A Phala

Mais alguma coisa. Sobre «Apanhar Ar», de Adília Lopes

In Poesia Inédita Portuguesa on 16 de dezembro de 2010 at 18:48

Depois das compilações Obra e Dobra, cinquenta anos feitos, o que há para escrever? Este é um livro sobre a inspiração e a renúncia.

«Musa parca | musa muda». O poema inaugural introduz o leitor nas duas partes do livro: uma onde se cultiva a parcimónia do verso; a outra de que os versos estão ausentes constituída por desenhos feitos quando a autora, ainda infante, tinha 11 anos.

A primeira parte, a da musa parca, embora tenha tonalidades diferentes nas suas 24 páginas, contém uma poesia poupada. Poupada porque pequena em tamanho, porque económica na técnica e porque a Musa é parca por natureza. O tamanho pequeno, atesta-o a forma dominante do dístico neste livro, não indo os seus poemas mais longos além de 7 versos. A técnica económica, encontramo-la em dispositivos de repetição, como a rima pobre («A minha varanda velha | com quatro gerânios velhos») ou a rima interna («Apanhar ar»), e de reciclagem, pelo aproveitamento assumido de textos de outros autores. A musa é parca porque não remunera conforme a busca («Neste dia cinzento | procuro um verso | e não encontro […]»).

A reciclagem justifica uma nota especial pela redução a que as palavras dos outros são compelidas. O caso por ventura mais extremo é o da página 8, que uma nota relaciona com Sophia de Mello Breyner e José Blanc de Portugal.

Sophia escreveu «Tempo de Não»:

Exausta fujo as arenas do puro intolerável

Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado

A cidade onde habito é rica de desastres

Embora exista a praia lisa que sonhei

Adília, guiada pela musa parca, reduz a volúpia desta dicção ao título original do poema de Sophia: «Tempo de não». De seguida, pega num poema de José Blanc de Portugal com o título «”Tempo de ferros” |Tem pó de ferros?»:

Na farmácia do presente

Pós de ferro se aviam

Se não acredita tente

E verá se não lhos fiam…

É claro: em «estátua moldada»  –

Específicos para nada…

De novo Adília reduz todo o texto ao título, de que se serve para reciclar por análise interrogativa o que proviera de Sophia: «Tempo de ferros», título de Tomaz Kim, ocasiona «Tem pó de ferros?», de José Blanc de Portugal, que ocasiona «Tem pó de não?», de Adília a partir de Sophia.

Nesta época de poupança, reciclar, reduzir e repartir são verbos para o dia-a-dia.

Talvez se possa descortinar na parte da musa parca deste livro um movimento inicial algo sombrio, a que sucede um segundo movimento, de aceitação e por isso de tom maior. O que vemos são então algumas coisas numa cidade menos tolhida pelos seus desastres, mais reconhecida pelas suas ofertas.

As descrições fáticas do primeiro movimento parecem dar lugar a sugestões de felicidade: a paz proporcionada pelos legumes que chegam nas horas matinais, o café que é casa, as flores que nascem apesar de não se lhes saber o nome e a prece final pela continuação da poesia, que equivale a pedido para que algumas coisas, estas ou outras, continuem.

As últimas duas páginas serão o corolário desta narrativa sob a forma de um possível diálogo. Há um Pai-Nosso reduzido a uma petição: «A poesia de cada dia | nos dai hoje». E há uma resposta imperativa: «Reza escreve cisma sonha | tagarela sempre».

É evidente que Apanhar ar respira a cidade como bairro e reconhece em pontos de um bairro manifestações de Deus em diálogo. Sendo possível, no entanto, apanhar ar em Telheiras ou noutras zonas modernas da cidade, parece mais viável apanhá-lo aqui nas redondezas: entre a feia Igreja de Arroios e a dos Anjos, ao pé da Sopa dos Pobres, com a Sociedade Bíblica à esquerda, o café Danúbio atrás, assim atrás como a Assírio & Alvim e a loja Audácia, e tendo à direita o jardim que leva o nome do primeiro imperador romano católico, mas que em boa verdade se refere ao Senhor Constantino Marques de Sampaio e Melo. O Senhor Constantino era um dos mais afamados floristas do final do século XIX e o colorido das flores, como escreve Adília Lopes, precisa de um agradecimento.

A segunda parte do livro é constituída por reproduções de desenhos feitos no Natal de 1971 ou por aí, semelhantes a uma escrita automática sem letras sugerida por várias composições, de Fibich a Prokofieff. A representação em certo sentido mais perfeita de «apanhar ar», estes desenhos sinalizam a renúncia possível (da palavra) e impossível (da idade). Um deles, guiado pela canção de Solveig, de Grieg, fala da esperança firme no reencontro que este livro é e dá a ler.

João Dionísio

 

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