A Phala

No regresso de «Lisboaleipzig»

In Arrábido on 23 de junho de 2014 at 16:01

K_LISB_LRAos leitores dos meus textos: Há anos que escrevo Lisboaleipzig. Inicialmente pensei que seria um livro de um único volume. Com o tempo, apercebi-me de que seria um livro em vários volumes (…). Achei oportuno publicar, no mesmo volume, textos dispersos que escrevi, ao longo dos anos, e com os quais procurei esclarecer-me sobre o sentido da minha escrita.

                                                Maria Gabriela Llansol (folha-convite para a apresentação de Lisboaleipzig, em Julho 1994)

Em 18 de Julho de 1994 – há precisamente vinte anos – Eduardo Prado Coelho apresentava na Casa Fernando Pessoa a primeira edição de Lisboaleipzig (nas Edições Rolim), nesse dia apenas o primeiro volume, ao qual se juntaria um segundo ainda antes do final desse ano.

É para mim muito comovente assistir agora ao encontro de três partes de uma mesma vontade: reunidos os dois volumes da edição anterior com as xilogravuras de Ilda David’. É um encontro do diverso, mas esperado, pelo menos por nós e pela Maria Gabriela Llansol que tanto desejou esta edição como ela agora se apresenta. Estamos perante um objecto belo, no sentido em que o belo é definido neste livro: «salvo de qualquer embelezamento, para lá de toda a estética, e firmemente empenhado no corpo e no afecto».

Agradeço a todos os que possibilitaram a realização deste livro, e dedico este texto à memória de Eduardo Prado Coelho.

1.

Falar deste livro de Maria Gabriela Llansol é como falar de toda a sua Obra, de um livro único onde podemos ler o registo – em múltiplos planos sobreimpressos, mas translúcidos – do percurso de quase todas as figuras que habitam os seus livros (aqui trazidos pelas vozes de um poeta – Pessoa, transfigurado em Aossê –, de um músico, Bach, e de um homem de pensamento, o filósofo Spinoza); mas é também o registo da problemática presente em toda a obra de Llansol – a procura das fontes da alegria – e ainda (o que pode ser mais inesperado) o registo, sob o modo de «ensaio-diário», de textos onde, como afirma, procurou esclarecer-se sobre o sentido da sua escrita.

Llansol traz para os seus textos duas constatações.

A de que a realidade é um contínuo, não um encadeamento de causas e efeitos; porque o que existe, existe em correspondências, «em evolução e oscilação permanentes» [entrevista a António Guerreiro, em 1991]. É deste modo que apresenta a realidade nos seus textos, e por isso eles pressupõem um «pacto de inconforto» com o leitor, que aceita ou recusa ler através dessa descontinuidade.

E constata também, como nos diz, que «faz sofrer viver sem certezas, mas que aqueles que devem viver sem elas têm a possibilidade de criar “outros possíveis” que serão outros mundos, se a linguagem os fizer e o corpo os puder tornar viáveis; e não haverá mundo se no seu centro irradiante estiver ausente a figura da alegria, que cada um de nós possa vislumbrar (…) porque a espécie morre de sede à míngua de outros campos do possível». [publicado no jornal O Diário, em 1982].

É esta a matéria dos livros de Llansol, a procura que a orientou durante toda uma vida de escrita, e que está tão claramente presente neste Lisboaleipzig.

2.

No contexto da obra de Llansol, Lisboaleipzig surge depois da publicação das duas primeiras trilogias (onde o objectivo é pôr em evidência a conquista de um bem como a liberdade de consciência, sobretudo através da figura do rebelde), e na sequência de livros como Um Beijo Dado Mais Tarde, de1990, ou o diário Um Falcão no Punho, de 1985.

Publicado só em 1994, em dois volumes, o projecto Lisboaleipzig inicia-se muito antes, tem várias ramificações noutros livros, irradia por todo o espólio de Llansol, primeiramente ao longo de cerca de quinze anos (entre 1978 e 1994), sendo posteriormente retomado em vários momentos. Podemos dizer que se trata de uma dispersão contínua e consciente, oscilante e produtiva, de forma a atingir um máximo de amplificação, experiência que terá o seu expoente no último livro, Os Cantores de Leitura, através do encontro de praticamente todas as figuras dispersas pela totalidade da obra, que se encontram para «cantar a leitura» ou elevar a escrita à dimensão da música e do canto. Creio poder dizer que o projecto Lisboaleipzig só se conclui com Os Cantores de Leitura, em 2007.

