A Phala

Para a edição portuguesa do livro «Garcia Lorca e Manuel da Fonseca — Dois Poetas em Confronto», de Manuel Simões

In Peninsulares on 26 de setembro de 2011 at 11:56

Os frequentadores destas sessões no Museu do Neo-Realismo saberão que Manuel Simões, tendo em conta as vezes que aqui esteve a fazer a apresentação de livros de outros autores, é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pela Universidade de Veneza, tendo ensinado Língua e Literatura Portuguesa na Universidade “Cà Foscari,” de Veneza. Viveu em Itália desde 1971 até à justa aposentação em 2001. Hoje ainda acontece ser o Manuel convidado a dirigir, em várias regiões de Itália, Seminários sobre a temática em que é um reconhecido especialista. Conhecê-lo-ão também das constantes colaborações na revista Nova Síntese, da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, tendo sido até o coordenador do n.º 5, o último, que tratou de «A Poesia do Neo-Realismo», mas talvez já não o conheçam tão bem na sua actividade de ensaista, de que a obra que hoje apresentamos, «García Lorca e Manuel da Fonseca – Dois Poetas em Confronto», é um dos exemplos mais notáveis do seu labor, como também nem todos terão um conhecimento aprofundado da sua criação poética.

 Os seus primeiros livros de poesia, «Crónica Breve», de 1971, e «Crónica Segunda», de 1976, foram publicados na colecção Nova Realidade, que criou com Carlos Loures e Júlio Estudante, em Tomar, em 1966. Segue-se em 1987 «Canto Mediterrâneo», em 1998 «Errâncias» e, em 2005, «Micromundos». No entanto, não podemos encerrar este parágrafo sobre a sua obra poética, sem mencionar o pequeno volume de poemas em italiano «Sereninsula» e sem deixar de mencionar as antologias poéticas, em colaboração com Carlos Loures, «Hiroxima» (1967), «Vietname» (1970), que despertaram a atenção da PIDE, e «Poemabril», antologia de depoimentos de alguns dos «Capitães de Abril» e poemas de 60 poetas portugueses. De mencionar também «Poeti Portoghesi Contemporanei», uma antologia bilingue de poetas portugueses da segunda metade do século XX, editada pelo Centro Internazionale della Grafica di Venezia, com o apoio do Instituto Camões e do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.

No que à sua obra ensaística se refere, continua o Manuel Simões a publicar, para além dos ensaios na Nova Síntese, na Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani e na Rassegna Iberistica vários estudos sobre a literatura em língua portuguesa, de que destacamos só para dar um exemplo, «O tema do retirante e outros temas nordestinos na narrativa caboverdiana». Para além do livro de que hoje apresentamos a 2.ª edição, mas primeira em Portugal, dado que a sua primeira edição aconteceu em Itália, graças ao Istituto Editoriale Cisalpino-La Goliardica,

Capas da 1.ª edição e da edição actual

em 1979, não podemos deixar de referir a Introdução e notas à edição de «Alma Nova», de Guilherme d’ Azevedo (1981); a «Apresentação crítica, selecção e fixação do texto, notas e sugestões para análise literária» do volume «A literatura de viagens nos séculos XVI e XVII» (1985) e de o «Auto da Índia», de Gil Vicente, assim como as obras «O Olhar Suspeitoso – Viagens e Discurso Literário» (2001) e «Tempo com Espectador – Ensaios de Literatura Portugues» (2011).

 Da alta qualidade da sua poesia tem tratado, na revista Colóquio/Letras, o Professor Fernando J. B. Martinho, assim como o Professor Roberto Vecchi, que  foi seu aluno, no prefácio a «Micromundos».

 Atentando nos títulos da sua obra ensaística, logo somos levados a pensar que a razão de tal labor tem a ver, sobretudo, com a sua actividade de Professor de Língua e Literatura Portuguesa, em proveito, portanto, dos estudantes destas matérias. Até algumas encomendas propostas por editores de obras para o ensino secundário e universitário vêm ao encontro do que move Manuel Simões na sua actividade profissional – trabalhar para abrir caminho aos estudantes nos seus estudos, como Professor dedicado, consciente das necessidades dos seus discípulos, politicamente empenhado na divulgação da riqueza da cultura portuguesa, em Portugal e, no caso dele, também em Itália. Acrescento, pelo conhecimento que tenho, fruto de uma amizade de várias décadas, que o seu labor é também a demonstração de uma cidadania exemplar.

