A Phala

Estilhaços, lâminas, sangue

In Poesia Inédita Portuguesa, Uncategorized on 23 de abril de 2014 at 14:11

K_VIDR_LRO vidro será a minha matéria.

O vidro (mas qual, de tantos?) será também a minha não-matéria, porque ele deixa ver, à transparência, e apagando-se a si próprio, a matéria (sacrifício do vidro, para deixar ver, tornando-se invisível).

Exactamente aí, então, o vidro que me interessa: entre aparecer e desaparecer.

Ou seja,

1. o vidro apagado, que deixa ver através dele, e do qual nos esquecemos. Que deixa ver, mas não tocar. Vidro que difere em absoluto o toque das coisas, ao mesmo tempo que oferece as coisas generosamente à vista. Metáfora do conhecimento objectivo mas, claro, também dos seus limites: o que se vê aí nunca chega a tocar no sujeito, ou a ser tocado pelo sujeito. Conhecimento rigoroso e, de algum modo, estéril. A não ser, claro, que o vidro seja irregular, esboço de lente, imperfeições, bolhas de ar (como em certos de vidros de janelas de Finisterra) que deformam a paisagem, e então teremos

2. o vidro como a própria coisa a ver, vidro raspado, baço, gasto, embaciado, turvo, áspero, ferido, a sobrepor às coisas vistas a visão das coisas, talvez a visão da visão, talvez a cegueira (nada para ver através do vidro). E ainda, por fim,

3. o vidro que reflecte quem (nele se) vê, vidro que se transforma em espelho, que devolve a imagem própria, a pretexto de dar a ver o exterior.

Os três vidros, ao mesmo tempo, e nunca saberemos realmente dizer (de cada vez que se diz, que se escreve “vidro”) qual, quando, onde.

*

O Vidro será a minha matéria.

Título, minimal, do fascinante livro de Luís Quintais. Duas partes: a primeira também intitulada “O vidro”, longo poema único; a segunda, “Ecolalia”, poemas em prosa. Demasiado cedo para dizer se uma parte se vê à transparência da outra, ou se uma reflecte a outra, etc. (demasiado cedo para dizer o que se pode ver, o que se pode tocar). Mas sabemos, sim, que os vidros são muitos, e diferentes. Por exemplo, aqui: “De estilhaços / é a voz de vidro e o céu deglutido, esventrado, // como a rede rota que faz precipitar a história” (p. 21), ou aqui: “O que evocas já não interessa, // húmus em que te instalas, páginas / vitrificando o que foste, outra e outra vez” (17), onde se diz que o vidro é a própria coisa. Porque a voz é de vidro, e o sujeito vitrificado; será uma condenação prévia, ou talvez um trabalho, um fazer (em grego: poiesis), um rigoroso e decidido devir-vidro, escrever de si em “páginas / vitrificando”, livro de vidro (e livro da vida). Mas vidro que também dá a ver, que se deixa atravessar, que define uma imagem impossível a olho nu: “sangue disperso sobre o vidro que amplia” (81). E, por fim, o vidro que reflecte: “Para lá deste vidro há cinza ainda. No vidro, o meu reflexo sobre vidro e cinza. O meu rosto desfigura-se por pretéritos e percursos de que não ousamos o nome” (73). Lugar de chegada, importante (e nova partida): porque há a cinza, além; o vidro como coisa, aqui; e o “meu reflexo sobre vidro e cinza”, lugar terceiro, que não é indemne às sucessivas camadas, mas sim contaminado por elas. Assim: “O meu rosto desfigura-se”. Ou seja: no instante em que o poema define espaços (além, aí, aquém), é às custas do rosto do sujeito que, por seu turno, não pode ter espaço certo (não pode ter lugar onde pousar a cabeça, ficará sempre em plena desterritorialização). Quando finalmente se descrevem os diversos vidros, já não há sujeito para os descrever.

Por isso toda a visão será dúvida e crítica da visão, diferimento, desacordo entre o que se vê e o que se toca, ou se escuta (“Estrépito de armas ou mistificação plena é tudo o que vejo como quem escuta ou escuto como quem vê” (86)). Claro, existe um sujeito em “O vidro”. Um eu; por vezes, um tu; mas se o vidro permite o reflexo, talvez o tu seja apenas reflexo e desdobramento do eu central, nuclear. Saberemos pouco desse sujeito – que é um corpo adulto, com memórias (pessoais, colectivas, históricas), em relação com um passado recuperado e perdido, no espaço transitório de um hotel, onde interroga o seu entendimento do mundo. Mas o pouco que soubermos deverá ficar sempre suspenso: muito mais será sempre o que ignoramos. O próprio sujeito apenas conhece “a desorganizada matéria de que se compõem / os nossos sonhos” (35), “pobres mitos // diurnos que vamos anotando” (30). E contudo, a escassez do que se conhece não demove o gesto da procura, pela afirmação – “Tu persegues o porvir / de estilhaços já transpostos” (22) – ou pela negação – “Indomáveis padrões fazem precipitar / espectros do que és, // presenças sem significação que tu irás / afastar com gesto hábil” (11). Perseguir e afastar são, ambos, modos de criar significação, recusar a mera entropia (34) recebida, para encontrar um modo de agir, dizer, inventar-se a si próprio. Assim:

[…] Dizes, a minha ciência

é a admirável voz do concreto, mas depressa

 

te defines por ficções mal cerzidas.