Se a liberdade de consciência foi a preocupação primeira da obra de Llansol, depois das trilogias começou a tornar-se evidente a necessidade de experienciar um novo valor que consolidasse e fizesse evoluir a liberdade de consciência, inscrevendo-a numa prática de características ético-estéticas a que chamou «dom poético», e que também define como a capacidade de «efectivar o possível».

Assim surge uma nova orientação na Obra, que se inicia com o projecto Lisboaleipzig, pondo ênfase no «dom poético», e cujos antecedentes radicam na afirmação de uma língua sem impostura.

As razões são conhecidas: se é certo que o ser humano transporta consigo uma marca evolutiva, esta não deve, contudo, ser vista como superioridade ou como um dado adquirido. É tarefa do homem contribuir para que se desenvolva uma outra percepção de elos e de relações entre todo «o vivo», e para que se estabeleça um contrato de mútua não-anulação com todo o vivo da espécie terrestre. Esse valor de inscrição da liberdade de consciência, o «dom poético», capaz de quebrar hierarquias entre todos os seres, assenta, assim, na convicção de que o mundo é profundamente estético e sensitivo, e de que é necessário fugir aos dogmas da crença e da razão, e tentar perceber o que há nas coisas como forma de linguagem que se oferece aos sentidos e ao pensamento. E se todo o pensamento é uma afecção do corpo (segundo Spinoza), é preciso desenvolver um novo corpo de afectos que possibilite a criação de novos modos de pensar, de novos «ciclo[s] de pensamento e de formas de viver». Procurar desenvolver um pensamento afectuante que entenda o fulgor que há nas coisas, o seu modo de comunicar connosco através de campos imagéticos (não imaginários), significa fazer a experiência do diverso num lugar imaginante, «o denominado estético» ou «entresser», lugar fora do tempo e de coordenadas de espaço, um locus/logos de acolhimento das constelações de forças visíveis e invisíveis, um lugar de encontro de vestígios deixados por outros que nos antecederam, vestígios que irradiam como aparições fugazes mas intensas, através de imagens fraccionadas que se nos oferecem para composição. O «dom poético» é essa capacidade de dialogar com o mundo, de ver e compor imagens, de as «cerzir às palavras». Uma interrogação face ao mundo que, no caso de Llansol, não se faz sob o modo teológico ou filosófico, mas estético, como afirma e mostra neste livro, e sintetiza numa página programática, espécie de pórtico-manifesto que inicia a segunda parte do livro. E também nestas linhas iniciais:

            o encontro inesperado do diverso

            é assistir ao belo a comunicar com o silêncio;

            a fraccionar a imagem nas suas diversas formas;

            ajudá-las a levantar o véu para que se mostrem mutuamente

            na beleza própria

Sejamos, por isso, conscientes da necessidade de reaprender a ler o mundo, sobretudo não escavando mais fundo, mas olhando mais longe na paisagem; pela necessidade de deixar vestígios operantes e futuros, imagens que outros possam vir a recolher e transformar.

3.

Este livro mostra a oficina de escrita de Maria Gabriela Llansol, que parece espalhar em cima de uma mesa, e sob os nossos olhos, vários tipos de textos: páginas de diário (de 1978 a 1994) – de todos os lugares da Bélgica onde viveu, até Colares onde se fixou depois do regresso a Portugal; páginas de agradecimento de prémios literários (de 1990 a 1994) – textos de intervenção pública que sistematizam as directrizes fundamentais da sua escrita, como que oferecendo ao leitor comprometido com o «pacto de inconforto» da sua escrita um instrumentário que lhe permita desbravar, mas não a anulando, toda a caoticidade observada na leitura da primeira parte do volume; fragmentos de livros anteriores que desenham as mesmas problemáticas através de outras figuras; fragmentos de livros futuros, onde iremos encontrar estas mesmas figuras; uma possível carta aos habitantes de Herbais, na Bélgica, que lá ficaram; um post-scriptum aos leitores de lá e de cá, onde (em duas linhas) dá conta do que fez enquanto andou pelo mundo; uma página-manifesto onde fala da procura de «um final feliz», e também o relato de uma Ceia de Natal em Leipzig, na casa do músico Bach, onde, anulando fronteiras de espaço e tempo, se espera a chegada de um hóspede, o poeta Pessoa, aliás Aossê de seu nome, que, desiludido com a sua terra natal, vai ter com o músico para que este lhe componha uma Ode Sinfónica a um Deus Errante – um canto que exacerbe o seu povo, que o tire da sua «apagada e vil tristeza». Com a família Bach e o poeta estão também Infausta (o heterónimo feminino de Aossê), ou a escrevente que os espreita da janela, e os traz depois até ao Cabo Espichel para um encontro com o filósofo Spinoza, e onde um falcão sobrevoa a paisagem…