 O reconhecimento deste notável trabalho de investigação e também da consideração em que o têm os seus antigos alunos, pôde verificar-se na recente apresentação que o Professor Roberto Vecchi, com um texto notável, fez do já citado livro «Tempo com Espectador», na Livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa.

 Terá nascido da necessidade de abrir caminho aos seus alunos em Veneza a concepção do livro que hoje apresentamos e, não menos importante, também como forma de (passo a citar, da Nota Prévia) «contribuir para o estudo, que em grande parte está por fazer, da inter-relação entre a literatura espanhola e a portuguesa, analisando de perto um momento particularmente significativo de convívio fecundo entre as duas culturas ibéricas.»

Mas o interesse de Manuel Simões pela obra de Manuel da Fonseca não vinha e não vem seguramente apenas das razões que ele apresenta, mas também de outras que vou tentar adivinhar.

Embora admirador confesso de toda a obra de Manuel da Fonseca, pergunto: será possível a um professor de Literatura Portuguesa, para mais numa Universidade estrangeira, não dar a conhecer a obra do escritor de que este ano se comemora o centenário do seu nascimento? Se de mim duvidam, leiam esse admirável prefácio de Mário Dionísio a «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca, mas não esqueçam de ler também a sua obra, que não é tão extensa como poderia sê-lo se tivesse reunido em livro muitas das histórias que contava quando rodeado de amigos, como posso testemunhá-lo, pois fui um dos ouvintes privilegiados dessas histórias. Escreve Mário Dionísio, no citado prefácio: “Eu pasmava, ao ouvi-lo contar à roda dos amigos qualquer acontecimento trivial a que ambos tínhamos assistido. Com a minha lamentável, incorrigível tendência para tentar reduzir as coisas ao que elas efectivamente são, esforçava-me por trazê-lo à sensatez: «Mas não foi nada disso!» Ele, porém, não interrompia a sua história senão para dizer, com o mais delicado dos sorrisos, os olhos quase fechados: «Foi tal, foi tal. É que não reparaste bem.» E continuava. E continuávamos todos a ouvir a sua história, que não era nunca a história, mas se animava de pormenores, de iluminações burlescas, de situações irresistíveis. Foi assim que primeiro conheci essas terras e gentes que haviam de encher os seus poemas e os seus contos, sob nomes inventados – Aldeia Nova, Cerromaior, Valmorado, Albarrã… — e de que Fonseca falava como dum mundo fabuloso que atravessara há muitos anos, de antemão sabedor que teria o dever de contá-lo um dia a toda a gente.

Era de facto assim o Manuel da Fonseca, mais uma razão para o outro Manuel, o Simões, se dedicar ao estudo da sua obra, obra esta sobre que não abundam estudos, não tendo os investigadores o caminho facilitado, havendo quase como única referência a obra do autor e uma ou outra entrevista, poucas, dado que o Manuel não era muito dado a concedê-las por não se considerar assim importante, sendo esta uma posição bem sincera da sua parte. Manuel da Fonseca era um cidadão de corpo inteiro e desejoso de intervir nos destinos do seu povo, de dar o seu contributo para a emancipação dos «explorados e ofendidos», outra das boas razões para ao estudo da sua obra um professor como Manuel Simões se dedicar.

Começando por ser fiel ao que na Nota Prévia anunciou, no capítulo 1 traça um resumido historial daquilo a que chama «O convívio cultural entre Portugal e a Espanha», historial esse bem pobre na década de 70 do século passado, não muito mais rica hoje, sendo o estudo do Manuel uma das obras mais significativas para a chamada de atenção não só para as mútuas influências da inter-relação das literaturas dos dois países, mas também um marco fundamental nesse estudo, razão mais do que suficiente para dar a conhecer ao público português esta sua obra, mesmo que, em relação à edição em Itália, feita em português, note-se, não contenha o apêndice com uma pequena antologia de poemas dedicados a Federico Garcia Lorca por poetas portugueses. Que esta publicação possa também contribuir para que o conhecimento das mútuas influências destas duas literaturas se possa desenvolver com muitas outras investigações. Talvez possa ser o contributo para que outros investigadores a esta temática se dediquem, o que seria uma justa homenagem ao valor desta obra de Manuel Simões.

