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EUROPA EM SOBREIMPRESSÃO — LLANSOL E AS DOBRAS DA HISTÓRIA

In Arrábido on 9 de fevereiro de 2012 at 17:07

1. Algumas palavras sobre o método deste livro ousado: depois da introdução geral, seis capítulos divididos em subcapítulos, cada um da responsabilidade de um autor. Quando há uma personagem-chave que forma o eixo de um capítulo, incluem-se no fim textos expressivos dessa mesma personagem em tradução para português. Nas margens das páginas, abrem-se janelas cor de ocre que contêm excertos de textos de Llansol, textos alusivos ou tutelares do que é discutido, oferecidos em contraponto ao texto central e trazendo-lhe referências. Depois do último capítulo, deparam-se ao leitor três páginas autobiográficas de Maria Gabriela. Ao longo das folhas do livro, dispõem-se imagens respeitantes aos temas tratados, incluindo as belas fotografias obtidas (adverte-nos a nota prévia) por Maria Etelvina Santos, em sítios e objectos de Llansol. Por fim, numa bolsa sob a terceira capa, encontra-se um DVD com filmagem de Daniel Ribeiro Duarte sobre diversos trechos de locais por onde andou Maria Gabriela, e sobre personagens que informaram algumas das suas figuras principais (Hölderlin, Nietzsche, Spinoza, místicos e béguines).

2. Esta sobreimpressão da Europa é uma prodigiosa figura de retórica que concentra os itinerários de escrita de Llansol. Sítios, figuras, ideias e tempos múltiplos do mundo europeu (só Al Halladj surge como um cometa discreto provindo da Ásia) projectam-se numa escrita que os confronta e assimila numa mesma substância, que é o texto torrencial por que se desenrola o pensamento da escritora, ou aquilo que do seu pensamento ela nos quer dar a ver. Porque «preciso que outros vejam o que eu vejo» (p. 209). Surge-nos assim uma comédia humana (divina, em certos pontos!) cujas personagens transmigram de uns para outros livros – romances, diários, livros de poemas – suscitando atitudes e olhares insurgentes perante o mundo. Ou seja, a imaginação inventiva da escritora cria mapas e planos onde o espaço, o tempo e a gravitação das ideias no ocidente se reconfiguram e se oferecem à leitura, à reflexão.

Nada, absolutamente nada nesta obra literária é unívoco. Não nos movimentamos por um espaço de Euclides, mas por espaços de Riemann imprevistos, que não coincidem com os hábitos dos nossos sentidos nem com a lógica da nossa memória histórica. Grandes constelações de figuras são traçadas, aspectos inéditos do perceber, intuir e sentir do mundo são propostos, uma vez olhados pelo olho de libélula da escritora, e logo projectados na magia da sua escrita, sistema óptico misterioso em que convergem e confluem mil imagens numa só visão, e se suscitam mil ideias a partir do mesmo olhar intenso, impetuoso e móvel. (Não sabemos o que vêem, nem como vêem, os olhos da libélula; sabemos que formam a imagem única – nos dois sentidos possíveis da palavra – e para nós inacessível, que lhe manifesta o seu próprio universo, integrando imagens múltiplas do mundo, que as facetas viradas para pontos inúmeros lhe trazem).

 Qual o método de invenção literária de Maria Gabriela Llansol? Que veredas toma, ou abre por seus próprios meios, para fazer correr a sua escrita em direcções inusitadas? O que a anima? O que a conduz? Como não se perde na sua errância? A tudo isto procuram responder os capítulos deste livro. Na sua oficina literária, vejo-a cartografar episódios históricos – sobretudo da história das ideias e dos confrontos do poder (ou, como propõe João Barrento, da história dos vencidos) – e em paralelo situações psicológicas cambiantes – sobretudo do domínio da emoção, da curiosidade, do desejo, da vontade e da obstinação – e sobrepor os dois registos, o histórico, naquele tempo para que olha, e o psicológico, no agora da escritora, mas sem que jamais se trate de «biografemas», no sentido de Barthes.