É difícil imaginar um livro feito de tudo isto. Sobretudo é difícil perceber como Llansol consegue a coerência que circula entre todos estes textos e a sua unidade final. Mas é também no livro que encontramos justificação para o seu procedimento.

4.

Após um exílio de vinte anos na Bélgica, Maria Gabriela Llansol volta a Portugal e encerra um ciclo que culminou com o viver solitário de Herbais. Nas mudanças pelos diferentes lugares, a que chama «passagens-metamorfose», Llansol encontra a explicação para o modo como todo o seu texto se constrói e organiza. Deixa claro que as figuras dos seus livros viajam com ela fisicamente, deixando-se envolver nas paisagens futuras para onde são levadas, provocando com esse envolvimento desvios e transformações nos projectos a que estão ligadas, e que, enquanto escritora (ou escrevente, como preferia dizer), o seu papel é deixar fluir, a esse ritmo, o ritmo da escrita e da construção das figuras. É o que acontece com o livro Lisboaleipzig, e é essa uma das razões que explicam a introdução, na primeira parte, dos muitos fragmentos de diários que povoam as páginas ao longo dos anos de preparação do livro, com o objectivo de não anular o registo desse imenso caminho percorrido até ao apuramento das figuras, dos seus contornos, das decisões (por vezes prolongadas no tempo) acerca «de quando queriam encontrar-se, enfim, os membros – visíveis e invisíveis – dessa comunidade», o que só virá a acontecer em Colares.

A figura de Pessoa/Aossê é paradigmática da estrutura fragmentária e dispersa de toda a primeira parte de Lisboaleipzig, que se constrói no trajecto Jodoigne-Herbais-Colares, com fragmentos de todos esses lugares, e com uma organização interna que nada tem a ver com a habitual estrutura diarística – os fragmentos de diário não surgem agrupados cronologicamente. Podemos concluir que o carácter fragmentário e o modo disperso como surge a figura de Aossê está de acordo com a «sobrevida» que Llansol lhe confere a partir do poeta Pessoa – a «autêntica figura explosiva da galáxia Ocidente».

Por outro lado, Aossê, Bach e, de certo modo, Spinoza, aparecem principalmente associados ao lugar de Herbais, que foi, entre todos os lugares, o punctum das passagens-metamorfose de Llansol: o maior isolamento na maior intensidade e, paradoxalmente, um quase arquétipo do que significa ser passagem e ser metamórfico. A força do isolamento de Herbais adequa-se bem à pujança de Bach, e o facto de ser um lugar de passagem aproxima-o da multiplicidade dispersa de Pessoa/Aossê, também este figura de passagem e metamorfose.

Assim, toda a primeira parte de O encontro inesperado do diverso mostra, na sua arquitectura e já no seu título, a clara intenção de não limar arestas, de não retirar aos textos dos diários, ou dos livros, o seu carácter fragmentário e ocasional, disperso e intercambiável. Pessoa/Aossê adequa-se perfeitamente a este núcleo onde se condensa a maior dispersão na maior intensidade. Retirar à construção da figura de Aossê o que de mais conseguido Pessoa deixou como Livro do Desassossego seria retirar-lhe a possibilidade de devir, que tanto motivou Llansol, que faz o seu trabalho de escrita sem anular a possibilidade de poder reconstituir a figura do poeta continuadamente. Deixar a figura crescer durante tanto tempo, e num projecto tão alargado, torna mais possível a sua não cristalização.

Neste livro associado à imagem de um falcão e à ideia de um ser futuro, mas também à escrita, Aossê entrou no punho daquela que escreve já num fragmento anotado nos primeiros anos na Bélgica:

Nevava em Lovaina, de encontro aos Cafés que eu abrangia como comunidades de peregrinos, e suspeitei que um falcão voava para o meu trabalho, com uma aura de nobreza, e vindo de um país do sul.

