681-682).  Em contrapartida, o título «The Seefahrer», onde se associa o determinante inglês com um substantivo alemão e que encabeça uma homenagem ao mesmo Ezra Pound  (cf. Martinho 2007: 151), não foi uniformizado para «The Seafarer» ou «Der Seefahrer» como pediria um ideal de continuum monolinguístico. A conservação da forma estranha do título acha-se caucionada pela convivência babilónica de vários idiomas no interior deste poema, não estando evidentemente este caso no mesmo plano em que se deu a aparente germanização do apelido do crítico inglês Northrop Frye na 1.ª ed. de Os Degraus do Parnaso («Northrop Frye», p.77)[4].

Encontramos uma outra situação em que tudo convida a manter uma citação alterada no início de Nada Brahma. Perante a envolvência programática que rodeia esta obra, comprometida com a tese segundo a qual a literatura é uma forma de música, não é estranho que a sua epígrafe seja «The island is full of sounds». A citação usa, mas não reproduz, um passo de The Tempest (III, 2, 133-134), a última peça de Shakespeare: «Be not afeard; the isle is full of noises, / Sounds and sweet airs, that give delight and hurt not», que é como a personagem Caliban apresenta a ilha. A citação em epígrafe está obviamente errada na perspectiva da reprodução, mas só um editor especialmente desatento não perceberia como a citação está certa do ponto de vista estético e nada há a fazer senão manter o que se lê na abertura de Nada Brahma. Dizer que a ilha está cheia de ruídos copiaria mais exactamente o que Shakespeare escreveu, mas a alteração é conforme à poética de M. S. Lourenço.

A segunda anotação prende-se com a acentuação. A edição de Pássaro Paradípsico, além de apresentar outros problemas que mencionarei adiante, foi preparada por Mário Cesariny de Vasconcelos quando M. S. Lourenço trabalhava na Universidade do Estado de Indiana, nos Estados Unidos da América, e encontra-se afectada por o texto estar extraordinariamente desprovido de acentos. A ausência de acentos pode dever-se ao uso de um teclado americano, destituído de diacríticos portugueses, mas a dactilografia de textos em que os diacríticos são acrescentados depois corresponde a uma prática de M. S. Lourenço que talvez já ocorresse antes e é pelo menos atestável em período bem posterior. Isso mesmo pode ser observado nos dactiloscritos da recensão com o título «Rilke na era da bestialidade», publicada no jornal O Independente em 1996, e do poema «Qualquer nua amplitude», integrado no Caminho dos Pisões (p.412). Assim, o que tem ar de ser um procedimento alargado no tempo não terá tido a devida atenção no final dos anos 70 aquando da preparação de Pássaro Paradípsico e algumas correcções de acentuação não chegaram a ser feitas. Mas se olharmos de novo para o exemplo nº 6 do quadro anterior, verificaremos que, apesar de dizer respeito a uma emenda muito provável, não se trata de um caso necessariamente a corrigir. Ou seja, o texto apresenta um grau mínimo de legibilidade sem acentuação e, portanto, seria possível no limite sem acentuação. Isto leva-me a escrever alguns apontamentos sobre um número de situações em relação às quais a emenda estava longe de ser inequívoca ou está ainda longe de ser inequívoca. Admito hoje que M. S. Lourenço talvez não tivesse tocado nestes trechos se não lhe tivesse chamado a atenção para eles. Entretanto, são um dos exemplos mais claros de como, mesmo tendo em conta que sempre tentei actuar como executante das determinações autorais, há uma margem de interferência editorial absolutamente inevitável.

Em Pássaro Paradípsico o termo «pluralidades» aparece no poema 28 (p. 133) numa zona em que se afigura viável, mas a plausibilidade de se tratar de uma lectio facilior em vez do termo joyciano «plurabilidades», que surge nos poemas 7 e 9, é razoável. Teresa Amado não deixou de reconhecer a importância conceptual da desta palavra na recensão a Pássaro Paradípsico: «Desde o título ao movimento temático geral do poema, às suas “plurabilidades”, a leitura de Finnegans Wake surge em vários níveis de produtividade conceptual, ideológica e textual» (p.73). M. S. Lourenço aceitou a sugestão de correcção.