Cartografar espaços delimitados do mundo, tempos diversos da História, personagens dissonantes e díspares, e justapô-los à mesma escala, como se fossem palimpsestos transparentes contendo escritas diversas de diversos tempos e em diversas línguas: e, olhando os palimpsestos justapostos contra uma luz crua vinda do exterior, ler o novo texto que resulta da sua sobreposição e decifrar nele as surpresas desordenadas que propõe. Assim procede, sabendo que o desenho das frases e dos enigmas que se configuram pode conduzir de súbito à suprema satisfação, alvo último e cobiçado do desejo, que consiste no desencadear das cenas fulgor, perseguidas até ao limite e com todos os recursos disponíveis por todo e  qualquer escritor empenhado. E, contudo, não ignora que a linguagem é como um instrumento óptico ligeiramente desfocado para captar os fenómenos du universo, definir o mistério que paira, e aprofundar as verdades últimas. Há nela – como nos sistemas ópticos mais apurados – uma aberração (era assim que lhe chamavam os físicos na Idade Clássica) que a impede de descortinar com nitidez plena as imagens definitivas que procura.

3. O que me cativa na escrita de Llansol é que a sua ficção poética – leio-a sempre como coisa híbrida de ficção e poesia inseparáveis, é mais uma sobreimpressão – suscita a cada passo e a cada enunciado problemas da filosofia. Walter Benjamin foi explícito: a obra de literatura, a obra de arte, só adquirem espessura e consistência se, por trás de cada uma das suas representações, se perfilar, dissimulada, uma ideia filosófica: a filosofia como habitante necessário e revigorante de qualquer literatura autêntica, devendo inscrever-se na intimidade da sua textura, como um dos seus componentes invisíveis mas susceptíveis de serem reconhecidos.  Esse convívio delicado e constante com a filosofia, com os temas constantes da filosofia existencial, torna esta escrita universal e perene.

O leitor caminha pelos textos llansolianos como pelo sub-bosque da mais densa floresta. Avança em ziguezagues, segue os trilhos possíveis, no meio das sombras e da profundidade indecisa onde se entrecruzam feixes de luz e se formam pontos coruscantes. A cada passo que o caminhante arrisca, levantam-se em corrida, para um lado e outro, seres enigmáticos que ali se ocultavam e que a sua caminhada, o avanço dos seus olhos leitores, desencadeia, para seu pasmo e seu deleite. Estes seres furtivos e tão portentosos como licornes, animais heráldicos que o olhar legente desperta da imobilidade, são as presenças vivas e essenciais ocultadas na espessura da grande floresta. Chegar perto deles e entrevê-los por instantes, é como um halali para o espírito do leitor. Por isso, apesar do percurso custoso, ele não pode já renunciar, nem sequer parar, porque as presenças invisíveis se sucedem e ele não aceita mais abandoná-las, é tocado pelo seu encanto e reconhece que também habitam ocultas em si, como uma possibilidade germinada na sua imaginação, no fundo de seu desejo – e a leitura, com os passos prudentes do caçador, revela tempestivamente em quem lê os ecos do que o texto suscita. Estas são as penas e os frutos prometidos aos leitores de Maria Gabriela Llansol, formas subtis de desvendamento a partir da sombra.

A este respeito, uma palavra sobre as duas categorias imiscíveis de leitores que vigoram nas sociedades actuais: alguns lêem literatura; os outros procuram objectos em forma de livro com dizeres ao gosto da multidão. São duas águas sem mistura, parecendo embora feitas da mesma substância; são duas populações de leitores que, vivendo em conjunto nas mesmas cidades e países, tendo aprendido na escola a mesma língua e não parecendo distintas ao primeiro olhar, ainda assim se separam tanto quanto as castas na Índia. E se os que se encontram na casta maioritária sonham de súbito aceder à outra casta, pode acontecer-lhes não disporem das ferramentas de sensibilidade, firmeza e gosto que lhes permitam essa deriva sem risco: cativos do mimetismo do gosto comum, não acederão sem tédio à matéria de que os outros se ocupam com paixão. E quando, incitados por alguém ou movidos por curiosidade, os que lêem esses objectos-livros (que os outros entendem como abjectos-livros) abrem um dia um livro literário, pode-os tomar o tédio: grande náusea os invade, e abandonam muitas vezes um terreno tão áspero que se lhes torna estéril.

