A Phala

Para o alívio completo dos sintomas

In A Phala on 30 de maio de 2017 at 11:56

CP_CURA

O livro é dos objectos mais curiosos do mundo. É feito de papel, tinta, cola, portas e janelas. O papel, tinta e cola são semelhantes em todos os livros, mas as portas e janelas são muito diferentes. O seu número e forma dependem da qualidade do livro. Um bom livro tem mais portas e janelas do que um livro menos bom. Um livro menos bom tem apenas uma porta e o interior é uma monótona e regular construção de paredes brancas. Tudo ali é claro, sólido, higiénico, e o caminho é em frente, através de um corredor sem desvios. Um bom livro, pelo contrário, não dá tréguas ao leitor: a todo o momento o chão desaparece sob os pés, o tecto ameaça cair, há zonas sombrias e outras de uma luz aguda e insuportável, há muros e caminhos estreitos, jogos a jogar, escolhas a fazer.

No primeiro parágrafo deste livro, há pelo menos duas portas. Este leitor abre a primeira e é recebido pelo narrador. Um psicanalista freudiano, interessado em partilhar o seu “testemunho” enquanto terapeuta. Algumas linhas depois, o leitor percebe que a intenção do narrador é revelar uma experiência em particular. Mais à frente ainda, o leitor conclui que essa experiência é a da relação profissional do narrador com um personagem específico, o seu paciente mais exigente, um destacado crente católico.

Eis, pois, o que podemos encontrar do outro lado da primeira porta: uma história centrada nas inevitáveis tensões entre o discurso da ciência e o da religião. Ambos produtores de verdades absolutas e aparentemente antagónicas. Uma excelente entrada, com atractivos mais do que suficientes para seduzir uma imaginação cúpida. Mas há outra porta e este leitor é curioso.

A segunda porta abre-se para uma leitura que está longe ser original, mas que nunca deixa de fascinar este leitor ansioso e compulsivo, obcecado em reconhecer as leis da mecânica literária em tudo o que existe. “A terapia analítica pressupõe um jogo de relações bidireccionais: do paciente ao terapeuta, do terapeuta ao paciente”, lê-se na página 51. Ora, o mesmo jogo de relações pode verificar-se entre o escritor e o leitor. No fundo, trata-se de aplicar à leitura o mapa freudiano ou o seu sistema analítico.

Vejamos: o paciente, tal como o escritor, é um criador de ficções, histórias, narrativas, fantasmas e fantasias. O terapeuta, por seu lado, é um leitor, um leitor especializado. Lê as histórias do paciente como um crítico literário, interpretando cada pormenor, cada nuance, cada reticência. Quer dizer, lê cada caso pelas costuras, pelo avesso, nas entrelinhas, no que é dito e, sobretudo, no que é silenciado.

Pois bem, este leitor neurótico espreita a primeira porta, mas escolhe a segunda. Na página 23, o personagem X diz ao terapeuta: “É preciso que estas noites sejam tão reais como um sonho.” O terapeuta responde: “Sabe que essa afirmação, aos ouvidos de um analista, tem um significado diferente do que teria uma conversa entre leigos.” Eis a prova de que a escolha foi acertada: este leitor prefere sempre o “significado diferente”, as meias-verdades e as meias-mentiras.

Avancemos por aqui. No princípio do livro, à boa maneira freudiana, o narrador recua até à sua infância e juventude. Em jovem, foi um hipocondríaco. Não é uma informação gratuita (na literatura, como na psicanálise, nada é produto do acaso). Trata-se de uma pista importante. A hipocondria é uma espécie de gerador de ficções. O hipocondríaco ficciona para si toda uma labiríntica biblioteca de doenças e males. “Todas as doenças são invenções”, diz o narrador. Também o aprendiz de escritor dedica todo o seu esforço a um exercício contínuo de experimentação. Desenha planos, testa possibilidades, procura respostas, deixa-se “afundar no pavor infinito” da hipocondria. O jovem escritor é um hipocondríaco. “Sem a minha hipocondria”, diz o narrador, “nada teria acontecido”.

E o que aconteceu? O narrador cresceu e tornou-se um psicanalista famoso, procurado por toda a espécie de pacientes, anónimos e figuras públicas, incluindo um em particular, a que chamaremos Personagem Z. Este paciente é um católico, digamos, altamente qualificado. O leitor transforma-se num espectador silencioso das consultas de Z. Pode ver, ouvir, sentir o que se passa em cada consulta. Curiosa palavra, “consulta”. A mesma palavra pode aplicar-se ao acto de abrir um livro para aceder a um conhecimento. Como o paciente que dá a ler a sua história para que o terapeuta a conheça, observe, examine e interprete.