No volume Arte Combinatória, o poema I da secção «Gama» contém um verso onde se lê «Merdosa parece agora a Expansão,». A palavra inicial pareceu-me pertencer a um registo estranho (que comparece, por exemplo, no poema «O Sutra de Patrícia Rimpoche», mas está praticamente ausente de Arte Combinatória) e assinalei-a pedindo confirmação. Admiti para mim que pudesse ter-se tratado de uma simples troca de letras e que a palavra certa fosse «Medrosa». O autor optou por corrigir: «o verso anterior ao penúltimo na pg. 33 é na verdade “ociosa parece agora …”» (mensagem de 30.5.2007). Não julgo, contudo, que a correcção devolva o verso à intenção autoral à data em que o texto foi publicado. Na verdade, antes de ser integrado em Arte Combinatória, este poema já tinha saído isoladamente, na revista O Tempo e o Modo, e lá aparece a mesma redacção «Merdosa parece agora a Expansão,». O móbil para a intervenção do autor pertence, por isso, mais à ordem da actualização do que ao domínio das emendas de lapsos.

Caso aparentado com este último é o que se encontra no início de «L’été dernier à Helsingborg»,  narrativa da primeira edição do Doge: «Hoje é o dia que sinto capaz de falar dos meus amores.» Na segunda edição, no texto correspondente (que leva o título «Sobre um tema de Ticiano»), lê-se: «Hoje é o dia em que me sinto capaz de falar dos meus amores.» Coloquei a hipótese de haver duas lacunas inadvertidas na primeira versão, tendo dado azo a que M. S. Lourenço corrigisse, gramaticalizando aquele incipit. De novo, esta narrativa já tinha sido publicada autonomamente na revista Sibila, antes de ser emparceirada com outros textos no volume O Doge. Também na versão da Sibila o início é aparentemente falho de palavras e creio que essa ausência da preposição e do pronome poderia contribuir para o fluxo oral da écriture automatique a que M. S. Lourenço associa O Doge no seu percurso literário. Nestes termos, admito que a revisão do texto da primeira edição talvez tenha sido contaminada pela fórmula inaugural da narrativa da segunda edição. Uma vez mais, talvez a emenda introduzida por M. S. Lourenço não nos devolva o texto de 1962 e constitua sobretudo um aggiornamento.

Um outro caso tem a ver com uma zona de Ode a Upsala que ficou rigorosamente suspenso. No oitavo poema de «The Seefahrer» deparamos na parte final com um surpreendente elenco de referências a autores clássicos seguidas de percentagens:

Titus – 12 %

Tucídedes – 24 %

Titus – 15 %

Salústio – 25 %

Em reacção à minha estranheza perante a repetição do nome «Titus» com duas percentagens diferentes, M. S. Lourenço afirmou que estes dados foram retirados de fontes assinaladas no verso imediatamente a seguir («Nach Kohl e Ullmann»). Acrescentou que, como já não dispunha do trabalho de Otto Kohl e Ragnar Ullmann (ou seriam dois trabalhos?), não estava em condições de propor uma emenda, tendo por isso sugerido a eliminação de «Titus – 15%».

Observadas algumas situações em que à fixação do texto não corresponde necessariamente a resolução de questões de leitura, importa dizer que M. S. Lourenço tomou a iniciativa de rever com alguma profundidade dois livros: Pássaro ParadípsicoNada Brahma. Além disso foram introduzidas alterações significativas em dois outros, Wytham Abbey, de que foi retirada a nota prefacial, e sobretudo a versão revista de O Doge, que foi complementada pelo inédito Léxico Gribskoff e pela nota sobre o aparecimento do heterónimo Alexis Von Gribskoff.

Em relação a Nada Brahma M. S. Lourenço começou por dizer que iria fazer alterações em «Noite de fumo com almofadas», que não chegou a comunicar; mas este livro foi acrescentado da tradução de 15 poemas sobre O Livro dos Jardins Suspensos de Stefan George, o juramento de Stauffenberg e de umas «Fórmulas de ingresso na Ordem Geheimes Deutschland». Este conjunto foi destinado para o fecho do livro, formando a secção «Poemas para o ingresso na ordem Geheimes Deutschland». A este respeito lembre-se que Stefan George presidiu a um círculo de indivíduos animados pela ideia de um império germânico do espírito e Claus Stauffenberg (1907-1944), conhecido pelo atentado falhado contra Hitler, foi um dos mais empenhados elementos desse círculo (cf. Hoffmann 2003). O ideal da literatura como forma de música está bem patente em vários destes textos, sendo de registar que os poemas de George aqui traduzidos foram musicados por Schönberg, no que foi a sua primeira experiência atonal. Tratando-se de uma secção maioritariamente inédita, alguns dos poemas agrupados sob o título «Fórmulas de ingresso na ordem Geheimes Deutschland» foram inicialmente publicados em 1993 na Colóquio-Letras sob o título «Praia da Agonia».