4. Os textos de João Barrento formam um guia seguro para o iniciante. Trazem-nos pontos de referência esclarecedores para a nossa leitura. É uma grande fortuna, para um escritor – sobretudo para alguém que escreve: «Prefiro ser aceite pela geração futura a ser completamente aceite pela geração presente» (p. 206) – que um crítico possa, depois da sua morte física, acolher a sua escrita, preservá-la, organizá-la, difundi-la e aprofundá-la como o fazem João e Etelvina com a obra de Maria Gabriela. Porque não a dão a dissecar anatomicamente (como numa autópsia exaustiva) a centenas de universitários, que a reduzirão a centenas de teses pelo mundo fora, averiguando e reificando todos os seus conteúdos e sentidos até à náusea, numa espécie de arqueologia implacável ˙decidida a tudo explicar sem quase nada compreender. Nada disso! João e Etelvina, e o grupo que os acompanha, restituem uma obra extensa e em parte  desconhecida, e propõem-nos chaves possíveis para o seu entendimento.

«Não queria ter filhos no seu ventre, mas gera todas as outras figuras.» (p. 70). Quem o diz é Ana de Peñalosa, alter ego da autora. Vemos fotografias dos sítios de Ana mudados pelo tempo e coagulados na actualidade; e, na página a seguir (p. 72), podemos ler a narrativa do sonho de Ana, na barca que procura a saída da caverna com vitrais ao fundo, barca sobre a qual vem pousar a ave fénix que renasce da morte. Guiadas por essa ave – que é inevitavelmente a literatura – desde que se torna figura de proa, as palavras desencadeiam-se e a barca, conduzida por São João da Cruz (grande enigma! o místico pode ver melhor o percurso, como os cegos na Grécia arcaica tinham dons oraculares), encontra a saída da caverna e arrisca a visão das essências.

Entretanto, o manuscrito deste belo sonho, que é o sonho-limite de qualquer escritor – sair do platónico antro e confrontar-se com as esssências – mostra a fragilidade, a precariedade da base material dos apontamentos de Llansol. Ali a temos, a «matéria escritural nascente», na fotografia de um velho envelope rasgado e rebatido como um planisfério: sobre ele, a caligrafia (habitualmente desordenada) de Gabriela, que se sonhou Ana, torna-se minúscula e regular, corre por todos os espaços disponíveis do sobrescrito, faz prodígios de economia, até que o vasto sonho se conclua em tão modesto espaço. Renasce a ave-literatura, firma-se o rumo da barca: «E renascer verdadeiramente, em Llansol – escreve João Barrento – é nascer para o texto a partir do corpo que escreve e do próprio livro do mundo.» (p. 73).

5. Esta ‘arqueologia do saber’ obtida no e pelo Espaço Llansol é modelo de um método de reconstituição de uma obra labiríntica e dos seus corredores, hiatos e elos perdidos ou dispersos, por forma a encontrar as pontes de acesso aos enigmas desta escrita. João Barrento, através de uma pesquisa atenta dos documentos e objectos, do rasto da vida de Llansol, reencontra ponto a ponto os momentos e motivações dos percursos da escritora, os encontros influentes, as opções, as derivas e os itinerários que suscitam os materiais para a sobreimpressão. Em 1977, por exemplo, ela encontra-se com o místico sufi Ibn ‘Arabi, ao ler um livro de Henri Corbin; em 1976, cruza-se com Rilke, por ter lido parte da sua correspondência; a partir dos anos 80, depara-se com Spinoza, que se tornará em breve num astro poderoso do seu céu – e na impermanência do correr pelo mundo, entre filósofos, místicos, teorizadores da ciência e artistas (nos quais sempre o pendor sensível prevalecerá sobre o conceptual) vai tecendo as camadas sobreimpressas dos seus textos.