Nesta pequena história do referido convívio cultural que mantivemos e mantemos com o país vizinho, há uma referência inevitável à Guerra Civil de Espanha, passando eu por cima da notável síntese que Manuel Simões faz dos altos e baixos deste relacionamento de mútuas influências, ou momentos charneira como ele lhes chama, desde o século XV até aos nossos dias, pois é a este conflito que me interessa chegar, dado que o trágico conflito ocupou e preocupou os autores do Neo-Realismo português e é de um dos nomes mais representativos deste movimento que estamos a tratar e a comemorar o centenário do seu nascimento. Manuel Simões mostra esta preocupação quando escreve que a ‘Lisboa de 37 ou 38 tinha um centro’, passando a transcrever do prefácio de Mário Dionísio: «Um centro natural aonde toda a gente ocorria, na amarela mansidão dos eléctricos, para fazer compras, tomar café, ver gente. Para saber, hora a hora, como iam as coisas em Espanha.» ‘E, acrescenta Simões, quem não se interessaria pela sorte daqueles dias amargos, se era ali, coisa de nada, que as armas decidiam o litígio desamado, se aqui mesmo, à beira do oceano, se sentia o sangue como afronta e morte, como um espinho cravado no sonho de liberdade? A guerra havia de pesar nestes dias de enxofre como um apelo ou desamor contra o rosto, contra o corpo do homem algemado’.

Como a história não se faz de saltos, havendo sempre um antes que ajuda a entender o presente e a construir o futuro, há que lembrar que nos anos 30 começa a manifestar-se em Espanha uma poesia muito mais comprometida com o ideológico, movimento que a Guerra Civil virá solidificar. Com o advento da República em 1931 parecem estar criadas as condições para resolver os problemas sociais. Diz Pierre Vilar, na sua «História de Espanha»: “A Ditadura governara e não transformara. A República quis transformar e governou com dificuldade. Pelo menos abordou, a partir dos seus dois primeiros anos, todos os grandes problemas.” Lembremos apenas os problemas sociais, transcrevendo o que, sobre esta matéria, escreve o mesmo Pierre Vilar: “Apesar de tudo, o fundo social das esperanças e dos temores depressa apareceu. As classes humildes acreditavam numa mudança de vida. E, desde Abril de 1931, que os capitais foram sendo exportados.

A reforma agrária era a única reforma de estrutura formalmente prometida. Mas o acordo sobre os princípios não estava feito. «A terra a quem a trabalha», diziam anarquistas e comunistas. Os socialistas: «A terra ao Estado, a exploração aos sindicatos camponeses». Os liberais: «Propriedade individual». Os católicos: propriedade familiar e indemnizações substanciais aos expropriados.”

“A república reformista e jacobina, continua o historiador, morreu (…) por se ter julgado capaz de reformar a Espanha, sem dar satisfações imediatas às massas agrárias e lutando abertamente contra o mais forte sector operário”. As consequências de tudo isto, digo eu, são de todos nós conhecidas. Desde 1931 que os generais não tinham deixado de conspirar, acontecendo o pronunciamento a 18 de Julho de 1936, seguindo-se a gerra civil.

Com todas as convulsões político-sociais que a Espanha de então vivia não podia a literatura ficar indiferente e a sua própria história também tem um antes e um depois, pois Federico Garcia Lorca não foi um fenómeno isolado na história cultural do seu país.