Nada Brahma foi também o livro de M. S. Lourenço mais nitidamente submetido a mudanças de organização:

Nada Brahma O Caminho dos Pisões
I parte – Imitationes
Epígrafe
  1. A Noite do Tetrarca, segundo Oscar Wilde
Aurora Ascendente
  1. Meditação Sobre Duas Harpas, segundo W. B. Yeats
Cantar Após Um Longo Silêncio II parte – Epígrafe
Camilo Pessanha Sobe os Degraus do Parnaso
  1. Linhas Compostas no Poente de Domingo 26.6.1983
Meditação Sobre Duas Harpas no Túmulo do Sultão em Marrakech III parte – Cesário Verde no Parnaso
Falar por Meio de Pausas
  1. Aurora Ascendente
Um Outono de Chuva
  1. Cantar Após Um Longo Silêncio
Primeira Lua de Inverno
  1. Camilo Pessanha Sobe os Degraus do Parnaso
Pássaro do Apocalipse
  1. Falar por Meio de Pausas
Noite de Fumo Com Almofadas
  1. Um Outono de Chuva
  1. Primeira lua de Inverno
  1. Pássaro do Apocalipse
IV parte – Poemas para o ingresso na ordem Geheimes Deutschland
  1. 1. 15 Poemas sobre o Livro dos Jardins Suspensos de Stefan George
  1. 2. O Juramento de Stauffenberg
  1. 3. As fórmulas de ingresso na ordem Geheimes Deutschland

Na nova estrutura, agora explicitada tanto por meio de indicações numéricas (relativas às partes e às unidades no interior das partes) como pela revelação das fontes, a versão de Salomé e a «Meditação sobre duas harpas» (destacadas a negrito na coluna esquerda da tabela) formam a primeira secção; a segunda secção é inteiramente composta por uma epígrafe; e a terceira agrupa todos os outros poemas da primeira versão de Nada Brahma pela mesma ordem relativa, antes do núcleo novo, os Poemas para o ingresso na ordem Geheimes Deutschland.

Quanto a Pássaro Paradípsico, M. S. Lourenço disse que não participara na organização do volume publicado em 1979 e que era contrário a algumas decisões tomadas então. O Caminho dos Pisões deu azo, por isso, a uma revisão sistemática que se concretizou de diversos modos. Foi feita uma verificação minuciosa da estrutura estrófica e a disposição na página foi integralmente modificada (o incipit passou a figurar no topo da página logo seguido pelo início do poema, em vez de comparecer em página isolada). Os dois últimos poemas trocaram de lugar, sendo o novo derradeiro poema conjugado no pretérito («os | golfinhos | encontraram | a | sua | utopia»). Uma outra alteração importante foi introduzida no poema 10 («ele | usa | uma | coroa | de | espinhos»):

Pássaro Paradípsico 1979 Pássaro Paradípsico 2009
quandoos mil

&

um

cardos

da mente

romperam

o

crâneo

&

aterraram-no

d i v i d i d o

entre

vomitar

&

cagar

quandoos mil

&

um

espinhos

da mente

romperam o crâneo

&

aterraram-no

a   d i v i d i r

o zero

pelo

i n f i n i t o

Expostas sumariamente as transformações mais relevantes por que passou o texto conhecido de M. S. Lourenço ao entrar no Caminho dos Pisões, pode afirmar-se que a multifacetada concepção deste livro coube ao autor. Depois de globalmente concluída a tarefa de transcrição em Julho de 2007, foram em seguida tomadas várias decisões de diferente teor propostas ou ratificadas por M. S. Lourenço. Embora se tivesse pensado em fazer acompanhar os títulos dos livros individuais pelas datas em que foram publicados, verificou-se que só fazia sentido proceder assim caso o texto de cada um deles fosse simplesmente reproduzido. Ora, como procurei explicar antes, O Caminho dos Pisões nunca é uma reprodução exacta, quer porque se corrigiram lapsos quer sobretudo porque o autor fez revisões pontuais em vários dos livros. Entretanto, as omissões relativas à cronologia no corpo do texto são compensadas pela presença da lista com os títulos e respectivas datas de publicação antes da folha de rosto. O envolvimento de M. S. Lourenço enquanto autor abarcou igualmente a capa. Num momento em que se chegou a prever fazer dois volumes, um com todas as primeiras edições e um segundo, menos extenso, com a segunda edição do Doge e dos Degraus do Parnaso, M. S. Lourenço escolheu imagens de Fragonard para ilustrar as capas: «Os grandes ciprestes da Villa d’Este em Tivoli» (1.º volume) e «A grande cascata em Tivoli» (2.º volume). Com a decisão posterior de reunir toda a obra num único volume, aquela pintura de Fragonard foi a seleccionada para a capa. Enfim, o título O Caminho dos Pisões foi comunicado a 17 de Setembro de 2007.

