A Phala

Margarida Medeiros § «Fotografia e Narcisismo — o auto-retrato contemporâneo» (2000); «Fotografia e Verdade — uma história de fantasmas» (2010)

In Arte e Produção on 30 de março de 2011 at 15:59

Esta leitura de Fotografia e Verdade – uma história de fantasmas (2010), estrutura-se em torno de Eco, a figura ausente em Fotografia e Narcisismo – o auto-retrato contemporâneo (2000) que, juntamente com Narciso, completa o mito, apontando simultaneamente para a coerência da obra e para a originalidade do pensamento de Margarida Medeiros.

O seu propósito, de acordo com o convite da autora, é pensar a fotografia no campo mais vasto de «uma cultura que confia e delega na máquina, no autómato ou nos mecanismos automáticos [uma] função de autenticidade». O seu argumento parte da crença de que a fotografia, como o mito, é fundadora de uma cultura na qual a verdade associada ao automatismo da imagem é a mesma que se associa à verdade que, dispensando qualquer autoria, fixa a sua autoridade na memória colectiva, pertencendo ambas ao lugar-comum da verdade insinuada no quotidiano. Ou seja, parte da crença de que o ser humano mantém com a fotografia uma relação idêntica à que mantém com o mito porque se o mito é o relato de seres que encarnam, num fundo de verdade, as forças da natureza ou a condição humana, a fotografia é o corpo encarnado da verdade dessa condição e o duplo da sua realidade.

Narciso é o objecto da e na imagem. Eco é simultaneamente a possibilidade da imagem e o rumor que nela aparece para a desestabilizar. Assim, Narciso será sempre um corpo e a imagem do seu reflexo enquanto Eco incessantemente será a disposição para a imagem: o que se oculta para ver, e para mostrar, o que não a pode ver e se mostra e, nesse sentido, é tanto a transparência do dispositivo como o fantasma que constitui a verdade ontológica da fotografia.

‘Fantasma’, entendido na tradição psicanalítica de «realização alucinatória do desejo» é um conceito estruturante do livro. Indissociável do automatismo da imagem, ele é, como a réplica, a assombração, o espectro e a duplicação, o eco em que a fotografia se constitui porque é sempre uma imagem que, saída de uma coisa e estando de acordo com ela, se oferece ao espírito e à visão. É neste contexto que toda a visão é mediúnica – porque se crê para ver histericamente, a partir de uma histeria revelada como visão, ou seja, depois de se ver para crer.

Eco, sendo o discurso que não lhe pertence, é o engano produzido como alucinação: o corpo histérico dos médiuns, o corpo cataléptico que se abandona no acto de se isolar e que é o corpo que se ama fora de si, como reflexo daquilo que mostra, como acontece na fotografia.

Por isso se Narciso morre porque se afoga, destruindo a sua imagem, Eco encarna repetida e traumaticamente num corpo que não é o seu. Narciso vê (-se) e Eco, porque o vê, imobiliza-o, encerrando-o no seu trauma. Eco é a ferida de Narciso, a ferida do mundo que absortamente se contempla.

A fotografia é então a ferida do mundo. Da aparência e da aparição do mundo que é afinal tudo o que aparece, tudo o que se torna visível. E se o sonho da fotografia é o da visibilidade total, como escreve a Margarida, Eco talvez seja a figura que a instala no domínio da ficção. Porque a verdade de Eco, como a da fotografia, é a do dispositivo que se abre a uma realidade original, mesmo que seja apenas para repetir exaustivamente as últimas sílabas de todas as palavras, mesmo que seja para ser obsessivamente o vestígio de todas as coisas.

Maria João Gamito

 

Nota do Editor: O livro «Fotografia e Narcisismo — o auto-retrato contemporâneo» está esgotado e encontra-se em processo de reedição.

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