José Augusto Mourão escreve sobre a misteriosa Hadewijch de Antuérpia. Reconheço que, para mim, durante muito tempo – embora soubesse, é claro, que se tratava de uma figura histórica – Hadewijch nascera e morava apenas nos textos de Llansol. Não a sabia situar na História, nem sequer pronunciar o seu nome adequadamente. Descobrir a béguine através do texto de Mourão trouxe-me a surpresa e a estranheza de conhecer enfim algo de alguém que conhecia por mera alusão à literatura – como Marcel, desconcertado ao encontrar um dia Bergotte em carne e osso em casa da ‘princesse de Guermantes’. A figura de vitral tornou-se viva, moldada pelo seu tempo, rodeada das inevitáveis incompreensões, advertências, perseguições. Estava-se – escreve Mourão – «no fim da Idade Média, cheio de mulheres sós, fruto das guerras, das cruzadas e das epidemias.» (p. 35).

Estas mulheres desamparadas, estes místicos, tomam como «meta espiritual o contacto imediato com Deus e as Escrituras», numa perspectiva proto-reformista de grande liberdade, voluntariosa, por vezes orgulhosa, senão mesmo arrogante: «A humildade era a virtude dos medíocres», dizia Siger de Brabant (p. 49). Supunham que a alma fosse de essência divina e aspirasse a regressar à origem, um pouco como a Vedanta e os Upanixads afirmam que o Atman, profundidade sem limites do eu meditabundo, só liberta o seu dono dos funestos renascimentos quando o leva a reconhecer a aparência das coisas e se funde no Brahman, no Ser total, indiferente à ilusão do mundo. A béguine avalia a vida e o universo com base numa teologia negativa. «É esta abnegação passiva que mais aproxima de Deus.» (p. 45). E no pensamento paradoxal destes místicos, quando Eckart afirma, por exemplo, que «todas as coisas são um puro nada» (p. 46), ouço um eco de Nagarjuna e da radicalidade do seu niilismo.

Uma afirmação desconcertante neste texto (p. 37): «Hadewijch dirige-se às almas que se tornarão mães de Deus, como Maria que aleitou Jesus até à idade adulta (…)». Necessidade da psicanálise? Arrojada metáfora? Sabemos como Cristo se afastou da mãe durante a sua chamada vida pública, recordo-me da minha leitura dos evangelhos… Pena é o padre Mourão não estar mais entre nós, para nos explicar este paradoxo.

6. Maria de Lurdes Soares compara a condensação e o deslocamento ao trabalho do sonho. Esta é porventura uma das chaves para a  compreensão desta literatura, que foge aos cenários e cronologias da História mas colhe aqui e além os seus melhores frutos, reescrevendo com eles novas e pasmosas histórias. Os sonhos têm virtualidades literárias, um grande poder de inovação narrativa, como cada um de nós experimentou já e alguns usaram como catalisador da própria escrita. Contornada a regra da História de que, se algo acontece, esse algo permite certos acontecimentos e impossibilita outros, no futuro, grandes ousadias se permitem então. É essa infracção à linearidade da História que alimenta a estranheza da escrita de Llansol. O valor deste processo onírico-literário vem expresso numa citação do livro Da sebe ao Ser (é, de resto, o fragmento mais citado neste livro): «Eu vim aqui para me esquecer de como se contam histórias e se constroem narrativas, pois que recorrer sempre a essa escrita enfraquece a vigilância da memória e apaga a imaginação do espírito» (SS, p. 68).

As figuras, convocadas a partir de personagens históricas, tornam-se fantasmas dinâmicos da História, uma vez filtradas pelo lápis de Llansol e projectadas nos seus textos. Retiradas aos espaços e tempos nativos próprios, aos afazeres e tensões que as moviam, adquirem novas visões do mundo e desenvolvem grandes sabedorias; e como que se influenciam e misturam, resultando dos seus destinos quiméricos ideias e rumos imprevistos, que na História real se perderam ou ficaram latentes. Maria Gabriela parte à captação destas ideias, destes rumos, que animam o seu projecto. Todas essas vozes passam pela sua voz, irrompem dos seus olhares, do seu desejo.