Interessa também dizer que a edição deste livro passou por várias designações ao longo da sua elaboração. No início, a 5 de Abril de 2007, M. S. Lourenço chamou-lhe, em itálico, edição autorizada; uma semana mais tarde, referiu-se-lhe como uma edição definitiva. Em Setembro de 2007 o autor perguntou-me quais eram «as convenções reinantes sobre a apresentação» do meu trabalho. Propôs «Edição crítica», mas não anuí à sugestão na medida em que nunca tencionara fazer uma incursão exaustiva pelos materiais de trabalho pré-publicação de M. S. Lourenço de modo a compará-los com as publicações e a partir daqui tomar decisões sobre como republicar. A edição saída em 2009 tem evidentemente uma componente crítica porque o texto saído em vida do autor nunca foi ipso facto tomado como fiável, mas não se pode confundir com uma «edição crítica». A designação por ventura mais adequada ao tipo de trabalho realizado seria «edição concebida pelo autor e executada pelo editor», mas esta é uma expressão rebarbativa e rara, o que chamaria a atenção para ela própria desviando-a do texto publicado (e foi clara a intenção por parte do autor de não distrair o leitor do texto). Nestas circunstâncias, a fórmula comum «edição de…» pareceu adequada.

Em jeito de digressão, vale a pena apresentar um exemplo de tarefa que teria forçosamente de estar prevista numa edição crítica e que nunca equacionei desempenhar na preparação de O Caminho dos Pisões. Na primeira etapa de uma edição deste género deve proceder-se à reunião de todos os testemunhos existentes para depois se proceder a um trabalho de índole comparativa, analisar as diferenças e, no caso de se fixar apenas um texto (por oposição a fixar duas versões do mesmo texto), estabelecê-lo com registo das variantes e fazer um eventual comentário. Por ocasião da exposição obituária dedicada a M. S. Lourenço «o Sopro sopra onde quer», que organizei com Nuno Jerónimo na Biblioteca Nacional, pude ter acesso a alguns autógrafos da segunda metade dos anos 50 com textos que viriam a entrar em O Desequilibrista. Entre esses autógrafos encontram-se dois dactiloscritos de «Imitação da Cruz», um que pertence ao cineasta Paulo Rocha, o outro a Pedro Tamen (este último com a indicação «Verão de 1957»). Num ponto do texto, o poema publicado destoa do que se encontra nos dactiloscritos:

Ms. Paulo Rocha e Pedro Tamen O Desequilibrista, Livraria Morais Editora
Ainda ontem, que era dia santo, os homens andaram toda a tarde para trás e para a frente por causa de um motivo bem fútil: extinguir a concupiscência do mundo. Dizem eles que o que se verifica é uma aventura.Eu amo a aventura mas não amo os pequenos papões. Ainda ontem, que era dia santo, os homens andaram toda a tarde para trás e para a frente por causa dum motivo bem fútil: extinguir a concupiscência do mundo.Eu amo a aventura mas não amo os pequenos papões.

Podemos admitir a hipótese de o segmento «Dizem eles que o que se verifica é uma aventura.» ter sido ignorado por distracção, como podemos pensar que os dactiloscritos se destinavam a ser apreciados pelos amigos do autor a quem ele os tinha enviado com o fito de obter reacções e sugestões de acerto. Talvez o desaparecimento deste segmento se fique a dever a uma destas sugestões. A reflexão sobre situações deste género e a proposta de soluções não podem deixar de ser desencadeadas quando se prepara uma edição crítica. Num trabalho editorial como o realizado elas ficaram à margem. Retrospectivamente, penso que se se tivesse optado pela realização de uma edição crítica, só o tempo necessário ao recenseamento de todos os testemunhos dispersos no presente por várias pessoas dilataria o trabalho de tal maneira que M. S. Lourenço não teria possibilidade de ver o fruto da compilação por si ideada.

