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Ana Hatherly § 08/05/1929 — 05/08/2015

In Uncategorized on 5 de agosto de 2015 at 11:17

Ana Hatherly

Ana Hatherly (1929-2015) faleceu, hoje, no Hospital da Cuf Infante Santo em Lisboa. Contava 86 anos. Era poeta, ficcionista, artista plástica, ensaísta, cineasta, investigadora, com obra traduzida em mais de 16 línguas. Professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, especializou-se em Literatura e Cultura do período barroco. Doutorou-se em Estudos Hispânicos pela Universidade da Califórnia (Berkeley). Fundou o Instituto de Estudos Portugueses, que dirigiu, e as revistas Claro-Escuro e Incidências. Destacou-se, nas décadas de 60 e 70, como um dos principais elementos do movimento da Poesia Experimental (autora do primeiro poema concreto escrito em Portugal), tanto no seu país, como no estrangeiro. É extensa a sua bibliografia poética, ficcional e ensaística. Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores nos anos 70, foi membro fundador do P.E.N. Clube Português, ao qual depois presidiu, e Presidente do Committee for Translations and Linguistic Rights do International P.E.N.

Considerada um dos nomes mais relevantes das vanguardas literário-artísticas portuguesas da segunda metade do século XX, explorou as questões da visualidade do texto e do acto da escrita (desde a sua origem), associando-as a uma profunda pesquisa sobre os processos criativos que, no domínio interartes, lhe estão associados. Paralelamente manteve uma carreira como artista plástica, iniciada nos anos 60, com um extenso número de exposições individuais e colectivas, também no estrangeiro.

A pesquisa que durante décadas prosseguiu sobre a poética barroca, parte essencial da sua especialização académica, permitiu a Ana Hatherly descobrir o que considerava ser «a sua espantosa criatividade», assente numa «sistemática exploração de todos os meios técnicos», como «a visualidade do texto», sublinhou em Um Calculador de Improbabilidades. No entendimento da autora de Joyciana, «a postura essencial do experimentalista não difere muito da do alquimista», uma vez que, para ambos, «o processo não se distingue da obra». Entendia o desenho como uma parte essencial da sua obra, a que mais extensivamente praticou, depois da escrita literária. Escreveu: «Posso dizer que o meu trabalho diz respeito a uma investigação do idioma artístico, particularmente do ponto de vista da representação – mental e visual.»

A obra de Ana Hatherly, lê-se no arquivo digital da PO. EX (revista em que participaram nomes como António Aragão, Herberto Helder, Ernesto Melo e Castro e a própria escritora, e que deu nome a uma exposição e a um livro), «evidencia a assimilação do experimentalismo internacional característico da década de 1960, designadamente por meio da espacialização da palavra e da exploração caligráfica da relação entre desenho e escrita, mas também uma grande versatilidade de géneros, formas e estilos. Uma intensa auto-reflexividade é visível em ciclos de permutações paródicas, no desenvolvimento de formas como o poema-ensaio e a micro-narrativa, e na desconstrução de uma subjectividade feminizada. A atenção à dimensão plástica e gestual da escrita está patente quer em séries recolhidas em livro, quer nos desenhos e (des)colagens, quer ainda nos filmes e acções poéticas que realizou».

ana_hatherly

Obras de Ana Hatherly estão integradas nos principais Museus de Arte Contemporânea portugueses e em colecções privadas nacionais e estrangeiras. Relembre-se os acervos dos seguintes Museus e colecções: em Lisboa, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian (CAM); na colecção Caixa Geral de Depósitos; na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD); no Museu do Chiado; no Museu da Cidade; na colecção PORTUGAL TELECOM, e na colecção Berardo. A sua obra plástica está ainda representada, no Porto, no Museu de Serralves; no Museu Soares dos Reis; na Fundação Abel Lacerda, Museu do Caramulo; na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão; no Museu do Funchal, na Madeira, no Archiv Sohm, em Frankfurt, e na Marvin Sackner Collection, em Miami.

Diplomada em técnicas cinematográficas pela International London Film School, nos anos 70 foi docente na Escola de Cinema do Conservatório Nacional, e no AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual), em Lisboa. Existem cópias dos seus filmes no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e no Arquivo da Cinemateca Nacional, em Lisboa. Destaquem-se Revolução, Lisboa, de 1975, que foi exibido por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril, no Centro Pompidou, em Paris, O que é a ciência? I e II, de 1976, e, de 1977, Rotura, Lisboa, Galeria Quadrum.