Afinal esta é a caixa, a matriz, a rede,

 

e esta a areia, e este o vidro sobreposto,

e dentro de tudo isto uma mão fecha-se,

 

esconde algo ferreamente. […] (36-37)

Leia-se (além, aquém, e a própria coisa). Eu diz a tu: “Dizes, a minha ciência / é a admirável voz do concreto”. E talvez eu seja tu, em reflexo no vidro; logo, a fala citada é a fala própria, a minha ciência – qual? Donde: “voz do concreto”, versus “ficções mal cerzidas”, objectividade e ficção, indefinivelmente. E resta apenas isto: “esta é a caixa, a matriz, a rede” – qual caixa, matriz, rede, senão o próprio livro que temos em mãos, nós, leitores, lendo (e livro que é, atente-se na capa, precisamente um vidro opaco, cego)? Resta uma caixa, areia, vidro sobreposto (impossibilidade do toque), “e dentro de tudo isto uma mão fecha-se, // esconde algo ferreamente”. Ignoraremos o que assim se esconde. Um verso célebre de T. S. Eliot  diz: “I will show you fear in a handful of dust”. Verso enigmático, mas onde se mostra (ou se anuncia, ou se profetiza que se mostrará) algo, o medo, no pó recolhido pela mão; em Luís Quintais, a areia é intangível, e o que a mão colhe permanecerá sempre ferreamente escondido.

Como, então, ver?

Mesmo livro, mesmo vidro (livro é quase anagrama de vidro, ou vidro de livro), segunda parte, “Ecolalia”. Mesmo livro e por vezes mesmo texto, versos que se repetem entre primeira e segunda parte; assim “Quem gritará à tua passagem?” surge nas páginas 12 e 70, de “O vidro” e “Ecolalia” respectivamente. Na sequência da leitura, o verso surge primeiro em “O vidro”, e depois em “Ecolalia”. Mas podemos ler “Ecolalia” como a descrição, no presente, de factos passados, memórias do mesmo sujeito. Se assim for, “Ecolalia” é composto por memórias presentes do passado do eu; e então o verso “Quem gritará à tua passagem?” surge primeiro no passado distante revisitado em “Ecolalia” e depois na avaliação presente da entropia em “O vidro”. O tempo está fora dos gonzos, também ele desterritorializado.

O que lembra “Ecolalia”? A infância num “império [que], depois de morto, apodrecia” (66). Em breves notas biográficas de outros livros do autor, lê-se, por exemplo, “Luís Quintais nasceu em 1968 em Angola” (cito da badana de Riscava a Palavra Dor no Quadro Negro, Cotovia, 2010); importa reter este dado, identificar Angola implícita em “Ecolalia”? Não tenho a certeza. Em todo o caso, O Vidro não diz o nome dessa paisagem, apenas a sua relação com o poder, a História, e sobretudo a presença (diferida) do passado no presente do sujeito:

Tudo isso se desgasta e polui no assento menos luminoso do meu passado. É sempre o canyon que me devolve a nítida percepção deste escutar por onde não vejo, como se um texto indomável me engolisse e me percutisse a carne. Onde estará esta casa senão na inadequada mente? (64)

Sublinho: este é o “assento menos luminoso” do passado. Se “O vidro” interrogava todo o tempo, “Ecolalia” observa este lugar obscuro, o mais obscuro, talvez a matriz da obscuridade, do incognoscível. Lugar onde, de novo, não se pode ver e ouvir, mas apenas “escutar por onde não vejo” – ou talvez ver onde não se pode tocar. Lugar de perda, queda no canyon, “como se um texto indomável me engolisse”, casa primordial que é a matriz de todas as perdas.

Como ver, então, se “A memória é um túmulo ou um monte de cinzas de proveniência arbitrária” (71)? A memória é um túmulo porque o passado está morto. E contudo, sabemo-lo desde Pessoa, a vida do passado acontece “outrora agora”.

É preciso, então, inaugurar um quarto vidro, quebrado no tempo. Ele implica a morte do passado, e a percepção da morte de si mesmo no passado: apenas se conhece o que morreu, o que poderia ter morrido, o que já esteve perante o fim (perante a definição):

[…] O demónio virá como uma boa de ténis quebrando o vidro da biografia. Milimetricamente, recordo-me. Por duas vezes não era uma bola de ténis, mas balas à procura de uma vítima, eu próprio, sentado no muro fronteiro à casa. Quero ainda quebrar o vidro. Vou quebrá-lo. Vou quebrar esta mão do lembrar. (79)

E a vista sonda, reconstrói, compara – aproxima: “dentro de tudo isto uma mão fecha-se, // esconde algo ferreamente”, “Quero ainda quebrar o vidro. Vou quebrá-lo. Vou quebrar esta mão do lembrar.”

O quarto vidro está em estilhaços, lâminas, sangue vertido.

Pode-se portanto abrir a mão, quebrar o vidro, tocar a coisa que nunca pode ser conhecida. Pode-se, mas ao preço de enfrentar a morte, a maior entropia. E isso faz-se no livro, na escrita (este livro, esta escrita, vidro duro, opaco). Faz-se pelo reencontro de um verso, de Álvaro de Campos, e pela “inocente vontade de poesia” (48); pela transformação da vida perdida nas imagens salvas: “o que foste // recompõe-se em imagens” (13); pela promessa da revisitação: “Amanhã iniciarei a longa cartografia / que me fez chegar aqui.” (52). E faz-se, enfim, ao aceitar a própria entropia, o caos do presente e da memória, sem resolução, sem resposta (o “texto indomável”, que engole o sujeito, é preciso desejá-lo):

 

[…]

 

Aí serei o náufrago que já não espera

que o salvem, porque a solução está no puzzle

 

da espera. […] (54)


Apresentação de O Vidro, de Luís Quintais (Assírio & Alvim, 2014),

na Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho, Coimbra

Pedro Eiras

 

 

 

 

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