A Phala

«O Mundo Está Cheio de Deuses — Crise e Crítica do Contemporâneo», de João Barrento

In Peninsulares on 11 de janeiro de 2012 at 11:12

Este é um livro de sínteses; de uma primeira resultante da reunião de crónicas — a maioria delas escritas para o Público — e de posts do blogue do autor intitulado Escrito a Lápis — A porta estreita do Quotidiano  e também instantâneos com data. A indicação do subtítulo é precisa dado que ele somatiza uma preocupação constante do autor, que é a da memorização da comunidade; daí a precisão da data apesar do formato pequeno e do módulo instantâneo. Estes são textos de crítica ao contemporâneo, que se manifesta na banalidade do quotidiano: as intervenções dos políticos, os noticiários da TV, as guerras e o seu relato mediático, o absurdo da criação de associações para a defesa da sociedade da informação batizada com o nome de Kafka, os shoppings, a desconsideração pela literatura, etc. A este conjunto de críticas o autor não poupa esforços para as redigir de um modo criterioso, protegendo-se, e bem, por um grupo de autores que lhe servirão de esteira para outros textos e que funcionam como aparadores especiais para análise do recalcado que atravessa todos eles. Depois, ainda neste conjunto, há textos de exaltação, textos do mundo a que o autor pertence e são eles sobre o trabalho de reflexão de autores estimados como Bhabha, Musil, Gabriela Llansol, Auden, Goethe e, necessariamente, Walter Benjamin, que é, não o anjo de Klee, ou só o Angelus Novus, mas o anjo da guarda do autor. A partir desta série de textos resulta a crença de que «Se existe um sentido de realidade, tem de existir um sentido de possibilidade» que, como é sabido, é uma citação de O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Falemos agora de uma compilação que figura no conjunto dos outros textos bem mais longos que são, na verdade, ensaios, género de que o autor já nos tinha presenteado em obras anteriores.

Nestes ensaios está expressa uma síntese dos autores de eleição de João Barrento, naquilo que é a sua história privada dos pensadores e escritores, que constituem a sua história cultural do século XX e XXI: Heiner Muller, Gabriela LLansol, Walter Benjamin, L. Wittgenstein, Kafka, Alain Badiou, Robert Musil, Georges Didi-Hubermann, Paul Celan, Antonio Negri, Jacques Rancière, Georges Steiner, Bernard Stiegler e Peter Sloterdijk. A exaustiva listagem, que agora se fez, tem um objectivo muito particular: os nomes destacados são, naturalmente, de pensadores e autores, cujo contributo para um enunciado crítico relativo a todo o século XX é uma evidência, mas também é independente daquilo que constitui a diversidade de pontos de vista na abordagem das  questões, da eleição das próprias questões e das semânticas próprias a cada um; é a cada um e a todos um mal estar da civilização tal qual se apresenta nos últimos cento e cinquenta anos; atrever-me-ia mesmo a dizer que — pese embora a sua negação continuada — um pessimismo sobre o futuro, que não necessariamente sobre a condição humana em si, é uma constante a estes autores recolhida pelo ensaísta: «Há quem saiba afirmar-se no meio da pretensa “crise” (que o é apenas à luz dos não-valores dos que a provocaram), muitos, indivíduos ou grupos, vão sabendo “como organizar o pessimismo” que, apesar de tudo, não pode deixar de tingir o nosso horizonte…» (p.12).

 E apesar de tudo há uma resistência por parte do autor que é contagiante, uma esperança para lá do Estado e um júbilo que é necessário inscrever no devir: «O que um projecto paralelo, mas inconfundível (e não filosófico, mas estético, ou melhor “etistético”), como o de Maria Gabriela Llansol vem propor, o mundo que a conjectura eudemonista concreta do seu Tempo antecipa, é o de uma cultura plena do humano no lugar de liberdade livre e de beleza mais bela…» (pp.49-50).

Passemos agora a uma síntese do que são os problemas do autor destes ensaios: a contemporaneidade como a grande paisagem onde tudo se manifesta ou é latente, a questão do intelectual, os valores, o problema da literatura, a decadência da universidade e a liberdade. Estes problemas são tratados com frequentes explanações, enquadramento histórico, significação conceptual, evocação de autores ou de episódios culturais; é, portanto, particularmente gratificante ler o desenvolvimento de cada problema ou revê-lo à luz de novos autores como os pensadores do pós-colonialismo E. Said ou H. Bhaba.

Apresentar um livro não supõe a hermenêutica exaustiva, porventura nem sequer a parcelar do mesmo e muito menos a substituição do acto de leitura por uma qualquer interpretação breve do mesmo, aliás, física e intelectualmente impossível no tempo reservado a esta mesma apresentação. Por outro lado, em qualquer obra e, no caso desta, há também, necessariamente, capítulos ou parcelas do livro que, por razões das teorias ou das obsessões privadas de quem coube apresentá-lo, merecem uma atenção especial. Sendo assim, decidi dar particular atenção nesta história de sínteses ao capítulo denominado «Os Mitos do Fim ou o Imperceptível Deslocamento; do dizer para o mostrar.» É um título longo para tratar de uma figura simples: a figura do intelectual hoje.