Barrento chama-lhe «uma escritora estrangeira na literatura portuguesa» (p. 89). Todo o escritor genuino, bem sabemos, recorta e cria no interior da língua-mãe uma outra língua, que só ele próprio domina e sabe administrar. Llansol vai ainda além, ao transformar a sintaxe e povoar a semântica com estas grandes figuras de empréstimo que trazem o insólito ao destino das suas narrativas. A História, palavra e conceito cuja natureza não suporta (como o provam os fragmentos reunidos na coluna da página 91), torna-se para ela um viveiro onde colhe figuras e prepara intersecções. E a escritora é como um filtro – no duplo sentido do termo – como um prisma que recebe feixes de luz de todas estas personagens pensantes, escreventes, beligerantes, e devolve essa luz aos leitores, mas em  proporções renovadas e com tonalidades totalmente diversas, impregnadas já de ‘llansolidade’.

Nietzsche, Spinosa, Hölderlin e os demais, uma vez coados pelo seu olhar do mundo contaminam-se com os propósitos e inclinações da escritora, e o discurso que então jorra é como o tal discurso dos sonhos, que integra misteriosamente narrativas alheias numa única história que singra com o desejo e inventa literariamente uma narrativa nova. A palavra desprende-se então como uma torrente e mostra a sua força impetuosa, indelével – como o prova a cabeça de Thomas Müntzer seguindo rio abaixo com as águas da História, e o provara a cabeça de Orfeu fluindo pelo rio Meles, sem cessar os seus cantos. A palavra dos vencidos não é aniquilada, e flutuará doravante no espaço da História como voz insurgente.

6. António Guerreiro fala aqui da «construção de um modelo nómada da narrativa (…) pela abolição do espaço, do tempo e da causalidade» (p. 134). Daí a asperaza da leitura, o estranhamento das sucessivas representações do leitor e o pasmo que nele se desencadeia quando, ao dobrar uma a uma as cristas rochosas que se erguem destes trechos, a cada cume transposto avista panoramas mágicos que o transformam.

O texto de Silvina Rodrigues Lopes situa a deriva dos continentes da escrita llansoliana. Um deles, «o encontro inesperado do diverso», conduz com impassibilidade ao paradoxo; o outro, o «êxtase enquanto despossessão», desencadeado a partir de um ponto de meditação, conduz-nos, leitores, ao irrisório da desapropriação. A colisão entre as duas grandes placas tectónicas desta escrita põe a descoberto as linhas de fractura de um saber oculto, e culmina num abalo, no vulcanismo de um riso subterrâneo a que o leitor de súbito pode ser compelido. Sem dúvida, para quem souber escutar, do fundo destes paradoxos ergue-se uma potência sarcástica demolidora. Ainda Silvina: «O riso, ou o mutismo do irrisório, seriam assim uma espécie de sacrifício da cultura em nome de verdades esotéricas que o homem partilha com a natureza.» (p. 144).

7. O capítulo escrito por Cristiana Vasconcelos Rodrigues procura mostrar a adesão da figura de Spinoza ao universo de Llansol, enquanto motor aglutinante dos seus textos e força optimista agindo nos seus percursos ficcionais. O filósofo daria caução ao processo de sobreimprimir: no universo spinoziano impera a comunicação universal entre os seres-parcelas e o monismo da natureza. Assim, «Llansol leva Baruch (…) a descobrir na quimera o seu fundo de verdade.» (p. 177).

Maria Etelvina Santos analisa as mudanças de escala da sobreimpressão. Porque Llansol sobreimprime as suas invenções à medida que incorpora novas influências, que sempre a animam e alteram, fazendo-lhe descobrir novos rumos em si e indicando novos rumos em nós. Uma nota retirada de um caderno traz-nos uma revelação da escritora: «Introduziu-me no poder de manipular a ausência da quantidade, e estou presente…» (p. 191). Assim, tendo abandonado de vez toda e qualquer medida, entrega-se ao universo das qualidades, que manipula com mestria e a seu bel-prazer, desvendando o que vai sentindo em si mesma e nas coisas, saboreando os risos, delícias, contingências e terrores do percurso, e construindo a sua escrita sobreimpressa com as vozes solenes da grande Europa passada e os murmúrios do pequeno Quadrilátero natal: tempos abolidos, espaços amalgamados, personagens quiméricas gerando novas formas de compreensão, paradoxo, irrisão e júbilo.