O início do século XX é marcante na história literária em Espanha, com os modernistas (Manuel Machado, Francisco Villaespesa, Tomás Morales e Juan Ramón Jiménez) fortemente influenciados pelo Simbolismo francês, pelo nicaraguense Rubén Darío e também, convém referi-lo, pelo português Eugénio de Castro, traduzido por M. Machado e por Villaespesa (v. História da Literatura Espanhola, de Eloísa Alvarez e António Apolinário Lourenço, Ed. Asa, Lx. 1994) e a chamada «geração de 98» (M. Unamuno, Ángel Ganivet, Pío Baroja, Antonio Azorín, Ramón de Valle-Inclán, Antonio Machado, irmão de Manuel Machado, Jacinto Benavente), divisão esta talvez demasiado simplista, embora haja quem defina claramente as fronteiras que possam existir entre a obra de uns, os modernistas, tidos como cultores de uma estética sem conteúdo, e a obra de outros, «a geração de 98», referidos como profundamente preocupados com a renovação ou regeneração de Espanha. Será uma discussão para uma outra sessão, não para esta, residindo as nossas dúvidas numa breve análise à obra, e sua evolução, de um Juan Ramón Jiménez e à obra de António Machado para tal classificação cair por terra; bastando até acompanhar a discussão entre «poesia pura» e «poesia impura» para as dúvidas se acentuarem, fazendo lembrar o que de parecido vem a acontecer em Portugal se nos lembrarmos do confronto entre presencistas e neo-realistas. Para além da Guerra Civil de Espanha, há um outro acontecimento na história que nenhum dos autores, em Portugal e em Espanha, poderia ignorar e nele reflectir: a revolução marxista no Império Russo e que dará origem à União Soviética.

Voltemos a Manuel Simões e ao capítulo 2 da sua obra, intitulado «Federico García Lorca: uma figura de romance».

 Comecemos por lembrar que Lorca nasce em 1898, em Fuente Vaqueros, junto a Granada, o qual, e demos a palavra a M. Simões, «bem cedo se revelou excepcionalmente dotado por um temperamento e uma sensibilidade invulgares para cantar o povo, uma paixão e inteligência viradas para o frémito da vida, como se pressentisse a certeza trágica da sua brevidade.» O seu assassinato pelos fascistas de Franco, por fusilamento, cortou uma vida em plena actividade criadora e se pensarmos que Lorca tinha apenas 38 anos e se ainda pensarmos na admirável produção, em quantidade e em qualidade, então o crime ainda se torna maior, sobretudo se tentarmos adivinhar o que a capacidade criadora de García Lorca nos poderia ter legado. «Estamos num período áureo, escreve Simões neste capítulo, o que se pode chamar “a idade de ouro liberal” para a cultura espanhola. (…) É a época da geração de 27, de Pedro Salinas e Jorge Guillén, de Gerardo Diego a Dámaso Alonso, de Vicente Aleixandre e Rafael Alberti; até aparecer esse ser mágico que Neruda definiu um dia como um “negro relâmpago perpetuamente livre”: Federico Garcia Lorca!

 Entre os seus amigos mais próximos encontram-se os poetas Vicente Aleixandre, nascido no mesmo ano (seria importante que um dia alguém estudasse a influência deste poeta em Eugénio de Andrade), Jorge Guillén, Rafael Alberti, Luis Cernuda e Guillermo de Torre; o cineasta Luis Buñuel, o pintor Salvador Dali.

 Escreve Manuel Simões: «Dizer que foi um escritor de vanguarda é pouco. Ele foi um agitador cultural, promotor de recitais, conferências, revistas literárias, até à fértil experiência do seu grupo de teatro ligado a “La Barraca”. A sua voz tinha o sortilégio dos que irresistivelmente se fazem amar, até que um dia, no decurso do Verão de 1936, na inocência sangrenta duma história pintada de morte, página branca de cinzas espalhadas sobre os campos, essa voz se quedou perplexamente assassinada.»

 Se a sua obra era já bem conhecida em Espanha, o seu assassinato deu-lhe uma dimensão que podemos rotular de mítica, estendendo os protestos a todo o mundo, sem excluir Portugal, despertando a indignação dos autores que hoje conhecemos como neo-realistas e, naturalmente, a exercer também a sua influência em poetas portugueses, nomeadamente Armindo Rodrigues, Bernardo Santareno, Eugénio de Andrade e Pedro Homem de Mello, como Manuel Simões bem demonstra no referido Apêndice que a edição que hoje apresentamos não contempla, como já referi.