Não pousou no meu pulso, entrou no meu pulso.

Os seus olhos redondos, duas vezes maiores, entre mim e a neve, são-me entregues.

(16 de Janeiro de 1985 – Colares).

Ainda uma nota, que me parece importante, para a figura de Infausta: é através desta figura que se estabelece a coesão da estrutura fragmentária das duas partes de Lisboaleipzig. Penso que a perplexidade causada no leitor, principalmente pela composição da primeira parte e da sua relação com a segunda, não poderá ser entendida senão através da figura e do papel de Infausta, que orienta e revela a oficina textual, articula a génese das figuras com as entradas diarísticas e os textos metateóricos, fornecendo a chave dessa imensa e complexa composição intertextual.

Sendo «a alegria de Aossê», «o seu heterónimo feminino», «a chave da porta», o seu corpo surge como um «domínio revelador» da experiência de Bach e Aossê.

5.

Uma palavra final (sem a qual não poderia concluir a apresentação deste novo Lisboaleipzig) para as xilogravuras de Ilda David’ e para a matriz de leitura que elas nos oferecem, ecoando a matriz da imagem-figura no texto.

Parto desta citação de Llansol:

            Não vejo em palavras: ouço imagens que se confrontam a admirações   de pensamento e que não serão nada se não nascerem com o corpo que lhes convém.

As xilogravuras de Ilda David´ inserem-se neste percurso de descoberta, de escuta às imagens. Mostram, num modo oficinal, o seu traço, a marca de quem as realiza, o claro/escuro de quem atravessa com este texto a metanoite do acto criativo, também ele um encontro inesperado do diverso e um ensaio permanente. As suas gravuras convocam os lugares e as figuras deste texto como Maria Gabriela Llansol convoca um mundo originário, fora do tempo, ou sempre futurante, e o traz para um lugar propício ao aparecimento de imagens, que ora se constituem em paisagens ora em figuras, vestígios a recuperar, vislumbres deixados ao cuidado de quem olha. «Reparar no real faz eclodir o real que, no invisível, lhe corresponde», diz-se no livro O Senhor de Herbais, para explicar como «as flores em amentilhos, das plantas com ramos longos, finos e flexíveis, correspondem na invisibilidade ao livro das comunidades». É disso que aqui se trata. Daquilo que Llansol nomeia como a «dobra». Também neste livro, neste livro inteiro, as imagens surgem em e como dobra – as de Ilda David’ e as do texto. As imagens múltiplas, diversas e, por vezes, contrastantes, destas xilogravuras correspondem, no plano textual, à composição de um livro como Lisboaleipzig. À técnica da sobreimpressão, que Maria Gabriela Llansol afirma, neste mesmo livro, ser a que melhor define o seu modo de escrita, a de uma paisagem e uma língua sobreimpressas, corresponde este entalhamento nas gravuras, preciso no detalhe, matérico, criador de intensidades dramáticas, onde se avivam tensões que originam diferentes ritmos.

Ao leitor pede-se que apure os sentidos, que exercite a capacidade de ver no visível o invisível que lhe corresponde. Olhar a superfície da madeira – elemento condutor e matriz da imagem – pressupõe ver na dobra a imagem que lhe corresponde, deixando-a emergir, tal como no texto a imagem deixa emergir a sua condição nascente de figura.

O silêncio primordial que, por vezes, envolve Lisboaleipzig, parece alongar-se no espaço negativo da gravura. Em contraste, noutros momentos a música, o canto, o riso de crianças povoa-o com figuras sonoras. E o jogo de alternâncias torna-se visível nas gravuras de Ilda David’ – entre a matriz pura, não trabalhada do negro silente, e o branco dos espaços com sulcos, que escavam a matriz e a enchem de sonoridade. Essa alternância na superfície gravada corresponde ao elemento significante no plano textual – no dizer de Llansol, «as nervuras do tempo», a capacidade de «ver as poeiras» ou «o ressalto de uma frase». Este ressalto é um «silente», ou «a diferença que significa e que nem sempre está onde o público a espera». É, por certo, o pequeno objecto de madeira que nos entregam na passagem de testemunho, vestígio que guardamos na mão quando partimos «à procura das fontes da alegria e da sua figura irradiante».

                                                            Maria Etelvina Santos

18 de Julho de 2014

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