Num momento surpreendente do livro Lisboa-Leipzig, procura levar o seu Pessoa lido ao invés – Aossê – a uma abertura à fruição do mundo, do vasto mundo exterior: levá-lo além da velha cidade por onde errou, além do estreito Quadrilátero de onde por vontade própria nunca saiu, dos ícones obstinados, dos mitos repetidos, das profecias desmedidas para o seu povo. E, para o conseguir, convoca Bach, que o anima com a sua música divina e sem cessar renovada de engenho, e o conduz à expansão, à entrega aos grandes espaços fluidos da música e do mundo, fazendo-o fruir nirvanicamente e mudar de escala e de horizontes.

Ora, Pessoa e Llansol são de algum modo figuras polarmente opostas. Perante a aventura da vida, ele fecha-se na sua estreita cripta de onde a si mesmo se escuta – enquanto ela, virada para o exterior, atenta aos indícios mais remotos, escuta os cantos distantes e de maior encanto. O ensimesmado Pessoa cliva da sua matéria, cria e cultiva em si os seus heterónimos sem número, e arroja-os um por um no seu espaço da escrita; enquanto a extática Llansol ouve de longe as vozes e músicas incontáveis e prodigiosas provindas de tempos e espaços da Europa e chama-as a si, incorporando-as na sua matéria e dando-as à escrita. À sístole heteronímica de Pessoa – para parafrasear o meu caro Feuerbach – responde a diástole heteronímica de Llansol. Onde ele, Fernando Pessoa, Fernando-Aossê, desdobra a banda das pessoas recortadas do seu foro mais íntimo, ela, Maria Gabriela, capta as figuras em horizontes longínquos que perscruta, em tempos, espaços, orbes e pensares diversos, suscitados no seu modo de estar em literatura.

Abrir-se à vertigem e à transparência do mundo e chamar a si o que entrevê na lonjura, em Llansol; versus fechar-se em si, sondar os recessos da sua obscuridade e encontrar neles uma pululação de presenças e formas que o desdobram, em Pessoa. Projectos inversamente configurados, que polarizam a literatura portuguesa do século XX, que ele inaugura em ensimesmamento melancólico e ela encerra em ironia, cepticismo e êxtase; processos opostos e complementares de insatisfação, desvendamento e corrida por máscaras sucessivas (porque nunca trazem a saciedade), máscaras que ele vai projectando para fora de si e ela vai chamando e fixando em si, até que se façam escrita.

Pessoa dardeja essas facetas incontáveis da identidade do fundo da sua escuridão, da lanterna mágica do seu íntimo; Llansol recebe-as do caleidoscópio inesgotável do grande mundo em volta. Ela mesmo o diz: «Há eus sucessivos, simultâneos, estáticos, em movimentos, postos de claridade e de mistura incessante de pequenos vidros de ideias inteiras e partidas; composições que me apresentam para eu fazer, e que eu passo, porque sou livre, a outro canto mais claro de mim mesma» (pp. 207-8). Quebram assim, cada um a seu jeito, a estreita abóbada de cristal fosco que os confina no pequeno Quadrilátero natal, e partem rumo a novas aventuras. E, como Llansol chega depois, propõe-se conduzir Pessoa a Bach, para que atinja o fulgor, o «estado jubiloso de completude». Esta ironia subliminar sempre acompanha o seu escrever, faz parte da «sua vontade inabalável de ver com um olhar transformador.» (p. 191).

8. E, nas páginas finais, em cores sanguíneas, o leitor encontra duas fotos e alguns parágrafos da escrita de Maria Gabriela Llansol, como saídos do Hadés para uma visita breve mas clarificadora, pela mão dos que, segundo as palavras oraculares da escritora, «se lembraram de não a deixar morrer.» (p. 207). «Abro o dia novo com esta carta aberta, em que a minha própria humanidade me soa a humanidade posta à prova.» (p. 209).

      António Vieira §  Lisboa, 13 de Dezembro de 2011

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