 Refiro ainda um outro grande poeta, Miguel Hernández, várias vezes referido por Manuel Simões neste seu trabalho, que é mais um descendente desta geração de 27 do que propriamente um seu membro, embora com ela tenha convivido, criando laços de amizade com muitos deles, tendo nascido cerca de um ano antes de Manuel da Fonseca. Refiro-o por duas razões: a influência que nele teve a segunda leitura da «Casa de Bernarda Alba», de Lorca, para a qual foi convidado, estimulando-o de tal modo que o levou a deixar os autos sacramentais e a voltar-se para os dramas sociais. A Guerra Civil arrasta-o para a luta de armas na mão e para as fileiras do Partido Comunista de Espanha. Após o fim da Guerra Civil, e agora vem a segunda razão, foge para Portugal através de Villanueva del Fresno, onde é preso pela polícia portuguesa e entregue à Guarda Civil. Morre na prisão, considerando eu que foi assassinado, pela falta de assistência, com a conivência da igreja católica de Alicante, de uma forma tão cruel como o assassinato de García Lorca. A morte de Miguel Hernández não teve a mesma repercussão, mas a sua obra merece ser tão conhecida como a do poeta granadino, o que não acontece, particularmente em Portugal.

 Mas estamos a fugir ao nosso assunto e por isso peço que me perdoem não ter deixado escapar esta oportunidade para referir, ao menos, a minha indignação.

 Mas é nos poetas do Novo Cancioneiro, particularmente em Joaquim Namorado, mas até em Mário Dionísio, que a influência de Lorca se faz sentir. E quase a terminar este capítulo 2, escreve Manuel Simões: «Anote-se, no entanto, que o que em Lorca fora descoberta estética, adesão sentimental, ardente simpatia, é agora (com o neo-realismo) a expressão da consciente aspiração dos povos à sua emancipação. Neste aspecto, há que salientar Manuel da Fonseca, que assimila e transfigura a poesia lorquiana e de quem nos ocuparemos a seguir.»

 De facto nos quatro últimos capítulos da sua obra, Manuel Simões vai mostrar como «Manuel da Fonseca (…) talvez seja mesmo o poeta mais de perto aderente não só a uma problemática épica como a uma estética directa ou indirectamente ligada ao autor de Romancero Gitano», como escreve no início do capítulo «3. Manuel da Fonseca e a poesia do desespero». «É a renovação, por exemplo, de formas de poéticas populares, (…) a criação de uma poesia tida como instrumento para transformar o mundo; e, (…), a própria linguagem de Manuel da Fonseca». É de facto com uma linguagem de autenticidade, que o leitor sente como verdade, que Manuel da Fonseca se torna num dos poetas com maior audiência. O mesmo pode afirmar-se para a sua prosa. Eu próprio posso dar disso testemunho. Quase a entrar na idade adulta, jovem convencido de que havia de mudar o mundo, tinha dificuldade em aderir à poesia de Fernando Pessoa e o seu livro «Mensagem» era por mim detestado, só tendo vencido esta dificuldade depois de ler «O Livro do Desassossego». Com a ida para Lisboa no início da década de 60 do século passado, adquiri numa feira do livro a 2.ª edição de «Poemas Completos», da colecção (julgo não errar) Poetas de Hoje, da Portugália Editora, tendo de imediato sido conquistado para a beleza e a clareza desta poesia, uma poesia que vinha ao encontro das minhas preocupações e que me ajudou a tomar consciência, nomeadamente, dos graves problemas sociais que então vivíamos e que parece estarmos a viver de novo em Portugal. Quando mais tarde comecei a ler García Lorca senti a mesma adesão, embora não me tivesse apercebido da possível ligação da linguagem deste com a daquele.

 No capítulo «4. A linguagem comum», Manuel Simões desenvolve uma análise exaustiva das palavras-chave utilizadas por um e outro poeta.

 Para se ter uma ideia do cuidado havido, cito apenas três exemplos dos muitos referidos por Manuel Simões:

 Em Lorca, o termo NOCHE conta 186 ocorrências e, na poesia de Fonseca o termo NOITE conta 54 ocorrências; OJOS E OLHOS conta com 141 e 49 ocorrências; VIENTO e VENTO conta com 113 e 24 ocorrências, respectivamente, demonstrando claramente que as palavras-chave do poeta português «se encontram disseminadas por toda a obra poética de Lorca» (pág. 52 da edição em Itália).