Na página 39, o narrador mostra-nos o seu “caderno”, ferramenta essencial para “anotar elementos mínimos”. “E quem lerá esses elementos mínimos?”, pergunta Z. “Só eu”, responde o terapeuta, “servem-me para acompanhar um paciente. Há pormenores de uma consulta que se tornam compreensíveis meses depois, a memória é pouco fiel”. A memória tende a enganar-nos na medida em que é permeável aos sedutores mecanismos da imaginação. Mas de que falamos até aqui senão do infinito poder da imaginação?

O paciente precisa do terapeuta para que este leia os seus sonhos. O terapeuta precisa de um caderno para escrever, de modo fiel, os sonhos do paciente. Mas como ser fiel a um sonho? Os sonhos só são fiéis aos sonhos. A literatura só é fiel à literatura.

Avancemos mais um pouco. Sozinho no consultório, o terapeuta observa o seu divã: um divã antigo, de veludo vermelho, adquirido num antiquário. Enquanto os outros psicanalistas preferem divãs sofisticados, assépticos, clínicos, ele comprou um que pertenceu a mais de um discípulo do próprio Freud. “Havia magia naquele objecto dos primórdios da psicanálise.” Por outras palavras, o valor deste divã está na “magia”, transmitida em segredo através das épocas. No velho divã de veludo vermelho, estão deitados os seus precursores, os grandes mestres, quer dizer, os clássicos. O escritor que deseje aprender os mistérios do ofício, a magia da sua arte, deve ouvir estes fantasmas, estudá-los, interpretá-los, uma e outra vez, mil vezes, dez mil vezes.

Mas não existirá aqui uma contradição? Um terapeuta freudiano e positivista pode evocar a magia e os fantasmas? Em literatura, não existem contradições. A resposta está na página 88: “Olhe que o próprio Freud acreditou que tinha visto um fantasma. Estava no consultório e o fantasma entrou. Na verdade, era só a irmã de uma ex-paciente já falecida, uma irmã muito parecida. Mas, durante uma fracção de segundo, o mais positivista dos homens acreditou que os fantasmas existiam e estava a ver um.”

Talvez o absurdo mereça a nossa crença. “Os autores da Igreja dizem: credo quia absurdum, acredito porque é absurdo, ou melhor: acredito no absurdo” (p. 207). Quer dizer, o absurdo é o que há de mais verdadeiro. Porque no absurdo não existe espaço para a dúvida. Não há lógica, tempo ou espaço. Tudo é verdade e tudo é mentira. Ernest Jones lembrava que a citação preferida de Freud era a advertência de Hamlet a Horácio: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que aquelas que são sonhadas pela tua filosofia.”

No epílogo, surge finalmente o nome do narrador e o que se pode dizer, sem revelar demasiado, é que se fecha um ciclo, como uma porta, mas abrem-se imediatamente várias janelas. A mudança espantosa que se verifica no interior do narrador exige que se coloque – com toda a prudência, obviamente – uma última hipótese: sendo a psicanálise uma explicação imaginativa da natureza humana, baseada em poderosas técnicas literárias, será possível explicar o mundo através da literatura? E se a resposta for afirmativa, não será a literatura, tal como a psicanálise, uma espécie de religião? Com os seus profetas, santos, papas, padres e fiéis?

Se nos deixarmos entusiasmar por esta hipótese, surge inevitavelmente uma outra. Se a literatura é uma espécie peculiar de fenómeno religioso, com a sua ortodoxia, organização, cânone e hierarquia, então quem são os agnósticos, heréticos e ateus da literatura? Ambas as respostas, mais uma vez, talvez se encontrem neste livro engenhoso e sofisticado.

Tal como Freud escreveu, na edição de 1934 de “A Interpretação dos Sonhos”, “todas as escritas genuinamente criativas são resultado de mais do que um único motivo, e de mais do que um único impulso da mente do poeta, e estão abertas a mais do que uma única interpretação”.

A literatura, enfim, não oferece a si mesma, nem a nós, qualquer cura. Apenas o princípio de um alívio. A impressão de uma esperança para a nossa infinita necessidade de consolo. Um sonho de imortalidade. Já não é pouco. Na verdade, é tudo.

Rui Manuel Amaral

Apresentação de A Cura, de Pedro Eiras.

Livraria Flanêur, 27 de Maio de 2017

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