A entrega do livro, em papel e em ficheiros electrónicos, ocorreu numa reunião com a Assírio & Alvim a 15 de Janeiro de 2008. No ano seguinte, já com a notícia de que M. S. Lourenço estava seriamente doente, os trabalhos de composição foram apressados. Nesta etapa, o autor nem acompanhou a revisão de provas, para a qual contei com a colaboração de Frederico Lourenço, nem a aplicação das suas instruções relativas à disposição do texto na página de Pássaro Paradípsico, que não teria sido possível sem o empenhado profissionalismo de Graça Manta.

M. S. Lourenço faleceu a 1 de Agosto de 2009, antes de ser publicado O Caminho dos Pisões. Mas em Julho, quando a revisão de provas ainda não estava concluída, Manuel Rosa resolveu produzir uma tiragem mínima especial, de circulação muito restrita e feita para o autor tomar conhecimento do livro (o que aconteceu). Os exemplares desta tiragem foram distribuídos por Frederico Lourenço, por João Sousa Monteiro (que ficou com a cópia de trabalho de Graça Manta), pelo bibliófilo João Malhadas Teixeira e por João Dionísio.

Dois meses depois desta tiragem esquiva veio a lume O Caminho dos Pisões [5].


João Dionísio

Publicado em Românica. Revista do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, n.º 19, 2010, p.193-207

 


Referências bibliográficas

Amado, Teresa, recensão a Manuel Lourenço, Pássaro Paradípsico, Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1979, Colóquio|Letras 61, 1981, pp. 73-74

Gribskov, Arquiduque Alexis-Christian Von Rätselhaft und, “Fragmento do «Diário»”. Notícia bio-bibliográfica e tradução de M. S. Lourenço, Sibila – artes e letras, número 1, Maio 1961, pp. 27-29

Hoffmann, Peter, Stauffenberg. A Family History, 1905-1944. Montreal & Kingston – London – Ithaca: McGill-Queen’s University Press, 2003

Lourenço, M. S., O Caminho dos Pisões. Edição de João Dionísio, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

Lourenço, M. S., “O Mythos Dêloi”, O Tempo e o Modo 25-26, 1965, pp. 251-253

Lourenço, M.S., “Praia da Agonia”, Colóquio|Letras 127/128, 1993, pp. 229-231

Lourenço, M.S., “Rilke na era da bestialidade”, O Independente, 20-12-1996

Lourenço, M. S., “O Sutra de Patrícia Rimpoche”, Colóquio|Letras 29, 1976, pp. 71-73

Martinho, Fernando J. B., “Pound e a poesia portuguesa contemporânea”, Diacrítica 145-162, 21/3, 2007 http://ceh.ilch.uminho.pt/Diacrítica_21-3.pdf


[1] Como o autor não quis fazer nenhuma observação introdutória, considerando que o texto da sua obra bastava, entendi que seria inadequado inserir alguma nota sobre o trabalho editorial. O facto de M. S. Lourenço ter falecido antes de o livro ter sido publicado, mais do que suavizar, reforça a inadequação de uma eventual nota deste género.

[2] Antes desta tomada de decisão, M. S. Lourenço chegou a pensar acolher no que veio a chamar O Caminho dos Pisões alguns ensaios e traduções dispersas publicadas n’O Tempo e o Modo e na Colóquio|Letras, mas esta hipótese nunca chegou a ser explorada.

[3] M. S. Lourenço afirmou que a produção tipográfica de Ode a Upsala em 1964 tinha sido particularmente infeliz (a começar pelo título, onde, segundo o autor, aparece uma disjunção espúria: Ode a Upsala ou Aria detta la Frescobalda). Noutra ocasião chamou a este livro “documento bizarro”.

[4] A transformação inadvertida do nome de Frye ocorre logo na versão manuscrita do ensaio, que se encontra num caderno com a indicação “NOTIZBUCH | Ab Sommersemester | 1984”, e passa incólume até à publicação.

[5] Que tenha advertido, há dois pontos em que por lapso não fiz justiça às indicações ou à intenção do autor. Não tomei consciência de não ter introduzido uma correcção adicional solicitada por M. S. Lourenço a 25.6.2007 relativa ao título da primeira parte de Nada Brahma: em vez de Imitationes deveria ter aparecido Imitationes I & II. Também não me apercebi de que a grafia “Mukulov”, tal como aparece no documento que me foi remetido com a nota sobre o aparecimento do heterónimo Alexis Von Gribskoff, está errada. A grafia certa é Mikulov, referente a cidade da República Checa.

 

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