Da sua extensa bibliografia, reunida, em parte, em 2001, na obra Um Calculador de Improbabilidades (Quimera), contam-se obras fundamentais da história da poesia e da ficção portuguesas, nomeadamente de As Tisanas, cuja última edição é de 2003, Anacrusa: 68 sonhos, de 1983, e O Mestre, de 1963 (reeditado pela última vez em 2006 com todos os prefácios incluídos). As Tisanas são micronarrativas e/ou poemas em prosa e começam a surgir no fim da década de 60, mais precisamente em 1969. O carácter enigmático destes textos transportam o conhecimento do Experimentalismo, da Psicanálise, do Estruturalismo e do Budismo Zen, sobretudo, o «ensinamento dos desconcertantes Mestres japoneses [usado] para instruir os seus discípulos» Escreve Ana Hatherly na tisana 459, o que define bem o seu trabalho: «O artista, o poeta, o escritor, os que os que perguntam: todos são caçadores de improbabilidades. Pombas ou abutres, frágeis canários ou escondidos melros, raspam, rasgam, rompem, sempre roendo as suas próprias garras. O invisível que há neles então emerge».

Quanto a O Mestre, escrito em Paris durante dez dias, e tendo como cenário o Portugal do Estado Novo, conta a história de uma discípula, que deseja a alegria do conhecimento, e, apaixonando‑se, por um Mestre, vê o seu amor tornar‑se impossível porque «há coisas que a gente não deve querer» nem em forma de «harmonia póstuma». A novela, desconcertante e com uma fidelidade imensa à experiência da linguagem, investe-se da herança cristã do pensamento medieval, renascentista e barroco, bem como do Estruturalismo. Ionesco e Beckett são referências essenciais para a sua leitura. Em causa está a luta da alma como um dos seus desenhos expressa no título: Salvem a Alma!». O labirinto, leitmotiv na obra de Ana Hatherly, dir-se-ia a o motor da narrativa que aborda temáticas a impossibilidade e a incomunicabilidade.

Ana Hatherly estreia-se na poesia com o livro Um Ritmo Perdido, de 1958. Seguem-se As Aparências; A Dama e o Cavaleiro; Sigma; Estruturas Poéticas – Operação 2; Eros Frenético, de 1968; Anagramático; Ana Viva e Plurilida. in Joyciana; de 1982, O Cisne Intacto, de 1983; Volúpsia, de 1984; Rilkeana , de 1999 (Prémio de Poesia do PEN Clube Português) e O Pavão Negro (Prémio de Consagração da Associação Portuguesa de Críticos Literários), de 2003. Relembre-se ainda Itinerários e Fibrilações, respectivamente de 2003 e 2005.

Enquanto ensaísta, relembrem-se as obras O Espaço Crítico – Do Simbolismo à Vanguarda (1979); A Experiência do Prodígio – Bases Teóricas e Antologia de Textos-Visuais Portugueses dos séculos XVII e XVIII (1983); O Ladrão Cristalino – Aspectos do Imaginário Barroco (1997, Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Autores) e Poesia Incurável – Aspectos da Sensibilidade Barroca (2003). Traduziu autores tão revelantes como Nicolau Berdiaeff, Cinco Meditações sobre a Existência; Cesare Pavese, Férias de Agosto; Leopold von Sacher Masoch, A Vénus de Kazabaika; Pierre Klossowski, Sade, Meu Próximo; Denis de Rougemont, O Amor e o Ocidente; J. Collin de Plancy, Dicionário Infernal, e Malcolm Lowry, Ouve-nos Senhor do Céu que é a tua morada, Han-Shan, O Vagabundo do Dharma: 25 poemas, e Sayd Bahodine Majrouh A voz Secreta das Mulheres Afegãs: o suicídio e o canto.

Em 1978, Ana Hatherly foi agraciada pela Academia Brasileira de Filologia do Rio de Janeiro com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura. Obteve, em 1998, o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores; em 1999, o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português; em 2003 os Prémios de Poesia Evelyne Encelot, em França, e Hannibal Lucic, na Croácia. A 10 de Junho de 2009, foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Estão no prelo a tradução para língua francesa da novela O Mestre, assinada por Catherine Dumas, um volume de homenagem publicado por iniciativa da Universidade Federal Fluminense no Brasil (UFF, Niterói) e outro de ensaios, pela Theya, que completa a trilogia sobre o Barroco, intitulada Esperança e DesejoAspectos do Pensamento Utópico Barroco. Mão Inteligente, um filme de Luís Alves de Matos, Lisboa, debruça-se sobre a sua obra, sobretudo no domínio das artes plásticas.

A.M.G.

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