 Já no que aos temas se refere, tratados no capítulo 5., Manuel Simões mostra que os dois poetas seguiram caminhos comuns. «A obra do poeta de Granada é percorrida de lés a lés pela força irresistível do sangue, do amor e da morte, o mistério do que se oculta (a noite e as suas sombras), o erotismo agudo, a solidão, outros tantos motivos carregados de poderosos mitos que um certo exotismo lorquiano não faz mais que acentuar.» Ora, servindo-nos ainda do que escreve Manuel Simões: «Não encontramos idêntica obsessão na poesia de Manuel da Fonseca, embora o seu vínculo estreito à terra alentejana lhe confira certa aproximação temática com a poesia de Lorca, o que se explica, (…) pela confluência de motivações. Detectamos então algumas correspondências entre si, (…): a raiz atormentada, o amor e desamor, a luta épica ou o ímpeto da vida, desfeito em Lorca pelo espectáculo da morte ou desilusão.» (pág. 83 da edição em Itália).

 Ambos os poetas tratam nas suas obras temas agudos das suas duas regiões – Alentejo e Andaluzia, mas, atenção, isso não faz deles autores regionalistas, como o próprio Manuel da Fonseca teve o cuidado de chamar a atenção numa entrevista à Gazeta Musical e de Todas as Artes (nºs. 109-110, Abril-Maio de 1960), o que levou Mário Dionísio, no citado Prefácio a «Poemas Completos», não querer «limitar (Manuel da Fonseca) a qualquer populismo, a um regionalismo que nunca o tocou e com que o realismo se viu e vê tão frequentemente confundido por quem o ignora, mas, bem pelo contrário, para precisar de que imediato e circunstancial se nutre o que há de mais universal e permanente na sua obra, de que verdade particular e de que tom caracterizadamente local ela parte para atingir esse interesse e esse sentimento dos problemas do seu tempo, a que Fonseca se refere.»

 No último capítulo, Simões trata do «Encontro com os romances». Começa por elaborar uma pequena resenha histórica do significado do vocábulo romance desde a época medieval até aos nossos dias, em Espanha e em Portugal, começando por lembrar que «o vocábulo romance designa em princípio a língua vulgar por oposição ao latim, designando ao mesmo tempo uma determinada composição literária escrita em idioma vulgar, em prosa ou em verso, geralmente narrativa e tratando de aventuras fabulosas e complicadas.» (pág.109 da edição em Itália), para terminar com um subcapítulo intitulado «Do romanceiro lorquiano aos romances de Manuel da Fonseca», abordando composições de Lorca (Poema del Cante Jondo, Primeras Canciones, Romancero Gitano, que refiro a título de exemplo) e de Fonseca (Canção de Maltês, Romance do Terceiro-Oficial de Finanças, Coro dos empregados da Câmara, Para um Poema a Florbela, etc.).

 Da influência de Lorca em Manuel da Fonseca na escrita de romances, ele próprio o diz, numa entrevista que concedeu em Maio de 1969, como lembra Manuel Simões: «a musicalidade minha é mais do nosso romanceiro, embora me ficasse um pouco a musicalidade de Lorca».

 E assim chego ao fim da reflexão a que a obra de Manuel Simões, cuja edição portuguesa hoje se apresenta ao público, me levou.

 Levar-me a revisitar Lorca e Manuel da Fonseca e, consequentemente, as ricas literaturas espanhola e portuguesa dos períodos considerados por Manuel Simões para este seu livro, é mais uma dívida minha que fica a seu crédito. A paciência dos presentes em ouvir-me, leva-me a ter de lhes manifestar o meu obrigado.

António Gomes Marques, Portela, 2011-09-22 (texto lido pelo autor por ocasião do lançamento do livro «Garcia Lorca e Manuel da Fonseca — Dois Poetas em Confronto», de Manuel Simões, no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, a 24 de Setembro de 2011)

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