Tudo no texto aponta em duas direcções aparentemente contrapostas nas escalas de cada uma;  a saber: por um lado, a fragilidade da figura do intelectual de que a metáfora retirada de Gabriela LLansol é excelente — bruxulear a chama de uma vela —, e, por outro lado, insistir e reclamar na necessidade de intervenção do mesmo intelectual, cuja «inactualidade sob formas novas, o torna ainda e sempre actual» (p.57). João Barrento realiza uma história da figura do intelectual, reconhecendo que ele já foi a figura singular do pensador crítico do sistema ou a consciência moral da nação. Hoje não é mais isto e a tese do autor é a de que o intelectual pluralizou-se, termo particularmente significante. E neste novo modo de agir, porque é de agir que se trata para realizar a condição humana, agora para evocar Hanah Arendt, a mais elaborada autora desta figura do intelectual, da sua justificação à luz da História da Europa Ocidental e da Filosofia, o intelectual «entrou há décadas num imperceptível processo de deslocamento que o faz actuar e intervir não necessariamente no plano do dizer (da força perdida da palavra), mas bastante mais no plano do mostrar (do poder multifacetado do “espectáculo”, …das formas de intervenção performativa , e não tanto discursiva.» (p.58). Estes são os «pequenos pirilampos» para citar o texto de Didi-Huberman (que cita Pasolini). Nesta história dos intelectuais, refere o autor que estava pressuposto ao seu agir  «o mundo que pede para ser lido e apreendido». Eu acrescentaria, invocando por exclusiva responsabilidade minha, um outro pressuposto que emana da XI tese sobre Feuerbach: «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, a questão é transformá-lo».  E esta é   a minha pequena e única divergência face ao texto de Barrento; concordando com a pluralidade da figura do intelectual, ela para mim ainda inclui este  perfil entre outros, todavia não o exclui, e um dos meus intelectuais de referência neste capítulo é Noam Chomsky; até porque segundo João Barrento  o problema  «não é para onde vamos mas onde estamos». É com certeza ainda este agir com vestígios de utopia que fez com que Susan Sontag deixasse em 1993 o conforto do seu apartamento, em Manhattan, em Nova Iorque,  e fosse para o inverno de Sarajevo, no meio de uma guerra fratricida, encenar À Espera de Godot de Samuel Beckett, ou mais recentemente, Bernard Henri-Lévy, apesar da personagem ter ido para a Líbia colocar-se ao lado dos combatentes pela Liberdade.

A recusar, no caso de João Barrento, os Fantasmas do Intelectual do passado, que são inoperantes. Da longa lista de Fantasmas, João Barrento cita o «Intelectual Orgânico» de Gramsci, a grande recusa radical de Marcuse e da Nova Esquerda dos anos sessenta, o escritor-mistério de Blanchot, a nebulosidade de E. Said, o «Intelectual Universal» de J.P. Sartre e o «Intelectual Específico» de M. Foucault. Mesmo o último Toni Negri e Michael Hardt soçobram na análise de João Barrento pela forma «como se transformou num lírico sonhador de futuros imprevisíveis» (p. 80).

Contudo, é a pluralização da figura do intelectual um dos aspectos mais inovadores deste ensaio, que permite encontrar, não necessariamente, sob a forma de combate — com Sartre distribuindo Le Combat — outros modos de intervenção quer ainda com o recurso ao discurso, e não é por acaso que João Barrento exemplifica com a figura do pensador do Pós-colonialismo Homi K. Bhabha, criador de um dos mais felizes conceitos e ferramentas operativas que é, propondo a dúvida global seguida pela negociação cultural na resolução de conflitos ; ou a via Touraine (Alain Touraine) desacreditado do social e do político e apostando nos direitos individuais universais.

Ao invés, o ensaísta João Barrento aposta naqueles que, citando Walter Benjamin, «organizam o Pessimismo»; e aqui é importante todas as teses de Jacques Rancière de que o autor se serve para definir parte substantiva da actuação do intelectual contemporâneo no seu modo de ser. Primeiro: a arte e a política ocupam agora o lugar que durante muitos anos foi da estética; mas, como é hoje possível admitir uma resistência desta, quando toda a política se esteticizou?! Segundo: a política tornou-se lúdica e teatral e muitas formas de arte provêm do húmus social. Terceiro: a arte e o pensamento activo criam, não obras, mas formas de vida, (…) ganham um novo potencial crítico (é quase um programa neo-dadaísta). E daqui decorre, e ainda citando Rancière, que a máquina desmistificadora começa a funcionar sozinha e em vez de dizer mostra; mostra nos filmes, nas instalações, nos textos, nas acções. Há, aliás, uma lista de oposições de que o autor se serve para contrapor as funções da era do intelectual às da era do pós-intelectual, entre o intelectual duro e o intelectual soft de hoje. O performer e o artista são, neste sentido, e enquanto produtores de ficções, os novos interventores de hoje. É imperativo que eles apareçam.

António Pinto Ribeiro

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